BNCC americana: uma década perdida

O recente livro de Tom Loveless, “Entre o Estado e a Escola: compreendendo o fracasso da Base Comum”, finalmente está sendo distribuído. O livro reúne a experiência americana em elaborar sua base comum curricular (Common Core). Como o autor relatará, ela coroa 30 anos de fracassos das reformas empresariais na educação que iniciaram com o relatório “Uma Nação em Risco”, teve continuidade com o “Nenhuma Criança Deixada para Trás” do governo Bush, atravessou os governos Obama sob o programa “Corrida para o Topo” para desaguar em uma combinação entre a lei “Toda Criança Bem-Sucedida” e a adoção de uma “Base Comum”.

Lá, a Base Comum regulamenta apenas Inglês e Matemática e foi elaborada em 2010. Além disso, ela não é mandatória como aqui: os estados optam por ela. Com os incentivos federais, quase todos os estados optaram por ela. O livro de Tom reúne os processos de sua elaboração, financiados pela Fundação Bill Gates, e também os estudos realizados até 2020 sobre a eficácia da implementação da Base Comum.

A conclusão é que a implementação da Base não confirmou as previsões de seus defensores. Apesar dela ter produzido mudanças no curriculum das escolas e nos métodos de ensino, como era esperado, não produziu nenhum efeito relevante no desempenho dos estudantes e nem nas diferenças que existiam entre os estudantes mais ricos e mais pobres. Contrariando as predições, ela simplesmente foi inócua.

Para o autor, isso significa que todos (contrários e favoráveis à Base) erraram, pois ela não prejudicou e nem favoreceu os resultados dos estudantes: ela não produziu efeito algum. Mas este resultado, penso, deixa os que foram contrários a ela mais próximos da verdade, pois, entre seus argumentos estava o de que as reformas educacionais que enfatizam a aprendizagem, sem levar em conta os professores e outros aspectos estruturais que influenciam a aprendizagem nas escolas, não equacionam os problemas de desempenho. Além disso, a aposta na Base impediu a realização de outro tipo de reforma que teria sido mais promissor, por exemplo, a redução do número de alunos em sala.

Entre as causas deste resultado, o autor aponta o fato de que uma Base gerada por especialistas ao nível central, sem envolver os professores, tem que passar por uma série de instâncias intermediárias antes de chegar à sala de aula e, portanto, neste processo, a tentativa de se produzir um alinhamento de toda a estrutura educacional, ou como dizemos aqui, tornar a estrutura educacional “coerente”, fracassou. Alinhamento, não é sinônimo de qualidade – especialmente quando os professores não são ouvidos.

Outros fatores concomitantes contribuíram para este fracasso. A educação, especialmente a sala de aula, é local de variabilidade e não de padronização, o que faz com que o professor fique travado em seu trabalho de adequar a Base (já na forma de currículo) ao desempenho dos estudantes, o qual é sempre variável.

Apesar de lá, como aqui, se repetir que o “Common Core não é currículo” uma tarefa do “staff” estadual ou municipal e que também não é “método de ensino”, uma escolha do professor, o fato é que a Base orienta a avaliação da escola, do professor e dos estudantes – através de exames nacionais, estaduais e municipais – e, portanto, consiste em uma camisa de força para todas as instâncias envolvidas. Se isso não bastasse, os materiais didáticos são produzidos segundo seus ditames. Esta tentativa de alinhamento formal, no entanto, não parece ser suficiente.

O autor aponta ainda outras razões, mas penso que estas são as mais relevantes para indicar o fracasso da Base Comum e a adição de mais uma década perdida à longa trajetória da reforma empresarial da educação americana.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para BNCC americana: uma década perdida

  1. valentinoruy disse:

    Sem previsões para edição em português né?
    Alguma indicação de lugar para comprar?

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