A “educação no país”, na visão do Estadão (atualizado)

O Jornal Estadão publica um balanço da “educação no País” em Editorial, baseado em “levantamentos da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – e do IBGE (Pnad). O Jornal prima por ser o porta voz do empresariado conservador do Estado de São Paulo.

Neste breve editorial de 10 parágrafos e pouco mais de 600 palavras, ele pretende diagnosticar como está a educação no Brasil e, mais ainda, como solucionar os problemas gerados pelo “modo inepto como o sistema educacional foi gerido pelos quatro governos petistas”. O Ministério da Educação deveria envergonhar-se de precisar de um powerpoint com 81 lâminas para mostrar seu “panorama da educação”.

Quase metade do editorial é numerologia proveniente dos levantamentos mencionados, com a finalidade de pintar o caos da educação brasileira. Sempre é bom promover o “caos” antes de se apresentar uma “solução”: ela fica mais aceitável. A outra parte do editorial é destinada a apontar como a educação atual não atende o conceito de Indústria 4.0:

“O conceito de Indústria 4.0 engloba as principais inovações tecnológicas dos campos da automação, controle e tecnologia da informação aplicadas ao processo de manufatura.”

A preocupação do Estadão é que nossa educação, segundo leitura que faz da Pnad, não atende aos requisitos desta Indústria 4.0: “Os números da Pnad ajudam a compreender os problemas que as entidades empresariais têm pela frente” – diz. E lista entre eles a falta de mão de obra qualificada em novas tecnologia, sem que o país tenha uma juventude com um “mínimo de instrução para poder ser treinada e qualificada”.

Finalmente, após este “diagnóstico” da educação no país, indica a solução: concentrar-se no ensino de Português, Matemática e Ciências e não ficar usando “modismos pedagógicos” e nem o “discurso da democratização do ensino”, como fizeram os “governos petistas”, responsáveis pelas “dificuldades que o País enfrenta para adotar novas tecnologias e modernizar a economia.”

O Editorial é revelador da visão estreita de educação e de país que está em curso no pós-golpe 2016: adaptação da juventude às novas formas de trabalho da indústria 4.0. Para um país que abriu mão de sua soberania, tudo que precisamos é que o jovem saiba ser um bom trabalhador de alguma indústria 4.0 nas cadeias internacionais de produção que estão comprando o país em vários setores da economia.

Ao culpar o governo petista pelo atual estado da educação, o que além de ser típico na política tradicional revela uma visão simplificada dos problemas da educação brasileira, o Estadão se “esquece” de que a educação básica é responsabilidade dos Estados e Municípios, cabendo ao governo federal a colaboração. São estes que “realizam” a educação de fato e não o governo federal, o qual não administra escolas de educação básica. E, nos Estados e Municípios, não existiram nos últimos 15 anos somente governos petistas. Temos um belo exemplo no próprio Estado de São Paulo, sede do Jornal,  onde após duas décadas de administração do PSDB e não de “governos petistas”, não se avançou em nada na educação básica.

Eis aí, com todas as letras, o que move a atual reforma da educação em curso no país. Deveríamos ficar preocupados com que se possa propor um “diagnóstico” da “educação no País” unicamente a partir de levantamentos como o da FIESP – legítimo para orientar a indústria, mas não para se poder fazer um balanço da “educação no país” como se pretendeu.

De repente, o Estadão declara que toda a pesquisa feita na área da educação é descartável,  quando se trata de fazer um balanço da educação brasileira, bastando um levantamento da FIESP e outro do IBGE. Demonstra que para o Jornal, a finalidade da educação é preparar a mão de obra que está sendo esperada na porta das empresas 4.0. E nada mais. É uma linha direta entre a escola e a empresa. Tudo que nossos jovens precisam é ser formados para lidar com as novas tecnologias da Indústria 4.0.

Curiosamente, o editorial omite o impacto negativo da Indústria 4.0 na produção de novos postos de trabalho, procurando passar a ideia de que se a indústria se desenvolver de forma modernizada isso fará bem para todos. Falso. Sabemos que o tal conceito de Indústria 4.0 não contribui para manter empregos e o aperitivo é a própria reforma trabalhista defendida também pelo Estadão. Bolsonaro é mais direto e explicita a chantagem em curso: “melhor perder direitos do que perder o emprego” – diz ele.

