Reorganização paulista copia Nova York

A reorganização proposta pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo pode estar copiando modelos de reforma educacional usados na Cidade de Nova York 14 anos atrás e já aposentados pelo seu principal mentor, Bill Gates. A reorganização faz parte de uma investida maior da Secretaria na direção da privatização da educação paulista. Esta estratégia inclui variadas formas de implementação, sendo uma delas a reorganização. Elas visam inserir as escolas em um “mercado de escolha”.

O fato das escolas de São Paulo estarem sendo divididas por ciclo não é o ponto central da reforma. O que se está pretendendo com a reorganização é replicar estratégia seguida por Bloomberg em 2001, na Cidade de Nova York, quando este fez uma reforma agressiva das grandes escolas de ensino médio, reduzindo-as a escolas menores.

Aqui em SP, a estratégia foi começar pela realocação baseada nos ciclos, deixando as escolas supostamente menores, menos complexas, mais sucetíveis à pressão dos gestores por resultados, e prontas para novas ações no âmbito da reforma escolar privatizante e também de retomada da municipalização.

O processo de privatização vale-se de diferentes formas de ataque à escola pública. Inclui fechamento por baixo desempenho, divisão de escolas grandes em pequenas escolas, passagem da gestão da escola para a iniciativa privada e/ou reorganização. Esta ação pode ser apenas uma dentre outras planejadas. Seria o primeiro passo para uma segunda rodada de novos ataques.

É muito provável que a reação contrária tenha motivado uma redução considerável da ideia original, muito mais arrojada e próxima de Nova York. São Paulo tem uma queda especial por copiar modas já superadas em Nova York. Assessorada pela consultoria Mckinsey que participou da privatização da Cidade de Nova York, o governo paulista já sabia que haveria reações fortes, pois foi assim também em Nova York. A ação conta com suporte direto do governador Alckmin e não deve ser entendida como uma simples “trapalhada” do Secretário de Educação. Por isso Herman disse na audiência de conciliação com os estudantes que levaria a proposta deles “para o governador”.

Como nos diz Epstein, a Fundação Gates aplicou 2 bilhões de dólares no experimento de “downsizing” em várias cidades e depois parou, pois os resultados não compensavam. Apenas em uma das cidades ela foi considerada mais exitosa, a Cidade de Nova York, supostamente graças a genialidade gerencial de Bloomberg – leia-se: a forma agressiva com que ele lidou com as escolas públicas e o magistério.

Apesar de Gates ter desistido da iniciativa, era natural que a Cidade de Nova York virasse foco de estudos. Em 2009, um estudo do Center for New York City Affairs já mostrava que, mesmo nesta cidade, os ganhos não eram os alardeados por Joel Klein, então Secretário da Educação de Bloomberg. Ver também aqui.

Diane Ravitch informa que, nesta semana, um novo relatório tenta mostrar que a estratégia de fechar escolas públicas foi bem sucedida. Trata-se de um relatório preparado pela Research Alliance.

Veja o relatório completo aqui.

O relatório é examinado por Haimson que assume forte cepticismo em relação ao principal achado deste e que se refere ao fato dele considerar ter sido bom para os alunos o fechamento de escolas. Para ela o novo relatório é advocacia de ideias:

“A Research Alliance foi fundada com US $ 3 milhões da Fundação Gates e é mantida com financiamento da Carnegie Corporation, a qual ajudou a pagar pelo relatório. Estas duas fundações ajudaram a promover e subsidiar o fechamento de grandes escolas e sua substituição por pequenas escolas. Embora a Fundação Gates já tenha reconhecido a ineficácia desta política, Michele Cahill, por muitos anos vice-presidente da Carnegie Corporation, liderou este esforço quando ela trabalhou no Departamento de Educação.”

“Dessa forma, garante uma porta giratória para que os mesmos funcionários do Departamento de Educação que ajudaram a fechar estas escolas continuem no controle da narrativa, permitindo-lhes financiar – até mesmo o pessoal – as organizações que produzem os relatórios que retroativamente justificam e os ajudam a perpetuar suas políticas. “

O roteiro da privatização da educação paulista não é público e tem pouco a ver com o simplório estudo que foi enviado ao Estadão para justificar a reorganização. De fato, este estudo está nas mãos das consultorias que orientam a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo – Mckinsey e Falconi, pagas por empresários.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Reorganização paulista copia Nova York

  1. Najara Quercia Moreira Lima disse:

    O funcionalismo público precisa ser reciclado e sabemos disso, não extinto, pois a federação sucata a educação no processo atual, o que nos faz entender que apenas delegar este sucateamento estrutural à empresas privadas que visam apenas lucro como benefícios.

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