A entrevista de Joel Klein na Revista Exame

Não é sem razão que a Revista Exame veicula uma entrevista de Joel Klein, o ex-secretário de educação da Cidade de Nova York na era do prefeito Bloomberg, que também nos anos 2000 realizou várias reorganizações das escolas, a exemplo do que tentou fazer Alckmin em Estado de São Paulo.

Claudia Costin em recente entrevista também elogiou a atuação de Klein:

“Mas voltando  a Nova York e Washington, as duas grandes reformas foram as dessas cidades, e as duas deram resultados muito bons.  Com grandes  confrontos. Uma da pautas mais importantes em Nova York quando entrou o prefeito Bloomberg foi tirar as bonificações. Não houve pesquisa importante que mostrasse que o efeito era negativo.”

As duas entrevistas (de Costin e de Klein) são cheias de evasivas e de fugas dos temas mais conflituosos. Quem estava na reforma mencionada por Costin na Cidade de Nova York era Joel Klein e quem estava na de Washington era Michelle Rhee. A terceira pop-star dos reformadores empresariais americanos estava em Atlanta. Klein e Rhee escaparam de investigações. Não teve a mesma sorte Beverly Hall, em Atlanta,  que acabou indiciada e só não foi julgada por ter falecido. Hoje Joel Klein se dedica a viajar divulgando as suas ideias e a cuidar de uma das empresas que adquiriu de seu chefe Rupert Murdoch, e Michelle Rhee cuida de sua fundação “Students First”.

Não há evidência tendencial que suporte a fala de Costin de que os resultados destas aventuras em Nova York e em Washington tenham sido bons. (Veja estudo  aqui também) E há muitas ressalvas. Os modestos avanços no NAEP americano obtidos pela era Klein (2002-2009) não são diferentes de outras cidades que não usaram suas receitas milagrosas como Atlanta, Boston, Charlotte, Chicago, Cleveland, o Distrito de Columbia, Houston, Los Angeles e San Diego. Nos dois casos, depois de implementadas as reformas, os prefeitos perderam as eleições – Bloomberg depois de 12 anos no poder (Klein foi demitido antes). Nenhum destes reformadores estão no comando de redes de ensino hoje.

Na entrevista dada a Exame, Joel Klein comenta suas mudanças naquela cidade. Entre outras falas diz:

“Dividimos, por exemplo, uma grande escola, de 3 000 alunos, em seis outras com 500 estudantes cada uma. E demos aos pais e aos estudantes a opção de escolher. A Fundação Bill & Melinda Gates se entusiasmou por esse processo quando fizeram uma avaliação nacional de programas para resgatar as piores escolas e viram que nossa estratégia era a que funcionava melhor.”

Isto é apenas uma meia verdade pois a própria Fundação Bill Gates parou de incentivar esta estratégia. De fato, entre as cidades que tentaram esta estratégia a única que deu mais certo foi a administrada por Bloomberg tendo Klein como Secretário de Educação, devido à violência com que os princípios da administração da iniciativa privada foram transferidos para a área da educação. Uma máquina despótica de controle. Nas demais localidades que tentaram isso, houve fracasso. Para mostrar como a questão não é simples, cito  um estudo realizado pela própria Fundação Bill Gates nos Estados Unidos que diz:

“Quando os resultados das unidades menores criadas a partir de reorganização são calculados pela média, no entanto, temos encontrado pouco ou nenhum impacto sobre a frequência ou aproveitamento dos alunos. Os nossos dados qualitativos sugerem que a atenção e os recursos em muitas das escolas reorganizadas apoiadas pela fundação foram focados em mudanças estruturais e que as questões de currículo e instrução nessas escolas foram postergadas (Shear et al., 2005).”

O “sucesso” a que Joel Klein se refere não derivou das medidas implantadas por ele, como se constatou depois. Ele deixou o cargo após os testes do Estado de Nova York indicarem que as notas dos estudantes na avaliação do Estado mostravam uma realidade diferente daquela que aparecia nas provas da Cidade. As notas de Klein estavam infladas.

Afastado do cargo, dedicou-se a difundir suas receitas. Em 2012 esteve na Inglaterra fazendo consultoria. Foi ele também quem assessorou a Austrália e ajudou-a a copiar as receitas americanas para lá (Murdoch, seu chefe na área empresarial, é de origem australiana). Não me surpreenderia se ele aparecesse por aqui também com elas, depois desta entrevista divulgada pela revista Exame.

Na entrevista, faz-se referência a um livro de Klein onde ele apresenta o sucesso de sua política na cidade de Nova York, no entanto, esta não é a opinião do pesquisador Gary Rubenstein. (Veja estudo  aqui também.)

Contrariando resultados de pesquisas, Klein afirmou em 2010 que:

“O fator mais importante que determina se os alunos têm sucesso na escola não é a cor da sua pele ou seu CEP ou mesmo a renda dos pais – é a qualidade de seu professor.”

Klein sempre criticou o fato dos professores terem direito a aposentadoria, mas ao final de sua gestão na cidade de Nova York, angariou uma aposentadoria pela sua breve passagem pela Secretaria no valor de 34.000 dólares anuais.

