Educação infantil: adoecendo com a “idade certa”

Há uma febre para que as nossas crianças “aprendam na idade certa”. A “idade certa” é definida como aquela que os organizadores de currículos, reformadores empresariais e alguns pais fixam, à revelia da evidência científica disponível, e que arbitrariamente determina um tempo fixo para “assegurar os direitos de aprendizagem” das crianças.

Isso induz a antecipação da escolarização nas escolas infantis e, pior, coloca como critério de êxito a idade e não o desenvolvimento particular de cada criança. Sob pressão da meritocracia, os professores são estimulados a “puxar” as crianças segundo patamares uniformes, construídos sem base empírica consistente, em muitos casos expressos em materiais apostilados de ritmo único. Um verdadeiro massacre.

Um livro recentemente publicado nos Estados Unidos vem contrariar esta tendência e confirmar as preocupações dos professores da educação infantil com relação a estas pressões sobre as crianças e é contundente em mostrar que acelerar a educação das crianças em idades precoces pode ser problemático.

O novo livro é escrito por Stephen Camarata (The Intuitive Parent: Why the Best Thing for Your Child Is You) e acaba de ser publicado. Examina a pesquisa na área e afirma que acelerar o desenvolvimento das crianças precocemente é contraproducente podendo produzir transtornos de déficit de atenção.

Para o autor:

“Dada a mania de empurrar as crianças para aprender mais e mais conceitos complexos e em idades mais precoces, você pensaria que certamente deve haver uma vasta literatura científica que apoie estes esforços. Não só não existem tais dados, mas um conjunto emergente de pesquisas indica que as tentativas de acelerar o desenvolvimento intelectual são, na verdade, contraproducentes.”

O autor ainda acha que existem duas dificuldades principais que os pais devem considerar na educação moderna: 1) um currículo cada vez mais irracional, acelerado, com pressões para que as crianças aprendam e pais pragmáticos que querem ensiná-las muito antes de que suas mentes em desenvolvimento estejam prontas; e 2) um processo do tipo “uma mesma medida para todos”, como uma linha de montagem, com base no nível de idade, em vez de considerar o nível de desenvolvimento. Um claro alerta para os adeptos da “aprendizagem na idade certa“.

Nada de novo para os professores que trabalham na educação infantil. Mas algo não levado em conta por pais ansiosos de criar super-cérebros e por reformadores empresariais que apostam na corrida para o topo como forma de aumentar a qualidade da educação.

O Estadão também veicula matéria que destaca a necessidade das crianças terem tempo livre para brincar. Embora a matéria não faça uma crítica à antecipação da escolarização, os depoimentos apresentados caminham nesta direção. Os educadores consultados alertam:

“Nas escolas, predomina a ideia do ensino centrado no professor e as brincadeiras livres costumam ser vistas como lazer, ignorando seu valor na promoção de importantes aprendizagens, ainda que fora do menu pedagógico.”

“Principalmente em relação às crianças de 5 anos, os pais ficam muito ansiosos de que eles estejam lendo e escrevendo. Precisamos de reuniões extras para que eles diminuam essa ansiedade”, explica Liliane. “Quando elas brincam, aprendem a resolver os problemas. E essa é a meta da vida.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação na Educação Infantil, Links para pesquisas, Meritocracia, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

33 respostas para Educação infantil: adoecendo com a “idade certa”

  1. Núbia R. Lima disse:

    Excelente texto, coerente e muito bem fundamentado!! Parabéns!!

    Núbia R. Lima.

  2. Shirley disse:

    Mas os pais dessas crianças são eleitores do prefeito e os diretores não querem perder se cargos.

    • Regiane disse:

      Mas a Prefeitura de SP só alfabetiza a partir do primeiro ano do Fundamental, e a criança fica nesse processo de alfabetização durante três anos, a fim de respeitar o ritmo de cada um, falo isso pois trabalho nisso. As escolas particulares são as principais responsáveis por esse massacre… São elas que utilizam métodos apostilados para uma criança de três anos…

      • Regiane disse:

        Inclusive, a proposta da mesma para a ed. Infantil, é a brincadeira o lúdico, já trabalhei em creche e sei do que falo. Essa prática, é recriminada por muitas instituições particulares, que vivem de folhinha sulfite e pintura dentro do quadrado!

      • Carolina disse:

        Exato! A rede privada se preocupa em mostrar para as mães e pais que são melhores que outras escolas antecipando a escolarização. Como se isso fosse vantagem.

  3. Shirley disse:

    Corrigindo: “seus cargos”

  4. JULIANA disse:

    Perfeito e real! Sou privilegiada por viver em uma realidade onde se prioriza a infancia.

