Sobre “pontes”, futuro e educação

“Só com a renovação do ambiente político, por meio da participação direta da sociedade, será possível engajá-la num projeto de reformas profundas e de longo prazo. É hora de um gesto maior do presidente [Temer], convocando um recall, por meio de uma proposta de emenda à Constituição, antecipando as eleições [para presidente, deputados e senadores].”

Quem diz isso é Ronaldo Caiado, do espectro político ruralista conservador, que adotou um discurso que também se vê em setores da esquerda. Curiosamente, quando, por ocasião do impeachment, se quis resolver o problema de Dilma chamando uma eleição direta, estes mesmos recém defensores de eleições diretas, não concordaram. Era preciso, primeiro, uma “ponte” antes de nova eleição em 2018. Feito o impeachment, acuados pelos escândalos, agora surge a necessidade de “passar a limpo” o golpe, dando-lhe “legitimidade” em um processo eleitoral que ocorra, se necessário, antes de 2018. Face aos novos riscos para a “estabilidade da ponte”, é preciso roubar de imediato o discurso da esquerda e defender “eleições já”. A razão é confirmada por Andre Singer:

“Desde o final de 2015, a perspectiva de tomada do poder pelo PMDB carregava em si o ideário pessedebista, evidenciado no documento “Uma ponte para o futuro”. Depois, à medida que o impeachment se aproximou, firmou-se pacto implícito, entre os dois partidos, de passagem efetiva do bastão em 2018. Mas, com o recrudescimento da Lava Jato, que atinge em série os homens do presidente, parece que Michel Temer precisará entregar de imediato o osso.”

Ou seja, uma “ponte” – o PMDB de Temer – é a passagem necessária para viabilizar um governo do PSDB – tido como o “futuro”. Durante a ponte, as reformas que não passariam por meio de eleições, devem ser feitas autoritariamente, via MP ou tramitadas celeremente por acordos no Congresso – claro, em nome da “salvação nacional”.

A análise confirma a ideia de um governo tampão autoritário, um biombo para o PSDB. Claro, haverá compensações para o PMDB pelos desgastes, sempre a eminência parda dos poderes, desde o fim da ditadura militar. Se acidentes de percurso acontecerem, antecipem-se as eleições [para legitimar os mesmos atores], esvaziando o discurso à esquerda.

Caiado, é presciente disso e como candidato a presidente em 2018, está abrindo um caminho próprio para o DEM e sua candidatura. No pior dos casos, se os acidentes de percurso não se confirmam, chega ao convescote cacifado para um posto mais elevado na “nova configuração” que as eleições de 2018 vão criar. Também quer fazer parte das merecidas recompensas por serviços prestados na construção da “ponte” para este “futuro”.

Como bem disse Dilma: Temer traiu o programa que o elegeu. Diz:

“O que me tirou do governo foi um golpe de Estado. O que se vê nestes seis meses é um processo de deterioração. Me tiraram para cumprir os seguintes objetivos: impedir que as investigações de corrupção chegassem até a esses que hoje ocupam o poder, implantar no Brasil o resto do processo de liberalização econômica de políticas de privatização, de flexibilização do mercado de trabalho e, sobretudo, retirar completamente os pobres do orçamento do país. Estas medidas, que são do receituário neoliberal, para serem implantadas era necessário que ocorresse essa verdadeira suspensão da democracia, que foi o meu impeachment”.

Como já se disse, a “ponte para o futuro” nada mais é do que uma ponte para a retomada do projeto do PSDB interrompido ao final do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso – FHC. Não é outra a conclusão de Andre Singer:

“Outra dúvida é se Temer, acusado diretamente nas colaborações premiadas, continuará viável como biombo do plano pessedebista. Daí o aquecimento de FHC para uma eleição em 2017, embora com a idade a lhe pesar nas costas. Quem viver, verá.”

Mas há também Nelson Jobim de prontidão para o caso de FHC não se dispor. Os arroubos de Caiado solicitando eleições diretas são orientados pela pré-ciência da direita que sabe – embora tema – que tais eleições no cenário atual conduziriam a levar ao poder oficialmente os mesmos atores atuais (explícitos ou implícitos). Condição indispensável para tal empreitada, no entanto: inviabilização de Lula através da Lava Jato, plano que segue a todo vapor.

Ciente de que tem uma tarefa a concluir – se quer fazer jus ao retorno ao ninho dos que governarão depois da “travessia”, redimindo-se de sua aliança com o PT -, o PMDB acelera as mudanças através de MP e projetos de lei – agora sobre a reforma trabalhista. Vem aí a mudança mais esperada pelos empresários nacionais e internacionais: o desmonte das leis trabalhistas.

Na área da educação, depois da reforma do ensino médio por MP, penso que agora é a hora e a vez da Lei do Sistema Nacional de Educação e da Lei de Responsabilidade Educacional – ambas aguardando continuidade no Congresso. Por estas, se organizará o ataque às escolas públicas e ao magistério público, aplicando no Brasil, o receituário da No Child Left Behind americana, ensaiada nos dias de Mangabeira Unger, mas que não prosperou à época, por pressão da então equipe da SASE do MEC, conduzida por Binho Marques, que elaborou projeto alternativo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Mendonça no Ministério e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s