Liberalismo enganoso e neoliberalismo real

Felipe Freller e Roberta K. S. Nicolete examinam o auto-proclamado liberalismo no governo Bolsonaro e mostram como ele é enganoso. Dizem:

“Que poder liberal é esse defendido pelo governo, afinal? É um poder que promete se encarregar da sorte das pessoas, nos menores detalhes da vida: a religião que você professa, o que o seu filho está aprendendo na aula de ciências, por quem você deve se apaixonar, as cores das suas vestimentas coordenadas com o seu gênero – que também é orientado pelo governo, sim! -, o comportamento associado às tradições “certas”. Ao dizer “deixa comigo que eu cuido de tudo: de seus negócios, da sua educação, da sua segurança!”, esse poder paterno e de braços abertos mente sobre suas raízes liberais, pois viola a independência individual, condição sem a qual a liberdade não pode ser completa.”

Leia a íntegra do texto no Estadão.

Embora a análise dos autores esteja correta no que se refere ao liberalismo do governo – especialmente se consideramos figuras como Bolsonaro, Velez, Damares e Araujo que são na realidade conservadores, é preciso complementar dizendo que a análise deles não incluiu um exame dos neoliberais (Paulo Guedes) que são herdeiros de teóricos como Friedman, Buchanan, Hayek, Mises.

Estes últimos, convivem muito bem com golpes em alianças com os conservadores e com o autoritarismo e, contrariamente aos liberais de raiz, estão dispostos a abrir mão dos direitos políticos e sociais em defesa do livre mercado, o qual é, para eles, a verdadeira fonte da liberdade pessoal (e não a democracia liberal, algo optativo).

De fato, seria mais correto dizer que o governo Bolsonaro representa uma associação entre conservadores e neoliberais. Eles têm em comum o autoritarismo – ao qual se juntam também militares da reserva – cujas raízes remontam ao general Sylvio Frota (que se contrapunha a Geisel na fase de abertura da ditadura militar). Como aponta Fernando Rosa:

“O então capitão Augusto Heleno [hoje no governo Bolsonaro], nos anos setenta, foi ajudante de ordens do general Sylvio Frota, segundo o jornalista e escritor Elio Gaspari, em artigo publicado na Folha, em 28 de novembro de 2018. Já o general Hamilton Mourão, em sua despedida do Exército, em fevereiro de 2018, declarou ter sido comandado por Brilhante Ustra, a quem chamou de “herói”.

A turma do Haiti, em resumo, significa um retrocesso não apenas ao passado antidemocrático do Brasil, mas principalmente às teses antinacionais derrotadas durante o governo do general Ernesto Geisel que, além disso, mais tarde, chamou o deputado Bolsonaro de “vivandeira” e “mau militar”.”

Leia mais aqui.

O que cimenta estas forças é o autoritarismo reacionário. Todas elas admitem que a democracia liberal representativa pode ser suprimida se a ordem social dela decorrente – a ordem capitalista – estiver ameaçada. A questão é: quem decide que ela está ameaçada? O que fazer com uma ordem que entrou em uma fase de crises permanentes e está estagnada desde 1973 – mesmo tendo novas tecnologias para motivar um ciclo de crescimento? Já temos 40 anos de testes neoliberais que não funcionam.

É provável que os liberais que apoiaram Bolsonaro contra o PT vão tentar se descolar dele – sob comando de Maia, na Câmara. Devemos fechar esta porta, pois os liberais não podem se apresentar, agora depois das eleições de 2018, como não tendo nada a ver com este governo. Com raras exceções, apoiaram o golpe, a prisão de Lula e a própria eleição de Bolsonaro, confiando que, depois, poderiam controlá-lo.

A estratégia da direita liberal é apoiar a agenda econômica neoliberal e distanciar-se do governo com vistas às eleições de 2022, colocando-se como uma “opção mais sensata”. Nem mesmo Olavo de Carvalho (extrema direita) quer mais aparecer apoiando Bolsonaro, tendo disparado de Virgínia (USA) que “seus alunos” deveriam sair do governo porque ele está “cheio de inimigos” (leia-se: Mourão e Paulo Guedes).

Mourão, o vice-presidente, está consciente disso e já aposta em sua versão “paz e amor” para ganhar o apoio dos liberais. Moro, o ministro de Justiça, e o pessoal da Lava Jato, observam, mas não  só.

A questão para o governo será, cada vez mais, como manter estas forças heterogêneas unidas depois de ter derrubado o petismo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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