RJ: de pai para pais

O Blog recebeu cópia de carta divulgada por pai de uma estudante do Rio de Janeiro sobre as ocupações das escolas estaduais, dirigida a pais e mães do Estado. Seguem alguns trechos da carta.

Leia íntegra aqui.

              “Sou pai de uma aluna da rede estadual, assim como vocês. No caso, de uma das escolas técnicas da rede conhecida pela sigla FAETEC. Essa semana eu recebi a notícia de que a escola da minha filha passaria por uma vistoria de representantes da FAETEC.(…) Os representantes da FAETEC estavam andando pela escola, anotando os problemas estruturais: telhado quebrado, fiação solta, etc. Coisas de manutenção imediata. Tudo isso acompanhado do grupo de estudantes, que apontavam os problemas, junto com alguns professores, mães e pais. Achei tudo muito estranho, mas aos poucos fui me dando conta do que estava acontecendo.

                É claro que os problemas apontados não serão resolvidos. Se fosse assim, tão fácil, acredito que não existiriam, na sua maioria. A tal visita teve, na verdade, um papel político muitíssimo interessante e até mesmo inteligente por parte governo do estado. Após sair de um quadro de desgaste da imagem do governo com a primeira expansão das ocupações – inclusive com denúncias de incitação a ações mais “duras” –, o staff de Dornelles e Pezão parece estar tentando mudar de estratégia. A visita dos agentes oficiais cumpre um triplo papel.

                Primeiro, aparenta haver abertura para o diálogo.(…) Segundo, força um tipo de narrativa vazia sobre as reivindicações e tenta abafar as motivações reais das ocupações. (…) Ou seja, é muito melhor bater papo sobre aquelas coisas que poderiam ser debatidas e apontadas soluções em reuniões internas da escola, com toda a comunidade escolar, do que assumir os problemas políticos e de gestão da rede.

                Associado a esses dois, vem o terceiro papel político e estratégico da visita: confundir dentro e fora da comunidade escolar. Ora! Se eles vieram até a escola, abriram o canal de diálogo e todo mundo viu que os problemas são pontuais, então, não há motivos para a escola não funcionar, não é mesmo? Infelizmente, não.

                O telhado quebrado, o ralo que não desentope e o fio solto, são, em conjunto, mais do que absurdos em si. Eles são a expressão das políticas de educação ao longo de décadas e que se intensificaram nos últimos governos. Eles não são o fracasso, mas sim o sucesso de uma concepção de política. São o resultado da privatização e da terceirização de tudo. São o descaso de uma política que retira do público para injetar em alguns privados muito bem selecionados. (…)

       Vejamos um exemplo: aparelhos de ar condicionado. As escolas possuem aparelhos de ar condicionado. Alguns são próprios e outros são alugados. Isso mesmo: a-lu-ga-dos. Vamos imaginar que alugar aparelhos de ar condicionado para uma escola é uma coisa bacana. Então, poderiam expor qual o valor do aluguel e quais os termos desses contratos? E o repasse monstruoso de grana para a Fetranspor por conta do RioCard? E a empresa que faz aquelas avaliações bizarras, conhecidas como SAERJ, rejeitadas pelos estudantes? E…? E…? (…) Repito, o telhado quebrado serve como fumaça para atrapalhar a vista. (…)

                E as ocupações não estão olhando para o pontual como se ele fosse um problema que nasceu ali. Essa juventude se deu conta de que está sendo enganada e que deve tentar fazer alguma coisa, coletivamente, por aquilo que é o seu direito. (…) Por fim, gostaria de dizer que também fico muito angustiado com a paralisação das aulas e com a falta de perspectiva sobre os rumos da escolarização da minha filha. Mas, ao mesmo tempo, essa juventude está me mostrando que não quer seguir como gado; quer construir alguma coisa diferente do que está aí. E isso me dá esperança. Apesar da angústia, eles me mostram que é possível trazer de volta a esperança para a escola.

                Então, o mínimo que posso fazer é guardar minha angústia e apoiar essa moçada. E convido quem tiver compromisso e estiver angustiado a fazer o mesmo.

Roberto Marques  – Rio de Janeiro, 17/06/2016.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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