Sobre as escolas charters, na entrevista mencionada, Joel Klein não evita as palavras:

“Uma mudança de paradigma que aposto que permanecerá [refere-se a Bloomberg ter perdido as eleições recentemente] são as escolas charter, administradas por uma entidade privada. Essas escolas dão às famílias mais pobres a possibilidade de escolher se querem matricular seus filhos numa escola pública tradicional do bairro ou num colégio público sob concessão privada. Essa liberdade de escolha tira o monopólio do governo.”

O cenário que pinta não é verdadeiro, pois as escolas públicas regulares em muitos locais são fechadas para serem transferidas para a iniciativa privada. A alegada escolha nem sempre é possível. Além disso, uma grande parte das charters opera por sorteio, ou seja, os alunos se inscrevem e são aceitos através de um sorteio. Muitos não ingressam e outros nem tentam, usualmente os mais pobres.

Para falar da “qualidade” das charters Klein limita-se à sua declaração de que são muito boas, mas não remete a nenhum dado empírico que dê suporte a suas afirmações. Mas os estudos existem e não corroboram suas afirmações. (Veja aqui também.) Ele apenas afirma e espera que o leitor acredite. Sobre suas reorganizações e outras receitas, o australiano Gary S. Stager, reagindo às influências de Klein naquele pais, diz:

“Klein mudou a estrutura organizacional do distrito tantas vezes que o caos se seguiu” (…) Qualquer pessoa com acesso ao Google poderia facilmente aprender que as alegações de Klein sobre aumentos milagrosos de pontuação nos testes foram desacreditadas por especialistas de todo o espectro político. Isto é particularmente trágico desde que sob a sua liderança, escolas de cidade de NY foram transformadas em fábricas dickensianas de exploração onde administradores assustados intimidavam professores criativos a seguir scripts curriculares a fim de aumentar as notas dos alunos. O Sistema de Relatório Escolar anunciado por Klein, com o qual ele pretendia envergonhar as escolas para aumentar os resultados dos testes, provaram ser inválidos ao classificar com notas baixas escolas nacionalmente reconhecidas pela sua excelência”.

E ainda:

“Entre em conflito com Klein ou um de seus impositores e você poderá ir  encontrar-se com outros 700 professores designados para o que é conhecido como “salas de isolamento” em toda a cidade. Ao invés de se envolver no processo de demitir professores acusados ou colocá-los em licença, Klein prefere humilha-los e puni-los antes de que qualquer culpa seja provada. Estes mais de 700 professores devem apresentar-se a um “centro de realocação de professores”, onde eles olham para um relógio durante todo o dia, cinco dias por semana. Se isso não fosse suficientemente kafkiano, Klein emprega psicólogos que usam duvidosas avaliações para determinar a aptidão dos professores para ensinar. Não importa que o sétima Corte Federal de Apelações considere isso como charlatanismo ilegal, obtenha um atestado de um bom médico e sua próxima parada será a “sala de isolamento”. Um educador veterano aclamado como “Professor do Ano” pelo prefeito Giuliani passou quase cinco anos indo diariamente a uma dessas salas”.

A transferência da experiência Americana para a Austrália, ao que parece, não deu muito certo pois este país está caindo nas avaliações do PISA. Os Estados Unidos nunca decolou no PISA.

Prepare seu estômago, este pessoal vai começar a desfilar por aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Meritocracia, Privatização, Reorganização escolas em São Paulo, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para A entrevista de Joel Klein na Revista Exame

  1. Remo Bastos disse:

    Neste post do Prof. Luis Carlos Freitas são sistematicamente desmascaradas todas as frágeis e débeis alegações do charlatão em questão, que tenta disseminar o suposto “sucesso” da “reforma educacional empresarial”, a qual está, na verdade, aumentando mais ainda a iniquidade e a segregação social naquela nação.

    Trata-se, na verdade, de um sofisticado esquema de extorsão de recursos públicos para os conglomerados empresariais das áreas editorial, de consultoria e de informática, capitaneado pela (A)Fundação Gates, conformando uma verdadeira farra com o dinheiro público. O modelo educacional imposto a ferro e fogo caracteriza-se pelo estreitamento curricular e pela obsessão com testes padronizados em larga escala, tratando os estudantes como ratos de laboratórios e desmoralizando os professores. (O ovo da serpente já está “quebrando a casca” aqui no Brasil….vide Goiás, São Paulo, Bahia e Pernambuco…pelo menos)

    Os pífios resultados em termos de redução do gap educacional norteamericano nos ultimos 20 anos falam por si, mas essa quadrilha prepara-se para aportar em terra brasilis, onde já conta com a canina adesão de nossa burguesia compradora, ávida por “fazer algum $$$” e entregar mais essa esfera do país aos capital global.

  2. Dagmar Zibas disse:

    Sugiro ao Prof. Freias que envie esses dados para a Revista Exame. Talvez sejam publicados pelo menso em Carta dos Leitores. É preciso tentar ocupar a grande mídia também. Ou por que não um artigo para a p.3 da Folha. Os grandes veículos às vezes gostam de confrontarem.

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