Paulo Carrano: a escola pública e seus desafios

A escola pública diante do desafio de educar em relações de liberdade e convivência democrática

Por Paulo Carrano

“Agradeço ao convite que me foi feito para participar deste congresso internacional que ocorre em ocasião muito especial, os 45 anos de criação da Faculdade da Educação da Unicamp. É para mim uma alegria muito grande poder participar da celebração da trajetória de instituição tão importante para a formação de educadores e a pesquisa em Educação no Brasil.

O congresso ocorre também numa época de profundas incertezas sobre a vida nacional, em especial, pela crise econômica, política e civilizatória que tem seu marco trágico no golpe institucional ocorrido no ano de 2016 que culminou na destituição da Presidente eleita Dilma Rousseff sem que contra ela pesasse efetivamente crime de responsabilidade.

Desde, então, forças de expansão da exploração capitalista e do estabelecimento de agendas conservadoras e protofascistas se articulam para consolidar um projeto de um país amesquinhado diante os interesses estrangeiros, intolerante com a diferença e os Direitos Humanos e indiferente às nossas brutais desigualdades econômicas e sociais. O Brasil está em rota de colisão consigo mesmo e somente a participação popular orientada democraticamente poderá nos recolocar os horizontes para sairmos do atoleiro cívico, político e econômico no qual nos encontramos.

O título deste Congresso – Escola Pública: tempos difíceis mas não impossíveis – é uma referência para mim à recomendação de Antonio Gramsci sobre a necessidade que devemos ter em cultivar diante da História o “pessimismo da razão e o otimismo da vontade”. E é nesta perspectiva que tentarei trazer alguns elementos para que possamos juntos pensar alguns desafios que se apresentam no plano cultural e político para a escola pública brasileira, em especial naquilo que diz respeito à escolarização da juventude.”

Leia a íntegra aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para Paulo Carrano: a escola pública e seus desafios

  1. Camilla S. e Isis C. disse:

    Embora a o projeto de lei escola sem partido ainda esteja em andamento , percebemos que vem crescendo os ataques a professores e aos indivíduos que constitui a nossa sociedade. Como podemos pensar em uma escola e uma sociedade democrática, formadora para o exercício de cidadania, se a escola sem partido propõe que a autonomia da escola e do professor seja subtraída?
    Não podemos ter a idéia reducionista de que a escola é apenas uma transmissora de conteúdos, ela também tem o papel fundamental de formação humana, portanto o processo de educação deve ser uma parceria entre escola e família.
    Para que a escola consiga enfrentar os percalços dos dias de hoje de forma democrática e necessário: ouvir, argumentar, reconhecer e respeitar as diferenças.
    No texto de Elizabeth Macedo – As demandas conservadoras do movimento escola sem partido e base nacional curricular comum, ela deixa claro que a escola sem partido é contra a liberdade de expressão e por sua vez contra a democracia quando sugere que a escola:
    – Negue discussões sobre gênero;
    – Insere princípios religiosos que vai de acordo com a moral da família tradicional;
    – transfere toda formação moral e ética das crianças para o espaço privado da família;
    – Reforça as desigualdades sociais dentro e fora da escola;
    – Exclui a diversidade cultural do currículo.
    Para que a escola consiga enfrentar os percalços dos dias de hoje de forma democrática e necessário: ouvir, argumentar, reconhecer e respeitar as diferença.
    No texto de Ângelo Ricardo de Souza sobre Gestão Escola Democrática, ele reforça a importância do respeito à alteridade e da educação para cidadania, onde quanto mais participativa a população puder ser mais educará sobre seus direitos e interesses.
    Nós acreditamos que esses são os princípios que deve reger uma democracia social de forma que tanto a escola quanto a sociedade participe desse processo.

