Riscos da visão empresarial na educação

Postado originalmente na Uol em 4/08/2011

Com a inclusão do Brasil no grupo dos BRICs, ou seja emergentes que estão recebendo recordes de investimento produtivo direto (nunca houve tanto investimento estrangeiro nos últimos 64 anos como há hoje no Brasil) há uma perspectiva de que a economia continue ativa e crescendo. O tipo de crescimento ocorre no interior da reestruturação das formas de produção – tanto em gestão, como em tecnologia. O fato é que esta montanha de dinheiro que está ingressando tem que retornar lucros crescentes. Considerando que este crescimento é dependente de vários fatores (logistica, proteção da produção local, mecanismo de financiamento da produção) e inclui a necessidade de disponibilidade de mão de obra qualificada (leia-se diplomada) abundante, de forma a reduzir a massa salarial paga, teremos uma pressão muito grande sobre a “qualidade” da educação. Isso faz com que os empresários acionem seus prepostos na área educacional (ou criem estruturas dedicadas a isto) com a finalidade de disputar a “agenda educacional” brasileira.

Minha opinião, é que estamos em um momento de disputa da agenda das políticas públicas educacionais no Brasil. De um lado, os educadores profissionais (aqueles que vivem da profissão de professor) e de outro os empresários que decidem estudar diretamente a questão educacional ou financiar educadores profissionais para fazê-lo na ótica dos empresários. Não é uma boa classificação, mas é útil para nosso propósito de diferenciar formas de olhar para a educação.

Para a ótica empresarial, a educação é, principalmente, um facilitador dos processos produtivos e um importante mecanismo de garantir que haja uma base alargada de oferta de mão de obra que derrube o salário médio. Já postamos aqui matérias que confirmam a tendência na queda de salário por ampliação de base de formandos tanto no Brasil (IBGE), como nos Estados Unidos (Paul Krugman).

Claro que esta motivação econômica do empresariado associa-se a outras teses honestas, em alguns casos, de se reduzir indicadores educacionais adversos – motivação que faz com que educadores profissionais passem a ver a educação dentro da ótica empresarial.

Qual o risco que corremos se a agenda política educacional brasileira for formulada pelos reformadores empresariais da educação?

Ele é muito claro: na primeira crise econômica, os empresários vão estar mais preocupados em sustentar seus empreendimentos do que continuar se envolvendo com a questão educacional. No momento em que haja uma retração econômica e não haja demanda de crescimento, a educação vai ter que se virar sozinha.

Ou seja, uma grande quantidade de problemas gerados por estas políticas pregadas pelos reformadores empresariais – incluindo a destruição do sistema público de educação – vai cair no colo dos educadores profissionais que é para quem vai sobrar resolvê-los.

Já ví muitos profissionais de outras áreas que se entusiasmaram com a educação “jogarem a toalha” ante a complexidade da implementação de políticas públicas educacionais. Portanto, além do dano que tais ideias vão produzir aos sistemas e seus atores, ainda estaremos mais distante do encaminhamento de soluções para alguns dos problemas educacionais atuais. Mais décadas perdidas se acumularão.

O esgotamento da política pública educacional americana foi cantado em prosa e verso na marcha do dia 30 de julho em Washington (USA) – “Save Our Schools”. Mat Damon, Diane Ravitch, Kozol, entre outros procuraram alertar a sociedade americana. O dano já está feito. Caberá agora aos educadores profissionais catarem os cacos, enquanto os empresarios mudam suas empresas para a China ou qualquer outra parte do mundo à espera do lucro. Como um dos oradores enfatizou, a educação americana não vai bem e a culpa não é dos professores – “it’s the poverty, stupid!” – “é a pobreza, estupido”, dizia um deles dirigindo-se ao Secretário de Educação americano Arnie Duncan. Curiosamente, há 20 anos, os reformadores empresariais americanos justificam suas ideias pregando que elas se destinam a garantir o direito dos pobres a uma boa educação. Mas a conta não fecha.Às vezes, é prudente e útil aprendermos com a experiência dos outros. Décadas de política educacional baseada na agenda dos reformadores empresariais não resultou em melhora da educação americana.

Alguns dizem que ainda vão acertar e que é uma questão de “continuarmos a pesquisar”. Entretanto, quando a pesquisa insistentemente não dá respostas às questões que colocamos para ela, manda o bom senso (e a técnica) que troquemos as perguntas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

Uma resposta para Riscos da visão empresarial na educação

  1. Esse é, exatamente, o modelo implantado pela prefeitura do Rio. Que, inclusive, copiou o modelo avaliativo dos EUA (até no lema “nenhuma criança a menos”). Pois bem, o original já faliu; a cópia, logo deixará a máscara cair.

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