SP: mudanças no ensino fundamental

O Estado de São Paulo está pondo fim ao conceito de progressão continuada e mudando para uma nova organização curricular: o ciclo. Serão três ciclos.

Todos sabemos a que veio a progressão continuada: promover o adiamento da exclusão e a reprovação por decurso de prazo, ao final da “progressão continuada”. O aluno permanece na escola, mas não aprende. Grandes conglomerados de séries sem acompanhamento, ocultam a reprovação.

Entretanto, a questão não se resolve pela simple mudança. Se o governo não continuar implementando mais fortemente a alteração das condições de funcionamento das escolas, com ou sem progressão continuada, os alunos não aprenderão.

Mas a mudança é importante. Primeiro porque o estilo de gestão da educação na Secretaria mudou bastante. Há um esforço para ouvir que não se detectava em administrações anteriores, quando “ouvir” significava “mandar email para equipes de assessores”.

Depois, há o reconhecimento de que sem acompanhamento, não há aprendizagem. Isso retira a ênfase das avaliações de larga escala usadas equivocadamente para avaliar o aluno e a escola. É um passo importante.

“Segundo o secretário de Educação Herman Voorwald, a rede estadual vem trabalhando com o conceito de “avaliação em processo” desde 2011.

“Havia um entendimento que o Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) era a avaliação, mas o objetivo dele é mostrar se as políticas de educação estão tendo resultado”, disse. “Por isso, em 2011 ou 2012 foi criada estrutura para ampliar recuperação e reforço.””

Veja matéria aqui.

Esta é uma afirmação arrojada. Curiosamente a grande mídia a ignorou. Deve ter feito muito reformador empresarial se mexer na cadeira. A crença – fé – nas avaliações de larga escala para melhorar o desempenho do aluno é lenda. Mas permanece no ideário dos reformadores empresariais da educação já que é mais fácil ocultar a questão das condições de trabalho da escola do que enfrentá-las.

Avaliações de larga escala como o SARESP servem para acompanhar a política pública, e só. Além disso, é parcial – só avalia algumas disciplinas.  A escola tem que ter seu próprio sistema de acompanhamento dos estudantes e dos professores. Aí é que entram as condições de trabalho. E ao focar dessa forma, os reais problemas da escola podem agora ser postos na mesa.

A política de relacionamento também é importante. Muda. Neste enfoque é preciso trabalhar COM o professor e não CONTRA o professor ameaçando-o com consequências se a escola não vai bem no IDEB.

Temos agora o foco correto: melhorar as condições de trabalho e atendimento dos alunos e professores nas escolas.

A mudança trará, como aconteceu na cidade de SP com Haddad a discussão da possibilidade da reprovação agora instituída em ciclos menores. Mas é preciso contrapor esta questão à reprovação oculta. O fato do problema ter sido posto sobre a mesa e não debaixo do tapete é relevante.

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 Responses to SP: mudanças no ensino fundamental

  1. Avatar de Cibele Cibele disse:

    Na minha opinião, para que essa mudança seja eficiente na vida escolar daqueles que mais precisam de uma reforma no sistema público estadual de São Paulo – alunos e professores – acredito que ela deveria vir seguida de alterações no quesito “bônus”. Sou professora da Rede Estadual de Ensino e infelizmente, serão poucos os profissionais que “ousarão” reprovar os alunos que precisam de mais tempo para aprender e assumir o risco de fazer sua escola ficar “sem o bônus”. Ele será “massacrado” pelos demais profissionais da escola. É o faroeste resultante de mais de 20 anos de políticas públicas neoliberais no Estado de São Paulo. No entanto, essa medida surge como a “pequena luz na escuridão”, um pontinha de esperança que nós professores, alunos e professoras esperávamos há quase 20 anos…

  2. Avatar de Cibele Cibele disse:

    Ops! Considerar a repetição da palavra “professoras” como “pais”!

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