  2. Graziele Freitas; Kellen Nogueira disse:

    A escola pública como direito inalienável de todos tem como um dos desafios ser um espaço democrático. Sendo dever do Estado tornou-se obrigatória a todas as crianças entre 4 anos e 17 anos, no entanto, esta obrigatoriedade não garante que todos os sujeitos estejam incluídos no processo de escolarização. De acordo com os dados contidos no artigo de Alvarse (2009) 25% dos alunos do ensino fundamental não são promovidos à série seguinte. Historicamente a escola tem se configurado como um lugar de homogeneidade dos corpos e mentes, excluindo as diversas possibilidades de existência e de maneiras de aprendizagens, tornando-se uma instituição que hierarquiza os saberes.
    Os ciclos como forma de organização, em contraposição com a seriação no ensino fundamental, podem se configurar como uma organização escolar mais democrática, ao instaurar um compromisso com a aprendizagem dos sujeitos, na concepção de ciclos de formação humana. Ao deslocar o foco dos métodos avaliativos da escola seriada, que promovem a reprovação e por conseqüência a evasão escolar dos sujeitos que já são excluídos socialmente. Assim, a igualdade de oportunidades que o ciclo promove não acarreta na imposição da igualdade de resultados, isto é, deve haver um rompimento com a lógica padronizada e unificada de “eficiência” imediata.
    É importante, segundo Vygotsky (2001, p.457-459 apud Alvarse, 2009, p 38) adotar uma pedagogia sob o aspecto de luta, isto é, confrontar uma sociedade que em disputas político-econômicas tende a censurar o acesso a conhecimentos produzidos pela humanidade e a reflexão crítica dos sujeitos de modo a desvendar as estruturas sociais excludentes de nossa sociedade. Como exposto na publicação a liberdade de expressão dentro das instituições educativas tem sido atingidas por setores conservadores da sociedade, que alegam o caráter ideológico que essa adota, essas discussões que colocam em pauta o papel do professor e da liberdade destes em compartilhar e promover reflexões junto aos educandos acerca das estruturas sociais que os oprimem. Dessa maneira, somente com o diálogo, conforme Carrano (2017), há possibilidade de construirmos juntos uma práxis de forma a reconhecer a diferença. Em que a escuta possa levar a efetivação da democracia às populações marginalizadas da sociedade e de fato concretizar o direito à palavra, à educação, enfim, a possibilidade de uma sociedade mais justa.

    Referências
    Alavarse, Ocimar Munhoz. . A organização do ensino fundamental em ciclos: algumas questões. Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 40 jan./abr. 2009, p.37- 38.

  3. Ana Beatriz e Anna Clara disse:

    O currículo escolar é um campo de disputas, e o atual cenário da educação brasileira deixa isto bastante claro. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Movimento Escola sem Partido (MEP) tem acalorado muitas discussões em torno do que deveria estar ou não presente nos conteúdos escolares. O grande problema dessas discussões do MEP, como é muito bem colocado por Paulo Carrano, é que são discussões baseadas em um discurso voltado para o eu que não compreende as diferenças, muitas vezes violentas não dando espaço para o diálogo.
    É retirado da escola o seu papel de formação integral, e ela volta a ser vista como uma instituição de formar operários eficientes para o trabalho. São ideias que retrocedem para uma escola ainda mais adestradora e moralizadora, que desqualifica diversas formas de socialização, considerando apenas sujeitos de determinada classe, gênero, raça/etnia, sexualidade e religião.
    Ao debater as questões culturais que considera centrais no diálogo que abrangem a escola pública, Carrano defende uma escola de educação integral, que tem uma concepção de formação humana ampliada, completa, em redes socioeducativas, em diversos territórios educativos. Essa escola integral deve abordar todas as facetas das diferenças, sempre lembrando que este é um desafio enorme que deve ser tratado durante o tempo escolar e com toda a comunidade escolar, com discussões que trazem diversos pontos de vista levando a um debate aberto. Desse modo, deve-se reconhecer que somente através de uma gestão democrática essa ampla função da escola pode ser efetuada, reconhecendo que este é um grande desafio a ser desempenhado, uma vez que faz parte do cotidiano das escolas.
    O processo político de solução de problemas e desenvolvimento das escolas deve ser calcado no pressuposto da gestão democrática no qual a comunidade escolar deve participar efetivamente, debatendo, deliberando e decidindo mudanças para a instituição escolar.
    Não podemos nos esquecer que a gestão é um “processo que não se resume às tomadas de decisão e que é sustentado no diálogo e na alteridade, na participação ativa dos sujeitos do universo escolar, na construção coletiva de regras e procedimentos e na constituição de canais de comunicação, de sorte a ampliar o domínio das informações a todas as pessoas que atuam na/sobre a escola” (SOUZA, A.R, 2009, P.123).
    Vale ressaltar que o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola deve ter a democracia e o diálogo como princípios garantidores da participação legítima da comunidade escolar, de modo a orientar todas as práticas escolares. É necessário destacar a importância do papel do coordenador pedagógico como um ator de escuta ativa, uma vez que é um importante partícipe durante os debates e questões que rondam o local acadêmico. Sem este ouvir não seria possível fazer melhorias que levam em conta a vontade da comunidade escolar.
    Uma citação muito válida feita por Lemme e reproduzida por Carrano que resume muito bem o nosso sentimento é a de que “sem sociedade democrática não há educação democrática” (LEMME apud. CARRANO. 2004,p. 118).

