A volta do “Estado grande” ou mero efeito da pandemia?

Biden, presidente dos Estados Unidos, envia ao Congresso um plano trilhonário para alavancar o pós-pandemia. Nota do Blog “Inside Higher Ed” resume aspectos do plano para a educação:

 “- US $ 109 bilhões para pagamento de dois anos em faculdade comunitária gratuita “para que todos os alunos possam obter um diploma ou certificado. Os trabalhadores americanos precisam e merecem apoio adicional para desenvolver suas habilidades, aumentar seus ganhos, permanecer competitivos e compartilhar os benefícios da nova economia”, diz o plano.

 – $ 80 bilhões para reajustar os subsídios para estudantes que necessitem de ajuda chegando a $ 1.400 dólares. “Embora quase 7 milhões de alunos dependam deste subsídio, ele não acompanhou o custo crescente das faculdades. Nos últimos 50 anos, o valor do subsídio despencou. O subsídio máximo que cobria quase 80 por cento do custo de um diploma de faculdade de quatro anos caiu para menos de 30 por cento – levando milhões de estudantes de baixa renda a se endividarem para financiar sua educação “, diz o plano.

– US $ 62 bilhões para um programa de subsídios “para investir em atividades de conclusão e retenção em faculdades e universidades que atendem a um grande número de alunos de baixa renda, especialmente faculdades comunitárias. Estados, territórios e tribos receberão subsídios para fornecer financiamento a faculdades que adotem inovações, soluções comprovadas para o sucesso do aluno, incluindo serviços abrangentes que variam de cuidados infantis e serviços de saúde mental a professores e mentoria de pares; subsídios para necessidades básicas de emergência; práticas que recrutam e retêm professoress; acordos de transferência entre faculdades; e programas de remediação baseados em evidências. “

– US $ 39 bilhões “que fornecem dois anos de mensalidades subsidiadas para alunos de famílias que ganham menos de US $ 125.000 matriculados em uma faculdade historicamente negra de quatro anos”, universidades controladas por tribos ou instituição de serviço que atendem a minorias.

– Dobrar as bolsas para futuros professores de US$ 4.000 a $ 8.000 dólares por ano. O plano Biden também visa US $ 400 milhões para a preparação de professores em instituições que atendem a minorias e US $ 900 milhões para o desenvolvimento de professores de educação especial.”

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Tudo isso será financiado pelo aumento do controle e da taxação dos mais ricos. Ele pode ganhar ou perder no Congresso, mas o importante: colocou seu projeto e sua visão para a recuperação americana.

Como afirma Patrícia Mello, na Folha de São Paulo:

“Coube a um senhor de 78 anos, moderado a ponto de ser entediante, propor uma revolução: ressuscitar o papel do Estado como grande provedor de serviços e enterrar o reaganismo nos Estados Unidos. A pandemia do coronavírus, que deixou patente a diferença entre governo ausente e administração eficiente, foi essencial.”

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Apesar disso, a área da educação americana ainda está em pé de guerra contra a decisão de Biden de manter os exames nacionais na pandemia, quando havia sinalizado sua suspensão. Além disso, não há nenhuma medida de fundo para reverter a privatização que corroeu a educação americana e para conter, nos Estados, o avanço do lobby privado que pressiona para que os vouchers sejam ampliados.

Enquanto isso, por aqui, cortamos e contingenciamos o orçamento da educação pública e induzimos a privatização da educação, sob a batuta de vovô Paulo Guedes. Como semiperiferia, ainda vivemos os ecos da época do neoliberalismo radical de Reagan/Thatcher, com quem Guedes aprendeu nos anos 70.

Se a inflexão de Biden significa a volta do “Estado grande” ou um mero efeito da pandemia, ainda é muito cedo para sabemos. Mas, por esta amostra do que está pensando Biden para aumentar o Estado americano, no Brasil, a emergência da chamada “terceira via” (entre Bolsonaro e Lula) tem mais cara de neoliberalismo disfarçado do que de uma política de aumento do papel do Estado. É possível que o “terceirismo” brasileiro se contente em reduzir a presença das políticas conservadoras, retirando o “bode da sala” e fortalecendo o neoliberalismo. Cabe a Lula se diferenciar.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, MEC sob Bolsonaro, Privatização. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para A volta do “Estado grande” ou mero efeito da pandemia?

  1. Marlon Eij disse:

    É professor.. me parece só efeito da pandemia. Até pq esse dinheiro todo investido na forma de voucher serve mais para financeirizar a educação do que promover igualdade com “Estado forte”. E sobre o Lula, não podemos mais ficar refém desses simbolos..o neoliberalismo só vai ser destruído com muita luta!

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