Aprendendo com G

G é um adolescente que estuda em uma rede de ensino fundamental municipal. Segundo ele, sua família não se importa muito com ele e era muito indisciplinado na escola. A escola de G faz parte de uma iniciativa de criação de Comissões Próprias de Avaliação compostas por gestores, professores, funcionários, alunos e pais que regularmente discutem a qualidade da escola. G integra esta Comissão representando, junto com outros, os estudantes desta escola.

Recentemente, em um balanço desta experiência, G pediu a palavra e falou para uma plateia de 100 pessoas em uma Universidade da região. Ele disse que havia pedido a palavra para agradecer ter podido participar da experiência de pertencer a uma Comissão de Avaliação pois havia conseguido enxergar uma outra dimensão da escola e compreendido como era inadequada a sua conduta. Agradeceu também haver encontrado uma professora, que é representante dos docentes na Comissão, que lhe havia mostrado um outro caminho.

Enquanto G falava, toda sua escola postava-se orgulhosa. Muitos da plateia choravam. Fiquei pensando o que tudo isso tinha com “avaliação”. Imaginei meus colegas estatísticos naquela situação e sua reação: certamente diriam que “faltou objetividade”. Entretanto, aquela situação e a intervenção de G estavam exatamente nos ensinando o que devemos entender por “qualidade social da educação”.

Muitas vezes temos dificuldade para explicar este conceito. Aí está um exemplo muito claro. Na qualidade social, as crianças valem mais que as pontuações que obtiveram em testes. Certamente G não tem uma boa pontuação, mas quanto vale  (socialmente) ter resgatado G para a vida social – mesmo que fosse somente G naquela escola? Mesmo que G continuasse com pontuação baixa. Na qualidade social, os testes são parte do processo, mas não definem o processo. Entretanto, focados em médias altas, as escolas podem não ter interesse em alunos com médias baixas e descartar ações que viabilizem resgatar sua auto estima, elemento fundamental para se recuperar seu interesse pela escola e consequentemente aumentar sua pontuação. Daí que a segregação territorial aumente com estas práticas voltadas para elevação de médias – entre elas os bônus.

E porque alguns choravam? Certamente por vários motivos, mas um é quase certo: para nós professores, o sucesso de nossos alunos – em sentido amplo e social – é a nossa melhor recompensa. Para podermos produzir este efeito, entretanto, é preciso ter condições de trabalho e salários dignos e não bônus.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para Aprendendo com G

  1. Carlos Ricardo Bifi disse:

    Muito bom o texto Prof Luiz.
    O número de alunos G’s está aumentando a cada ano que passa e, traze-los para que possamos nos emocionar e quem sabe despejar algumas lagrimas esta cada vez mais difícil. Vejo que está virando algo cultural alunos da rede publica serem marginalizados em relação aos preceitos educacionais que deveriam fazer parte do rol de itens ao ingressarem na escola. A comunidade das escolas publicas estão abandonando nossos jovens renegando aos acompanhamentos acadêmicos que esses jovens merecem. Tenho 21 anos de rede publica e particular no ensino da matemática. Tenho nítida convicção que o ensino da Matemática não é o mesmo de anos passados, mas não podemos abrir mão do objetivo de ensinar o básico para que o aluno se forme um cidadão alfabetizado matematicamente. Acredito fielmente que o trabalho da escola precisa ser direcionada, não apenas para o corpo discente, mas para a comunidade que a cerca. E nessa empreitada, fazer com que nossos jovens tenham a consciência que a escola é o único caminho a torná-los pessoas do bem e que o respeito para com os educadores deva ser algo prioritário em toda a esfera educacional. Sobre o Salário, valorização e condições de trabalho, concordo plenamente e isso deveria partir dos governantes, mas ser respeitado como o profissional da educação, além do governo, nossa sociedade pode colaborar mais. Um forte abraço e sou um fiel leitor dos seus artigos.
    Carlos Bifi – Doutorando em Educação Matemática pela PUC de SP

  2. Paula Pereira da Silva disse:

    Parabéns Professor e obrigado por sua palestra na última 5ª feira em Serra Negra, foi muito esclarecedora e interagiu, e me fez refletir sobre minha concepção de educação.

  3. Regina Célia dos Santos disse:

    querido professor. Taí um sentido valioso de ser sua aluna e hoje ser professora. Acredito muito nisso.

  4. Sara disse:

    foi mesmo emocionante o depoimento do aluno!

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