USA: tentativa de justificar base nacional fracassa

Um relatório americano chamado “Lições sobre o desempenho dos estados no NAEP: porque alguns estudantes em situação de alta pobreza desempenham-se melhor que outros”, de autoria de Ulrich Boser e Catherine Brown, publicado pelo “think tank” liberal Center for American Progress, tenta mostrar que as reformas baseadas em standards de desempenho – tal como se quer criar no Brasil com a formulação de uma Base Nacional Comum – produzem efeitos positivos em populações de baixa renda. A partir disso, argumenta que os Estados americanos devem adotar o Núcleo Comum e as avaliações que o acompanham.

Acesse o relatório aqui.

O relatório coloca a questão da seguinte forma:

“Estudantes de entornos de baixa renda enfrentam uma variedade de desafios econômicos e sociais que tornam mais difícil para eles desenvolver seu potencial. Eles muitas vezes têm um ambiente familiar difícil. São mais propensos a ter problemas de saúde. Estão expostos a muito menos palavras do que seus pares mais ricos e, muitas vezes, não têm acesso a programas de educação infantil de alta qualidade que podem ajudá-los a crescer. Para piorar a situação, os estudantes de baixa renda muitas vezes vão a escola públicas que recebem menos financiamento do que as escolas que atendem estudantes mais ricos. Se isso não bastasse eles têm professores com menos experiência e menos preparados.

Contudo, é também bastante claro que alguns estados fazem um trabalho melhor ao educar estudantes de baixa renda do que outros. De acordo com dados do NAEP, há uma grande lacuna entre estados com estudantes de baixa renda de alto desempenho e os estados com estudantes de baixa renda de menor desempenho. Por exemplo, em matemática na oitava série, os estudantes de baixa renda de Massachusetts obtiveram 17 pontos a mais do que os estudantes de baixa renda de Mississippi. Ou dito de outra forma: estudantes de baixa renda em Massachusetts estão uma série inteira e meia à frente dos estudantes de baixa renda de Mississippi, em matemática.

O Center for American Progress procurou entender melhor o papel das reformas baseadas em standards na melhoria dos resultados dos estudantes e para este fim, examinou os dados do NAEP. Considerando pesquisas anteriores, acreditamos que poderíamos encontrar uma forte conexão entre as reformas baseadas em standards e o desempenho dos estudantes.”

No fundo, o que o estudo procurou fazer foi justificar e estimular a adoção do Common Core americano (algo parecido a uma Base Nacional Comum em leitura e matemática) pelos estados, tentando sugerir que seria muito bom para elevar o desempenho dos estudantes de baixa renda.

Dado que a ideia pode entusiasmar alguns por aqui, já que estamos na formulação de nossa base nacional comum, vale a pena divulgar a revisão que o National Education Policy Center fez da pesquisa de Boser e Brown.

O resumo da revisão do estudo diz:

“O relatório do Center for American Progress examina se a adoção de políticas baseadas em standards pelos estados prediz a tendência de desempenho de estudantes de baixa renda no NAEP entre 2003 e 2013. O relatório afirma analisar as mudanças em cinco intervalos separados de dois anos, mas só apresenta os resultados para 2009-2011, sem nenhuma explicação do porquê ou qualquer documentação sobre a representatividade desse único intervalo. A constatação relatada para o intervalo selecionado é que a adoção pelos estados de políticas de standards prediz positivamente o desempenho na quarta série (mas não na oitava série) do NAEP em matemática e na oitava (mas não quarta série) do NAEP em leitura. Mesmo estes resultados positivos selecionados são estatisticamente significativos apenas ao nível 0,10 o que é geralmente um nível de significação inaceitável. O relatório inclui tamanhos de efeito, mas nada sobre a porcentagem da variância explicada em seu modelo.

Em suma, o relatório não descreve adequadamente as variáveis, os métodos analíticos ou reporta os resultados de forma completa e os dados e os métodos utilizados não permitem quaisquer conclusões causais. Eles usam a adoção de standards pelos estados entre níveis de ensino e disciplinas, bem como a obrigatoriedade de prestação de contas como preditores, mas não conseguem avaliar a sua qualidade ou a fidelidade da implementação da política. No entanto, com base nessas análises muito problemáticas e limitadas, os autores concluem que o seu estudo “apoia fortemente o potencial do Núcleo Comum para produzir melhorias nos resultados educacionais.” O estudo simplesmente não sustenta esta conclusão ou o conjunto de recomendações que deduz dela.”

A revisão feita por Sharon L. Nichols pode ser acessada aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Links para pesquisas, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s