  5. Parabéns , excelente texto !! Obrigada .

  6. marlene gonçalves maciel disse:

    PERFEITO ESSE TEXTO .PENA QUE NEM TODOS OS PAIS TEM ACESSO.

  7. Elineia Acordi disse:

    Excelente texto!!

  8. cristiane disse:

    Trabalho em uma escola municipal onde as crianças tem que aprender a ler mo primeiro ano ,antigo pré

  9. Luciene Neves disse:

    Minha filha aprendeu a ler e escrever com cinco anos, mas por escolha própria, nunca fiquei forçando. Ela sempre foi uma criança interessada em aprender, acho que existem casos e casos, não dá pra generalizar.

  10. Meus filhos brincaram muito somente com 7 anos começaram a ler foi uma descoberta e tanto são excelentes alunos e dinâmicos em seus postos de trabalho

  11. Pingback: Educação infantil: adoecendo com a “idade certa” | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  12. Pingback: Sete pecados capitais contra a infância | Biblioteca Virtual da Antroposofia

  13. Regina Reis disse:

    O texto nos remete a refletir que de fato muitas escolas pressionam professores e alunos a cumprirem uma determinada data para a criança se alfabetizar, sem considerar e respeitar o seu tempo de aprendizagem, o seu desenvolvimento cognitivo. Parabéns pelo texto.

  14. RAFAEL DUSI disse:

    Já que estás a criticar seria interessante citar quais pesquisas mostraram que “os esforços para acelerar o desenvolvimento intelectual são, na verdade, contraproducentes.”

  15. Gostaria de ter seu e-mail ou um fale conosco. É longo meu comentário; mais que favorável, adicional.

  16. Elaine Constant disse:

    Prezado Luiz Carlos de Freitas, a expressão “na idade certa” realmente é incoerente se pensamos na infância. No caso da alfabetização, como no caso do Pacto Nacional pela Alfabetização da Idade Certa (PNAIC), INFELIZMENTE, o MEC utilizou uma denominação de uma projeto do Ceará (PAIC), mas para as Universidades públicas participantes deste Programa há a valorização do Ciclo da Infância (6, 7 e 8 anos), melhor dizendo, do Ciclo da Alfabetização. Se dependesse do Movimento Todos pela Educação, a “idade certa” seria 6 anos, mas a participação dos professores de diferentes universidades públicas garantiu o declínio desta ideia. Se tratando da Educação Infantil, nem precisamos discutir sobre a antecipação da alfabetização. Concordo com seu posicionamento.

  17. Alex Sandra Andrade Neves disse:

    Institucionalmente os professores são cobrados pela performance das crianças. A escola de Educação Infantil hoje luta com a ideia disseminada de que as crianças precisam de currículo pra aprender, se desenvolver etc.. Com a obrigatoriedade da escolarização dos 4 aos 5 anos, sem se pensar numa Pedagogia para a Infância na escola, corremos o risco de assistir a um verdadeiro massacre ao direito de brincar, na escola.

  18. Celeste Maria Soares de Souza disse:

    Parabéns! Excelente texto. Pena que passará despercebido por muitos.

  19. Elvira Eliza França disse:

    Concordo plenamente que essa pressa e antecipação do desenvolvimento da criança só está trazendo problemas para o desenvolvimento infantil. O cérebro tem um determinado ritmo biológico que precisa ser respeitado para que as áreas sensórias e motoras possam amadurecer devidamente. O desenvolvimento do sistema nervoso respeita etapas que são definidas pelo processo de evolução e nelas as brincadeiras são fundamentais nos processos de aprendizagem e aquisição de habilidades nos primeiros anos de vida. Nessa fase, a criança precisa se movimentar e ter diferentes experiências sensórias para que seus neurônios adquiram uma camada protetora de uma substância gordurosa, denominada mielina. A mielinização dos neurônios requer a estimulação e a repetição, para que as células que realizam as funções sensórias e motoras adquiram rapidez e eficiência no processamento das informações no cérebro e nas respostas que são enviadas para o mundo exterior. Quando professores ficam interessados preferencialmente nos aspectos intelectuais do desenvolvimento infantil, valorizando excessivamente os aspectos racionais e abstratos, eles tendem a obrigar as crianças a ficarem paradas para prestar a atenção ao que explicam e a ficarem em silêncio também. É assim que inibem o desenvolvimento natural do sistema nervoso da criança, o que interfere, também, no desenvolvimento afetivo, intelectual e social. Quando a atividade natural é contida nas formas adultas de ensinar as crianças, o aluno pode apresentar sérios problemas de aprendizagem, memória e comportamento social. A grande quantidade de informações que são repassadas às crianças, com exigências de memorização, sem que elas tenham a devida maturidade para fazer os processamentos das informações, tem levado as crianças a sofrer e a ficarem ansiosas e tristes na relação com a escola e com os professores. Há crianças que choram e dizem sentir dor de cabeça na hora de fazer as tarefas de casa e de ir para a escola, devido à tensão que sentem ao terem que acompanhar o ritmo acelerado da aprendizagem escolar, que está em descompasso com seu desenvolvimento biológico. Tal situação começa a trazer dificuldades na relação da criança com os pais, que se sentem na obrigação de impor disciplina às crianças para estudar e da criança com os professores, que passam a ser vistos como carrascos. Há crianças que são muito estimuladas em casa pelos pais, e conseguem entrar nesse ritmo acelerado, enquanto que outras fracassam, principalmente aquelas cujas mães tiveram gravidez estressante ou fizeram uso de substâncias que desorganizaram os neurônios em fases precoces do desenvolvimento cerebral. E como a escola vem fazendo aprovação compulsória dos alunos, é muito comum encontrarmos estudantes terminando o fundamental sem saberem ler e escrever com eficiência. E há ainda os que chegam na universidade com essas deficiências, o que é lastimável!

