Bônus na área médica: mesmos problemas

A Folha de São Paulo divulga a situação dos médicos submetidos a avaliação permanente, baseada no perfil de seu desempenho. Nada mais é do que uma variante do pagamento por bônus. Em alguns hospitais os programas de avaliação possuem 70 indicadores que geram pontuações que classificam médicos como “premium, advance, evolution e special”.

Não é diferente nos programas de pós-graduação das Universidades e igualmente pode ser encontrado em sistemas de ensino como São Paulo, Rio e outros estados, em forma de pagamento de bônus de acordo com a avaliação da escola.

“Hospitais privados do país adotam programas de benefícios que, entre outros critérios, premiam médicos pelo volume de exames, cirurgias e internações que realizam.

Quanto mais procedimentos, mais pontos ganham na avaliação –que inclui itens como fidelização, adesão aos protocolos clínicos e atuação em ensino e pesquisa.”

Leia mais aqui.

De que se queixa a Folha de SP, se ela é defensora do pagamento por bônus para professores, tendo por base o aumento do rendimento dos estudantes do professor?

A Folha, como liberal que é, vive sempre a contradição entre a defesa das ideias liberais (pagamento por rendimento) e as consequências destas ideias (deturpação no atendimento) que ela insiste, quando recebe críticas, em dizer que são devidas à forma como foram aplicadas. Entretanto, bônus, em quaisquer áreas onde são aplicados, fracassam. É o conceito em si, e não a forma de aplicá-lo, que produz as distorções. Setores da própria indústria já detectaram tais problemas e aposentaram estas ideias, embora em outros ramos ainda sejam usadas.

“O médico que soma mais pontos consegue mais reputação dentro do hospital e privilégios como presentes, descontos em exames para ele e seus familiares e prioridade no uso do centro cirúrgico.”

Uma boa definição para esta situação é dada pelo presidente da Anahp: “volumetria”:

“Não se pode atrelar a participação médica a nenhuma volumetria. Seria como remunerar bombeiro que apaga mais incêndios. Logo começariam a queimar casas para ganhar mais”, diz Francisco Balestrin, presidente da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados).

Pois é, assim acontece quando se quer pagar também professores a partir do aumento do desempenho do aluno em testes. Todo tipo de fraude vai sendo implementado na escola.

Tudo isso ocorre porque o liberalismo se nega a ver o limite de sua própria concepção, a qual – ainda que em outro contexto – foi muito bem esclarecida por Campbell na década de 70 – portanto, já com um bom tempo para que tivesse sido aprendida:

“Quanto mais algum indicador social quantitativo for usado para a tomada de decisão social, mais sujeito estará às pressões de corrupção e mais apto estará a distorcer e corromper os processos sociais que se pretende monitorar”.  (Campbell, D. T., Assessing the Impact of Planned Social Change. The Public Affairs Center, Dartmouth College, Hanover New Hampshire, USA. December, 1976.)

Os depoimentos são contundentes: médico segurando paciente internado sem necessidade só para justificar diária do hospital e outros, como solicitação de exames sem necessidade.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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