Estados de desequilíbrio

Postado originalmente na Uol em 6/09/2011

Há uma importante mensagem dos estudos de Prigogine, prêmio Nobel em química, para os estatísticos e econometristas que habitam o campo da educação. Consiste no seguinte: Prigogine foi responsável pela teoria da bifurcação nos domínios da físico-química. Seus achados fazem parte da Teoria do Caos e foram apropriados na área educacional nem sempre de maneira adequada.

Prigogine afirma que as leis habituais que os químicos e físicos formularam, em sua maioria, se referem a estados em que a matéria foi “forçada” ao equilíbrio, em laboratório. Defende que, ao natural, fora do congelamento de variáveis de laboratório, as leis da matéria podem ser outras. Propõe o entendimento de que até no nível da própria matéria inorgânica há situações de “bifurcação” em que “decisões têm que ser tomadas”. Nesse caso, da matéria inorgânica, tais decisões são organizadas em leis probabilísticas que dão conta dos estados de desequilíbrio.

Prigogine não defende um caos sem leis e regularidades. Isso foi apropriação equivocada. Ele defende que estados de equilíbrio e desequilíbrio produzem regularidades diferentes.

Aí está um entendimento que seria útil a estatísticos e econometristas educacionais.

Quando “forço” o fenômeno educacional à estabilidade das regras das pesquisas estatísticas e econométricas, emergem regularidades que, embora assinalem possibilidades, podem ser diferentes das regularidades existentes na situação natural (em desequilíbrio) em que a escola permanentemente funciona.

Não é que tais regularidades produzidas pelas estatísticas estejam erradas – embora contenham “erro controlado”. Elas apenas dão conta de uma realidade que foi congelada para efeito de se obter vetores de interpretação. De fato, quando tais variáveis estão “livres”, ao sabor das bifurcações da realidade (pode se ler: contradições da realidade) as regulares são outras – e mais decisivas.

Isso vale para o precário mundo das avaliações e índices. O IDEB não pode ser interpretado, por exemplo, como uma medida global e fiel de cada escola. É uma medida de laboratório e mesmo assim, parcial. A Prova Brasil, não pode ser interpretada como uma medida de qualidade da escola. Há mais variáveis e mais instabilidades no cenário.

A questão não está relacionada somente à nossa capacidade de pesquisar e elaborar modelos. Diz respeito à forma de se produzir modelos e sobre o que produzimos tais modelos. Há mais de um cenário para elaboração de modelos. Na calmaria dos laboratórios de estatística e economia, as leis são outras. Não chegam a ser inúteis, mas não são todas as regularidades possíveis, nem necessariamente as mais fidedignas. Novamente, não é uma questão de precisão de estimação ou de cálculos. É uma questão do “estado da matéria em questão”.

Ao meu modo, arranhei alguma coisa disto em um pequeno livro chamado “Uma pos-modernidade de libertação” (Autores Associados, 2005), onde além de criticar os pós-modernos, indico bibliografia sobre Prigogine.

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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