TEMER deixa o golpismo nu

Há algum tempo escrevi sobre a eleição de Trump o seguinte:

“O mundo capitalista que tem no “american way life” seu melhor representante, será administrado pela sua própria criatura: Donald Trump. Soa hipocrisia, por parte daqueles que defendem o “modo de vida americano”, que agora se insurjam contra seu melhor representante: um homem de negócios bem sucedido, individualista, ardiloso, sem escrúpulos – para citar algum dos atributos que orientam boa parte dos homens de negócio em sua trajetória para o sucesso na terra chamada “wall street”. Para saber como funciona este território, basta ver o filme O Lobo de Wall Street.”

As trapalhadas de Trump são toleradas pelas elites americanas porque são expressão dos interesses delas mesmas. Como Trump, também Temer está no poder pela mão das elites econômicas brasileiras. Para justificar Temer, estas desenvolvem, à moda das elites americanas, a teoria do “custo-benefício”: apesar do custo corrupção, temos o benefício das reformas. Assim pensa o capital, por isso corrompe a seu favor, subornando políticos, comprando MPs e garantindo aprovações de leis que o favorece.

O verdadeiro favor que a JBS faria ao país era ter denunciado os pedidos de propina quando eles foram feitos pela primeira vez e não ter se “acostumado” à maneira de operar de certos políticos, até precisar denunciá-los para salvar a própria pele. Mas a corrupção só apavora a elite se ela for contra si mesma, no entanto, aquela que a favorece, só será criticada em último caso: é o pragmatismo a la Wall Street. O MBL nem manifestação quer fazer…

Mas, mesmo assim, a contribuição da JBS neste episódio, ainda que para salvar a pele, foi promover uma crise que revela as razões do golpe de maneira clara e límpida: desculpe aí… quem acreditou no “golpe redentor”.

Temer comprovou o acordão que se estabeleceu no golpe entre uma certa elite política e os setores econômicos: políticos assumem o poder e com isso, salvam a sua pele; em troca, garantem as reformas que a elite econômica deseja. Isso pode ser dito, também, de uma maneira mais elaborada:

“Temer nunca gozou de popularidade. Os índices dele são muito baixos. De alguma maneira, ficou dependendo dos programas de reforma econômica para sobreviver. A partir do momento em que ele não teve apoio da rua, teve de buscá-lo na classe política, que, de alguma maneira, o apoiava na expectativa de que pudesse ser blindada contra as investigações da Lava Jato. Temer adotou um reformismo radical para mostrar aos setores sociais e econômicos comprometidos com a pauta liberal no Brasil que valeria a pena protegê-lo contra a impopularidade. Então, tudo o que acontecer nas próximas 48 horas terá a ver com sua capacidade de dar uma explicação plausível sobre o que aconteceu e essa explicação ser levada em consideração pelas forças que o sustentam no Congresso e pelos setores econômicos.”

Quando a notícia sobre Temer se tornou inevitável, as elites acionaram a Rede Globo para que promovesse uma espécie de “explosão controlada” – quem não se lembra da Globo durante a ditadura militar? A questão é salvar as reformas, Temer que se explique. As elites econômicas sentem-se traídas pelas trapalhadas de Temer.

Junto com a Globo, o principal fiador das reformas econômicas, a mando do capital internacional, é o PSDB. A reação deste Partido aos últimos fatos é típica e pode ser vista assim: quem deve sair do governo é Temer e não o PSDB. O projeto do governo, de fato, é do PSDB. Se Temer fez bobagem, ele que pague e não o projeto político das reformas econômicas. Portanto, resiste e só sairá se ficar claro que isso afetará sua posição nas eleições de 2018.

O PSDB imagina um cenário sem Temer e tentará construir uma imagem de “salvador do país” o que  seria um antídoto para o estrago do “menino levado”, Aécio. A saída seria cassar a chapa Dilma/Temer pelo TSE e manter o bloco de poder. A dificuldade é que todo mundo sabe que a imprensa já sinalizou que o TSE cassaria só Dilma. O próprio Temer já disse que não seria cassado. Teve até quem disse que o TSE ia “matar no peito”, ou seja, controlar a “bola”. Dois ministros do TSE foram trocados por Temer. E agora? Um novo processo de impeachment atrapalharia o ritmo das reformas. Manter Temer, cria instabilidade. É isso que a elite tenta equacionar neste momento.

Doria já afirmou que o PSDB não deve sair do governo. Alckmin já disparou que “o PSDB vai ajudar o Brasil, mais uma vez”. Isso significa igualmente, que o pessoal que se alojou no MEC, tanto do PSDB como do DEM, não pensa em sair de lá. Portanto, até novos acontecimentos, tudo segue igual na política educacional brasileira.

Caso não haja movimentação de massa nas ruas, o que haverá é uma acomodação dentro do mesmo bloco de poder, mantendo-se o objetivo principal do golpe: efetuar as reformas. Estas reformas, não são feitas a partir de eleições, dado o alto grau de impopularidade que geram. Por isso, a elite não vai nem querer ouvir falar em eleições diretas, até porque a lava-jato ainda não condenou Lula.

O pano de fundo é que as reformas são intocáveis porque são produto de um ultimato das elites financeiras internacionais à elite econômica brasileira: ou faz as reformas ou não pega carona nas cadeias de faturamento internacionais e, com isso, terá suas margens de lucro diminuídas. E não chorem… depois.

Finalmente cabe ressaltar que não foi a Lava-Jato que pegou Temer e Aécio. Como bem colocou Nassif, CGN, foi a Procuradoria Geral da República atuando com a PF e usando métodos profissionais de investigação e não as improvisações da masmorra da república de Curitiba, onde o método rudimentar é prender até delatar.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para TEMER deixa o golpismo nu

  1. Andreia disse:

    Estava sentindo falta dessas suas análises, Prof. Faltam aqui as palmas do WhatsApp. O senhor sempre merece muitas.

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