Crise do liberalismo e os desafios da esquerda

Do ataque ao Capitólio, à crise de Manaus e ao desgoverno federal, o que se vê é a sedimentação de uma cultura do “eu” em detrimento do “outro”. O ataque ao “outro” pela afirmação do “eu”, legitimada pela meritocracia que justifica a força do “eu”, acompanha a retirada do Estado da regulação do mercado e das relações pessoais, ideia que se difunde amplamente entre as classes sociais: “fuck you”.

Para usar o termo de Habermas (2002), a “intersubjetividade” foi subjugada pela prevalência de um “auto-referenciamento” ampliado tanto pelo neoliberalismo, como pelo pós-modernismo: o “outro”, se não está dentro da minha “bolha”, se pensar diferente ou quiser conter minha “liberdade” – é potencialmente um inimigo a ser abatido ou no mínimo ignorado.

Este diagnóstico não se completa, se não levarmos em conta o mundo objetivo das condições sociais concretas que interagem com o desenvolvimento desta subjetividade auto-referenciada. É de grande importância colocarmos a crise do capitalismo e de sua expressão política e ideológica, o liberalismo, no centro da análise dos acontecimentos atuais, pois estas crises serão progressivas e agravarão, cada vez mais, o convívio social. O liberalismo não tem como se livrar do fardo da crise do capitalismo e é tão decadente quanto ele. Quanto mais evitarmos reconhecer esta realidade, menos preparados para pensar o futuro estaremos.

O liberalismo contemporâneo, em quaisquer das suas vertentes (social-democrata, neoliberal ou libertariana) marcha para a decadência, puxado pelas suas formas mais radicais: o neoliberalismo reacionário (Biebricher, 2018 ) e o libertarianismo (Rothbard, 2006).

O crescimento da extrema-direita, no caso americano, é produto do fracasso das políticas neoliberais reacionárias que dominaram o cenário político daquele país nas últimas décadas (Fraser, 2019). Mesmo sendo um crítico de alguns aspectos do neoliberalismo, nem Trump conseguiu romper com ele. De fato, o Partido Republicano está, hoje, povoado por neoliberais reacionários e libertarianos de extrema-direita. Por outro lado, os liberais centristas também não conseguem romper com as políticas neoliberais.

Acuados na casa de horrores que criaram, o que restou foi combinar a defesa das reformas neoliberais com algum recuo a teses centristas (garantia de oportunidades, identitarismo, “inclusão” e outras), agora sob a ótica de uma proposta sócio-política individualista e meritocrática, formatando o que Fraser (2019) chamou de “neoliberalismo progressista”.

Esta posição procura recriar um “centro” político sob novas bases. Para Fraser, trata-se de uma aliança entre “as principais correntes liberais dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo, ambientalismo e ativistas pelos direitos LGBTQ+) com os “setores mais dinâmicos, de ponta, “simbólicos” e financeiros da economia americana.” (Posição 315.) Para ela:

“Para que o projeto neoliberal triunfasse, tinha que ser reembalado, receber um apelo mais amplo e ligado a outras aspirações emancipatórias não econômicas. Somente quando adornada como progressista é que uma economia política profundamente retrógrada poderia se tornar o centro dinâmico de um novo bloco hegemônico.”(Posição 331.)

Os defensores do “neoliberalismo progressista” pretendem, com seu projeto, promover um reencontro entre as elites e os demais em um novo pacto social guiado pelo que poderíamos chamar de uma “inclusão meritocrática” que promove, igualmente, uma “exclusão meritocrática”, auto-justificada por esta mesma meritocracia. A mensagem é clara: o sistema dispõe oportunidades, não exclui, quem se exclui são as próprias pessoas que não se esforçam para aproveitar as oportunidades.

Nada é dito sobre as condições objetivas disponíveis para que as pessoas agarrem tais oportunidades – elas ficam subentendidas no “esforço pessoal”. Como adverte Markovits (2019): a meritocracia é uma armadilha, um jogo de cartas marcadas onde as elites têm ciência que somente elas, por deterem as condições materiais necessárias, podem ganhar o jogo. Mais ainda, a meritocracia agrega à injustiça social o fator humilhação: se os ricos estão melhor de vida, é porque mereceram mais que eu (Sandel, 2020).

Propõem um reencontro, um abraço tipo Guedes, onde “coloca-se uma granada no bolso” dos demais. A política de identidade, sem uma análise contextualizada de suas condições materiais, será levada a esta “inclusão meritocrática” ilusória. Nas mídias sociais os poucos negros e negras, LGBTs e outros que consigam furar o cerco, serão exibidos hipocritamente como exemplo de inclusão. Melhor ainda se forem empreendedores autônomos – não importando se estão vendendo alguma bugiganga para seus colegas de mesma condição econômica ou portadores de uma “carreira” com data marcada para caducar.

