“Escritos de guerra”a favor da resistência organizada já – I

A função da academia, em geral, é o exercício da crítica das teorias e das práticas sociais que organizam a nossa compreensão do mundo. Para os que acreditam que não é suficiente ficar ao nível da crítica das “narrativas”, impõem-se outras exigências: envolver-se com a transformação das práticas à luz daquele posicionamento crítico. Tudo pareceria simples, uma questão de coerência. Mas nada é simples e via de regra, a simplicidade e até mesmo o óbvio, escondem complexidades surpreendentes – em todas as ciências.

Como parte da academia, somos instados a escrever e a falar apenas quando temos evidências que sustentem nossas afirmações – evidências que garantam alguma coerência interna no discurso ou com a própria prática social em questão. Portanto, não gostamos de correr riscos. Isso, que tem sua lógica, no entanto, às vezes nos impõe uma lentidão na análise, à procura de segurança, incompatível com a velocidade dos fatos políticos, sociais e econômicos que fluem como um turbilhão, atropelando ensaios interpretativos e minando a segurança das proposições. Isso é especialmente verdadeiro, quando nos propomos a interpretar conjunturas.

Tendentes a esperar pela segurança das proposições, vamos ficando fora das contradições e da política. No entanto, há certos momentos em que temos que “arriscar o diploma” e ensaiar nem que sejam alguns “escritos de guerra”, imprecisos, mas que possam ajudar na construção de uma imagem mais global que estimule o debate e coletivamente procure construir uma interpretação mais segura, ainda que provisória, do que estamos vivendo e de como podemos nos organizar para agir face à realidade mutante, para não corrermos o risco de ficar “vendo a banda passar”. Outro não é o objetivo desta sequência de posts.

Não bastasse isso, a multiplicidade de posições teóricas e alternativas práticas constituiu-se em rica diversidade a ser preservada e, ao mesmo tempo, uma grave dificuldade de articulação e acumulação de forças. Meu colega Luciano Mendes em seu Blog do Pensar a Educação, aborda este aspecto em um post em que diz:

“Os enfrentamentos são muitos e de ordens diversas. E as forças estão muito desigualmente distribuídas. É preciso, portanto, que passemos a agir de forma mais articulada e de estabelecermos temas e ações prioritárias para o enfrentamento coletivo. Nisso, nossas instituições, movimentos e frentes têm que cumprir o papel de ordenar e conduzir os movimentos de resistência. ”

Nada mais correto. Em um quadro de resistência, é necessário ter “temas e ações prioritárias” amplas, que aglutinem e não dispersem. Quanto mais formos ao detalhe – como gosta a academia – mais nos dividiremos. Portanto, uma certa dose de “superficialidade aglutinadora”, é benvinda. Além disso, a escolha dos temas deve nos levar aos pontos centrais de enfrentamento com a política em curso e não a questões subsidiárias. Teremos tempo para acertar nossas diferenças.

Nilda Alves em uma intervenção na Anped Sudeste alertou para a necessidade de que deixemos de lado, pelo menos neste momento de reorganização, as nossas diferenças mais específicas, para nos concentrarmos naquilo que pode nos unir.

E o que pode nos unir?

Temos que continuar este exercício agora sob novas condições, mais adversas, impostas pelo golpe. Antes, porém, é preciso estarmos alertas para um impedimento muito comum, para o qual chamava atenção Piaget em seu modelo teórico da aprendizagem baseada em assimilação e acomodação. Dizia ele que em um primeiro momento, tendemos a assimilar o novo e acomodá-lo ao que já sabemos. Ou algo parecido. Neste processo, também corremos o risco de anularmos a própria novidade, ao identificarmos a mesma com o já conhecido, descartando indevidamente suas características diferenciadoras. Penso que este seja um requisito essencial para, neste momento, não corrermos o risco de acomodar o novo ao velho e nos desarmarmos perante o novo, achando que ainda somos regidos pelo velho.

Temos muito de “acomodação” neste momento, ou seja, há muita liderança achando que as novidades da nova fase encampada pelo governo interino Temer, são uma simples continuidade do que já estava sendo feito e criticado durante os governos do PT, portanto, não há por que nos assustarmos. A posição beira à ingenuidade.

Alguns, mais ávidos pelo espólio petista, concentram o debate na crítica ao PT. É uma crítica merecida, mas concentrar nisso, é um equívoco: se o que está ocorrendo fosse o mesmo de antes, as atuais forças hegemônicas não teriam precisado tirar Dilma. Ao aceitar este entendimento, minimizamos as ações do governo interino e colocamos a discussão em um fla-flu sobre quem tinha ou não razão sobre os rumos do PT.

Isso não vai longe. Até porque, penso, um dos principais erros do PT e coligados foi separar-se dos movimentos sociais. Sem movimentos sociais fortes, não há possibilidade de se levar adiante uma agenda progressista mais definida. E não vejo nenhum partido político que foi crítico do PT ter uma ligação forte com movimentos sociais atuais que o credenciasse a fazer mais do que fez o PT. Dilma, de fato, é uma desculpa para se implantar uma agenda que jamais seria aprovada pela população brasileira em um pleito eleitoral.

Esta é uma análise que precisamos fazer, em algum momento. No entanto, há outras mais urgentes, na linha de criar um arcabouço de temas e ações prioritárias de resistência.

Novamente, o que pode nos unir?

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado , . Guardar link permanente.

3 respostas para “Escritos de guerra”a favor da resistência organizada já – I

  1. Maria Antônia de Oliveira Vedovato disse:

    Sabemos muito bem que o que nos une é a nossa causa. E a causa maior de nossa luta é a Educação. Uma Educação de Qualidade Social que conduza de fato à população à sua digna humanidade. Razão essencial de sua existência.

    • Isto pode ser uma proposta boa quando o governo está voltado para o bem do cidadão. Mas o atual está voltado para o bem do mercado. No mercado, não há qualidade social, há lucro, a competição. Se as escolas forem colocadas em um ambiente de mercado, vão disputar que tem ideb mais alto e não quem tem qualidade social. Sendo assim, esta proposta de qualidade social tem que ser agora complementada com uma opção clara por fazê-la sem privatizar. Abraço.

  2. Pingback: “Escritos de guerra”a favor da resistência organizada já – I | Blog do Pensar a Educação

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