    • sueli anjolim disse:

      concordo plenamente com voce,pois leciono na mesma cidade onde moro , na mesma escola,ha vinte e sete anos .acompanhei e tive que trabalhar de acordo com as mudanças. Muitos dos meus ex-alunos são profissionais muito bem sucedidos, acho que quando

      o aluno chega na idade adulta, faz suas escolhas,vai a luta.

  20. Eliete disse:

    Adorei a matéria. O que vemos realmente são muitos professores escolarizando as crianças deixando de lado um dos atos mais importantes nessa fase que e a brincadeira. Não tem nada mais prazeroso que aprender trincando.

    • Achei muito importante essa matéria quanto a aprendizagem precoce, acredito que a criança para aprender não tem necessidade de ir tão rápido, com o tempo vai se encaixando e aí tudo vai dar certo.

  21. marcos disse:

    Sou professor de educação infantil e venho observando q na verdade esses estudiosos q a cada dia aparecem, mudam de ideia sempre é nos professores ficamos como palhaços em suas mãos. Hoje é assim, amanhã já não é mais , e as crianças são tratadas como bonecos de experiência. Antes tinha q aprender com 7 anos lá na primeira série, hoje, é para aprender até os 8 anos. E assim a coisa vai ficando largada, vai se tirando o compromisso, daí o aluno chega no fund II sem saber ler e escrever, defasado e colocam a tal progressão automática onde o aluno sabendo passa e não sabendo passa também. Absurdo total… Sou a favor da criança brincar sim , mas não dessa de não poder ensinar se a criança tem condições, se ela pede… Não é necessário massacrar , mas também não dá pra ficar 2 anos de creche e mais 2 na educação infantil só brincando e mandar a criança para a primeira série sem conhecer seu nome as cores um desenho uma letra etc….essa na minha opinião é a hora de experimentar tudo já q não temos o compromisso de alfabetizar. E por favor respeite minha opinião !

    • dalva Domingues Stanoga disse:

      TAMBÉM SOU PROFESSORA DE EDUCAÇÃO INFANTIL,SE NÃO É PARA ENSINAR AS CÇAS,PARA QUE EXIGEM TANTOS PLANEJAMENTOS,CURRÍCULOS.TENS RAZÃO JÁ VI ALUNOS CHEGAREM NO 5 ANO E NÃO COMHECEREM AS LETRAS DO ALFABETO,E DEMAIS CONTEÚDOS PROPOSTOS.É UMA VERGONHA!!!!!!!!!!!!

  22. Luciana disse:

    Elvira , achei muito precisa as informaões presentes em seu comentário,sobre a importância da maturidade da crinça para compreender determinados conceitos e como isso pode acarretar em problemas de aprendizagem e comportamento. Parabéns!.

  23. Suely Elaine Nogueira disse:

    Excelente! Há muito o que se rever na educação e formação das crianças. Hoje instaurou-se a competição, que pena!

  24. Clicineide Souza disse:

    Acho que essa antecipação pela aprendizagem da leitura é algo que confunde bastante a cabecinha de muitas crianças , sou bolsista em uma escola do ensino fundamental de um programa da Universidade na qual estudo, e tenho observado que mesmo com seis anos de idade as crianças ainda precisam do lúdico, perguntam sempre a que horas poderão brincar, ou brincam sempre com seus materiais durante a aula!

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