E, assim, devidamente justificada a onda excludente que a crise do capitalismo produz, e que será ampliada, a elite pode voltar a dormir tranquila e desobrigar-se da condição social adversa que ela mesma produziu: afinal, deu oportunidades. O passo seguinte será criar condições para que somente os portadores de mérito possam votar e ser votados, algo que o liberalismo almeja desde o dia seguinte da Revolução Francesa.

Neste cenário, o antigo centrismo de esquerda tenderá a ser engolido por este neoliberalismo progressista, se não se diferenciar dele. Para se diferenciar, no entanto, ele terá que radicalizar mais suas teses. E não adiantará apenas apelar para um discurso identitário. O novo centrismo é neoliberal com face progressista e também identitária, portanto este terreno estará ocupado.

O dramático é que este neoliberalismo progressista tenderá a ser recriado no Brasil não só pelo centrismo de direita, mas também pelo centrismo de esquerda – em especial aquele que, hoje, já aceita até mesmo as ONGs como instâncias de participação social “não estatal” – algo como uma “terceira via” tardia.

Porém, as reais intenções deste novo centrismo de direita e esquerda só poderão ser melhor apreciadas, quando esclarecerem exatamente quais são as “reformas” pretendidas. Note-se, no entanto, que o cordão dos insatisfeitos na base da sociedade aumenta incessantemente com a crise e que, no caso americano, foi exatamente o neoliberalismo progressista de Clinton e Obama, que se seguiu ao neoliberalismo reacionário de Reagan e Bush, que conduziu à ampliação da extrema-direita.

A esta dificuldade soma-se outra: a fragmentação e o esvaziamento político gerado pela própria cultura pós-moderna, produzida no âmbito do capitalismo globalizado e neoliberal (Jameson, 2002), e que também atinge as formulações tanto da direita, como da esquerda.

Examinando a pós-modernização da direita conservadora, M. McManus em “O crescimento do conservadorismo pós-moderno” (2020) afirma:

“Liberais, conservadores neoliberais, e a esquerda interessada em políticas de identidade e até mesmo alguns tradicionalistas aproveitaram a chance de implantar novas mídias tecnológicas para promover seus objetivos políticos específicos. O que não foi percebido é que a consequência adicional desses esforços poderia mudar dramaticamente a cultura política como um todo. Os problemas foram diagnosticados desde o início por vozes proféticas como Marshall McLuhan, Neil Postman e Jean Baudrillard. Mas seus insights foram amplamente ignorados pela massa de ativistas políticos, que se apressaram em acessar o Facebook, Twitter, Instagram e outros novos meios de comunicação confiantes de que estimulariam uma série de vitórias futuras ”. (Posição 582-591.)

“Ao mesmo tempo, o impacto da cultura pós-moderna foi ainda mais profundo, desestabilizando nosso próprio senso de localização e identidade. A influência tecnológica e estética da cultura pós-moderna levou a uma desestabilização gradual das identidades tanto do indivíduo quanto ao nível de grupo. Como já foi mencionado, os meios tecnológicos gradualmente envolveram muitos em bolhas de comunicação cada vez menores.” (Posição 591.)

É verdade que há também um pós-modernismo crítico do neoliberalismo. Mas a crítica que nos oferece é auto-referenciada (Habermas, 2002). Avessa a projetos históricos concretos, culturalmente relativista e cética, induz ao nihilismo irônico e ao individualismo militante (agora, midiático), que vê o consenso como uma forma de opressão (da mesma maneira que os neoliberais e mais ainda os libertarianos). Foge da organização coletiva, da ênfase na solidariedade e da construção de um futuro superador de um capitalismo moribundo que se nega a considerar, preferindo dedicar-se à “autocrítica abissal”, na expectativa de que uma genealogia lhe revele um saber purificado que lhe permitirá reconstruir os caminhos em uma pós-modernidade.

A resistência se transforma em insurgência multifacetada, identitária, distribuída em nós isolados de uma pretensa rede de desobediência, mas que é, de fato, suicidária, pois que tais nós podem ser facilmente neutralizados pelo status quo neoliberal e seus aparelhos de hegemonia privados. Os “territórios” não estão desocupados e nem são “planos”.

O horizonte negativo, a anomia e a falta de perspectiva e de projeto dão lugar à fuga para narrativas que nutrem soluções no plano das utopias. Esvazia-se a força organizativa da resistência e se oferece, em seu lugar, uma saída que se configura em um “comunitarismo bairrista” com pretensa intenção de desestabilizar o capitalismo globalizado.

Dessa forma, tanto o neoliberalismo progressista como o pós-modernismo (mesmo o crítico) caminham lado a lado e cada um, a seu modo, esvazia a organização e a resistência coletiva. A ambos pode-se aplicar as considerações críticas de N. Fraser (2019): as políticas identitárias introduzem o “reconhecimento” dos diferentes, mas não avançam para questões de fundo da redistribuição e equalização das condições de vida. Este identitarismo, praticado até por uma parte da esquerda, tem levado a uma pós-modernização da esquerda, a exemplo do que já ocorreu com a pós-modernização da direita conservadora, bem captada por McMannus, e vai ser absorvido pelo neoliberalismo progressista. E corre o risco de agradar – vide Biden/Kamala.

