O Ministro “Mandrake”

Mandrake era um mágico que hipnotizava instantaneamente e aplicava poderes telepatas com olhos e gestos das mãos. Criado em 1934, o personagem foi baseado em Leon Mandrake, mágico dos anos 20.

O nome cabe muito bem para o atual Ministro da Educação, Mercadante. Turrão, já chegou avisando a patuleia que “precisamos fazer mais com menos”. Ou seja, só com “mandrakaria” pesada ou aderindo aos reformadores empresariais. Nenhuma das duas opções é boa.

Aliás, os reformadores, por convicção, acham que dinheiro não é o diferencial para a educação e sim a gestão [privada, é claro]. Na visão deles, o estado tem que diminuir para a iniciativa privada educacional engordar. Para tal, advogam que se o dinheiro for desviado para eles mesmos, está melhor aplicado do que financiando a escola pública.

Em compensação, de saída, o ex-ministro Janine, seu antecessor, disparou: “a inteligência não pode ser contingenciada” – reforçando a necessidade de mais recursos para a educação. Caiu de pé.

O mais surpreendente é que o Ministro Mercadante também chegou com soluções mágicas e opinião pronta para tudo quanto é crítica, o que revela onde vai dar esta estória de “fazer mais com menos”. Exemplos:

O Banco Mundial criticou o Mais Educação em um dia, no outro ele já tinha solução – a deles, diga-se de passagem: restringir o programa a “Mais Ensino”. Segundo o ministro:

é muito bom ter aula de capoeira, música, dança, esporte. Mas, enquanto o IDEB não avançar, o Mais Educação vai ser matemática e português para que não deixemos crianças repetindo.”

Capoeira, dança, esporte fica para depois. E se for para depois que as crianças tirem 8 ou 9 no IDEB, então, não ocorrerá nunca, pois o IDEB não foi feito para se chegar lá. Perguntem para o Presidente do INEP. Só escola de rico vai ter Mais Educação o resto é Mais Ensino mesmo.

Ele talvez ache que fazer à tarde mais daquilo que não deu certo pela manhã, faça a criança melhorar na escola. E, claro, nada dessa estória de formação integral da personalidade do educando, nem de formação multilateral. Puro luxo.

Esta semana alguém disse que a Base Nacional Comum do MEC não está ensinando gramática suficientemente. Embora as especialistas da UFMG que cuidam da base tenham dito que não se usa mais ensinar isso de forma separada, o Ministro disse que não: usa sim, e a base será alterada para incluir mais gramática. O sábio ministro não precisou nem se instruir sobre o assunto com a assessoria que o MEC mesmo está pagando.

Quanto ao FIES, ele foi sincero: não percebemos o rombo antes. Isso que ele já foi Ministro da Educação no primeiro mandato da Dilma. São 13 bilhões de reais que saíram das Universidades Públicas e foram para as universidades privadas. Ninguém percebeu. Para não ficar feio disse “que saiu do Ministério da Educação sabendo que esta pauta teria que ser revista” – referindo-se ao seu primeiro mandato no MEC.

E a expansão das creches, então? Resposta na ponta da língua:

Vamos nos reunir com prefeitos e a ideia é oferecer R$ 400 mil para ampliar instalação na escola para crianças de 4 e 5 anos. Assim, daria resposta barata e rápida para apoiar os prefeitos nesse desafio.”

Legal, como ninguém pensou nisso antes?

“O novo ministro prometeu acelerar a construção de creches com módulos “mais rápidos e mais baratos”. Segundo ele, a partir de amanhã (8), um mutirão visitará municípios para que eles façam a adesão a essas obras.”

Socorro MIEIB!

Nada de construir creches com projeto adequado para atender as necessidades das crianças. Vamos mudar isso, basta fazer um “puxadinho” nas escolas já existentes para elas. Aliás, alguns prefeitos estavam pedindo é isso mesmo. Essa estória de exigir projeto só atrasa “as metas”.

Também foi lá a União Nacional dos Estudantes reclamar que as instituições privadas de Ensino Superior estão incluindo 20% das disciplinas dos cursos presenciais de graduação na modalidade Ensino a Distância. O Ministro disse que isso não pode. Criou uma comissão para investigar. Em “linguagem palaciana”, quando se cria uma comissão é que não se quer fazer nada. Mas deixemos que os meninos descubram por si mesmos.

O ministro também tranquilizou alguns “reformadores” que trabalham no MEC, em especial na SEB (base nacional comum) e no INEP (avaliação) como era de se esperar: ele disse que vai manter fundamentalmente a equipe do MEC e que trouxe uma pequena equipe da Casa Civil.

Para coroar tudo isso, fechemos com a explicação, dada por ele mesmo, para sua volta para o MEC:

Eu fui [voltei] para o MEC porque minha experiência [anterior] teve êxito.”

E assim vamos. De ministro em ministro, temos agora um mágico que tira soluções da cartola para tudo, e com menos recursos. Agora vai.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Mercadante no Ministério. Bookmark o link permanente.

3 respostas para O Ministro “Mandrake”

  1. Pingback: O Ministro “Mandrake” | INTERBLOG

  2. vale tudo gil? disse:

    O numero que irei vos apresentar agora chama-se pátria educadora:
    Agora você vê a verba… Agora você NAO VÊ MAIS!!

  3. vale tudo gil? disse:

    No próximo bloco iremos mostrar como serrar um ministro ao meio e entregaremos um ministério de bandeja como prêmio de consolação a um outro que se mostrou inepto na condução política do governo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s