O que o andar de cima (o 1% mais rico) propõe como projeto de vida para a juventude é ter um emprego com menos direitos, uma versão precarizada do trabalho que ajuda a manter as taxas de acumulação de riqueza do andar de cima: o jovem pode escolher entre precarizar-se ou ficar desempregado. E para que tal plano se cumpra, é preciso que a juventude seja dócil, resiliente, empreendedora e calada, acomodando-se à nova situação como um fenômeno natural da vida. Contribui para esse objetivo que ela apenas saiba “ler, escrever e contar”.

Mas esta visão atrasada sobre educação vendida a países periféricos e dependentes cada vez mais como o Brasil, já é criticada até mesmo na matriz. Lá já se descobriu que o que conta não é o que os testes do PISA ou da nossa Prova Brasil exigem em Leitura, Matemática e Ciências, mas habilidades intra e interpessoais. Diz Levin:

 “Na realidade, as relações entre os resultados medidos em testes e os ganhos de produtividade são modestas e explicam uma parcela relativamente pequena da maior ligação entre nível educacional e os resultados econômicos. O que é omitido em tais avaliações estreitas são os efeitos que a educação tem sobre o desenvolvimento das capacidades e habilidades interpessoais e intrapessoais e que afetam a qualidade e a produtividade da força de trabalho.”

 Ou seja, exatamente o que não é medido pelos testes termina por ser o mais importante para alavancar a produtividade.

Como se vê, a educação no Brasil continua a ser vista por um jornal de grande circulação como algo instrumental, ligado ao domínio do ler, contar e escrever. E mesmo assim, os empresários brasileiros só reconheceram a necessidade de dar um pouco mais de instrução recentemente, quando a água chegou na garganta e ameaçou afogá-los. Até bem pouco tempo, com o seu atraso nas formas produtivas usadas e a pouca importância que sempre deram à formação de mão de obra qualificada, nem alfabetização demandavam. Na verdade os empresários estão sendo forçados a admitir que sua mão de obra precisa de mais aprendizagem, mas relutam em admitir a necessidade de que recebam mais educação.

De repente, pressionados pelos avanços tecnológicos, aparecem como sendo os paladinos da aprendizagem. Mas como se nota, ainda temem que o povo possa ser de fato “educado”. Querem apenas garantir o “direito à aprendizagem” – e assim mesmo, desde que eles definam qual é a Base Nacional Comum Curricular. Dessa forma, procuram aumentar o controle sobre a escola e afastam os riscos de um eventual “direito à educação” a ser reivindicado pela juventude. A outra ponta de lança é o Escola Sem Partido. BNCC mais Escola sem Partido, constituem partes de um processo de controle ideológico sobre a escola, com vistas a permitir a aprendizagem, mas não a educação de fato.

Mas a educação que queremos para o país, não é a concepção atrasada do “ler, contar e escrever” do Estadão e nem a versão modernosa da aprendizagem de “competências” e “habilidades sócio-emocionais” do empresariado 4.0. Tampouco é a escola amordaçada pelos conservadores do Escola sem Partido.

A educação que queremos não é a falácia de garantir uma “flexibilidade” do ensino médio que joga os estudantes menos favorecidos na rota do itinerário estreito da formação técnica e profissional, sonegando-lhe uma formação básica e desviando-o da formação em nível superior já no ensino médio, com base em sua origem social.

A educação que queremos passa pela inserção do jovem em seu tempo, com conhecimento e capacidade de auto-organizar-se, com uma visão histórica que lhe permita participar consciente e criticamente da construção de um futuro mais justo para o país e não somente ser preparado para trabalhar (e gerar lucro para o 1% mais rico), como propõe o Estadão em seu balanço sobre “a educação no país”.

Como sempre, soluções fáceis para problemas complexos têm uma característica comum: estão sempre erradas.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Meritocracia, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado , , . Guardar link permanente.

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