Além disso, esta pós-modernização da esquerda tem lavado ao esvaziamento do exame das opções históricas disponíveis no âmbito da modernidade, pois tem um visão negativa do futuro ao não avalizar quaisquer dos projetos históricos disponíveis. Sem nenhum articulador para a luta, a mobilização coletiva fica dificultada e, tal como o individualismo neoliberal, acaba direcionando para a performance individual.

M. McManus, em outro estudo: “O que é o conservadorismo pós-moderno” (2020), indica as características da cultura pós-moderna incorporadas pelos conservadores:

1. Uma negação de padrões racionais para interpretar fatos e valores. O que caracteriza o conservador pós-moderno é a indiferença ao dualismo entre verdade e falsidade.

2. Esta desconstrução da verdade faz com que o conservador apele a uma identidade tradicionalmente poderosa (crenças, a religião) como uma fonte de verdade em meio a uma narrativa de vitimização e ressentimento. Aqui o conservadorismo se manifesta em uma narrativa de vitimização que idealiza tanto inimigos internos como externos dos quais há que se defender. Este ataque é um sentimento de medo ao diferente, medo do multicultural, de grupos não tradicionais como LGBT, etnias não ocidentais, etc.

3. Professa uma ideologia política contraditória e reacionária.

4. Apesar de reacionários, os conservadores pós-modernos usam a mídia hipermoderna para divulgar sua ideologia política.

5. Uma vez no poder, os conservadores pós-modernos reprimem ativamente outros grupos de identidade. Isso inclui aqueles que sustentam outros padrões epistêmicos e meta-éticos a fim de preservar a integridade da sua narrativa de vítima e sua consequente ideologia política.

Assim, o conservadorismo pós-moderno incorpora a lógica da cultura pós-moderna e a visão pós-moderna negacionista sobre a modernidade, para preencher com suas teses este “horizonte negativo” pós-moderno.

Em resumo, o neoliberalismo progressista pretende ocupar o centro político e retirar bandeiras da “esquerda centrista”, esvaziando-a. O negacionismo pós-moderno das metas narrativas, ou seja, das filosofias sociais criadas na modernidade (conservadorismo, liberalismo e socialismo, combinações e variantes inclusas), cria um horizonte negativo e despolitiza a luta. O negacionismo conservador aproveita o vazio e o preenche com a crença, a tradição e a religião, além de abrir espaço para toda sorte de teorias conspiratórias.

Estas são algumas das dificuldades que a esquerda tem a enfrentar: o pós-modernismo; uma extrema-direita conservadora pós-modernizada; o esgotamento da esquerda centrista; o identitarismo meritocrático; e o crescimento de um neoliberalismo progressista voltado para justificar pelo mérito a exclusão social.

No entanto, este cenário de adversidades também contém positividades que se abrem: a crise do capitalismo/liberalismo é estrutural e irreversível. A crise da esquerda é conjuntural e seu sucesso depende de saber enfrentar o neoliberalismo progressista e o pós-modernismo a partir da base social, saindo do campo das utopias para o terreno da utopística, na expressão de Wallerstein, fazendo o exame sério das opções históricas que temos pela frente, das quais precisamos nos apropriar para construir a superação do capitalismo (Wallerstein, 1998).

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Biebricher, T. (2018) The Political Theory of Neoliberalism. California: Stanford University Press.

Fraser, N. (2019) The Old Is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond. New York: Verso. Há edição brasileira: Fraser, N. (2019) O velho está morrendo e o novo não pode nascer. Autonomia Literária.

Haberman, J. (2002) O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes.

Jameson, F. (2002) Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo, Ed. Ática.

Markovits, D. (2019) The meritocracy trap: How America’s Foundational Myth Feeds Inequality, Dismantles the middle class, and devours the elite. New York: Penguin Press.

McManus, M. (2020) What is post-modern conservatism? Essays on our hugely tremendous times. UK: Zero Books.

McManus, M. (2020) The rise of post-modern conservatism: neoliberalism, post-modern culture and reactionary politics. Vancouver: Palgrave Macmillan.

Rothbard, M. (2006) For a New Liberty. Alabama: Ludwig von Mises Institute.

Sandel, M. J. (2020) A tirania do mérito: o que aconteceu ao bem comum? Rio: Civilização Brasileira.

Wallerstein, I. (1998) Utopística: las opciones históricas del siglo XXI. México: Siglo XXI  ed.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Crise do liberalismo e os desafios da esquerda

  1. Charles Farias Siqueira disse:

    “A crise da esquerda é conjuntural e seu sucesso depende de saber enfrentar o neoliberalismo progressista e o pós-modernismo a partir da base social (…)” Como é esse “saber enfrentar” o neoliberalismo no meu micro espaço político (sala de aula com alunos/as com “extrema pobreza desestruturada”?

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