    REFERÊNCIAS:

    ALMEIDA, Laurinda Ramalho de. Um dia na vida de um coordenador pedagógico de escola pública. P. 21-46

    SOUZA, ngelo Ricardo de. Explorando e construindo um conceito de gestão escolar democrática. Belo Horizonte. Educação em Revista, v.25, n.03, dez. 2009, p.123-140.

  4. Ao refletir sobre a educação nacional e a democracia, é fundamental pensar sobre o sentido dessa educação; a disputa está no que concerne aos objetivos e finalidades que se almejam alcançar no âmbito escolar, ou seja, qual o papel da escola na formação dos sujeitos na sociedade, estando presente, consequentemente nessa disputa as ideologias e concepções de diversos grupos sociais, mais presente do que em qualquer outro momento histórico de reforma educacional dos últimos anos. Entretanto, alguns desses valores não deveriam estar presente no contexto político para decisão de um currículo, são valores que não levam em consideração aos direitos humanos, pois excluem discursos que devem estar presentes no cotidiano escolar, na formação de um individuo em todos os seus aspectos, inclusive em sua formação político- social.
    Há no imaginário social uma ideia de que existem corpos superiores e inferiores, vidas de maior e menor valor. Confirmado pelos processos históricos de dizimação de povos, culturas, de tortura e escravidão de pessoas, submissão e menosprezo de um sexo, uma vez já denunciado esses processos, instaurou-se uma consciência de que foram os outros os responsáveis, colocando-se uma máscara e com ela, reproduzindo os mesmo erros, os mesmos crimes, de maneira que a própria vitima não reconhece seu agressor, de maneira que a própria vitima, sem saber, reproduz e reforça a agressão. Por isso a importância das discussões dessas problemáticas e temáticas estarem presentes no espaço escolar, um espaço de formação e não apenas de ensino e de transmissão de conteúdos, como afirma a escola sem partido.
    A existência de uma base nacional comum curricular é importante para estabelecer alguns objetivos de aprendizagem, como um mínimo de conhecimentos e habilidades para serem alcançados em nível nacional como por exemplo, trabalharr as questões étnico-raciais, de gênero e sexualidade da sociedade. Entretanto, a própria base é excludente por ela não corresponder à totalidade do currículo; algumas problemáticas são importantes serem levadas em consideração ao se pensar na BNCC, a primeira é que o Brasil não é uma unidade uniforme em relação ao âmbito cultural e econômico, e a segunda é a tentativa de articulação da ESP à base, como afirma Macedo:
    “Na linha de mecanismos mais sutis de exclusão, a ideia de que uma listagem de objetivos de ensino e aprendizagem definida em nível nacional é fundamental para garantir a qualidade da escola acaba reforçada pela defesa do ESP de que a função da escola é ensinar. (…). Ou seja, a BNCC é apresentada como uma política para todos, e a exclusão que ela potencialmente promove é decorrência da ação individual daqueles que são excluídos.” (MACEDO, 2007)
    O próprio modelo convencional de ensino, a seriação, é de certa forma excludente. Sua avaliação e seleção, dos que serão ou não reprovados, é feita anualmente, sem levar em consideração ao tempo do aluno e o tempo necessário para a aprendizado das habilidades a serem desenvolvidas, que são, certamente, mais longas que alguns meses letivos, como seria por exemplo no ensino em ciclos. Sobre a disposição do ensino em ciclos, Alavarse (2009 ) afirma que nessa forma de organização o transcurso da escolarização não está condicionado por ameaças ou reprovações, mas a noção de que seja “automático”, fluido ou ainda “continuado”, na perspectiva da igualdade de resultados.
    Assim como evidência Paulo Carrano, as diversas manifestações de resistência democrática presentes na sociedade contra esses ataques conservadores são realizadas por parte dos estudantes, evidenciando papel ativo dos(as) alunos(as), crianças e adolescentes, na sociedade como produtores de conhecimento e como aprendizes. Além de atores principais e aliados, juntamente com os meios tecnológicos, para alterar a rota de colisão em que o Brasil se encontra.

    Referências:
    ALAVARSE, Ocimar Munhoz. . A organização do ensino fundamental em ciclos: algumas questões. Revista Brasileira de Educação v. 14 n. 40 jan./abr. 2009. p.37
    MACEDO, Elizabeth. AS DEMANDAS CONSERVADORAS DO MOVIMENTO ESCOLA SEM PARTIDO E A BASE NACIONAL CURRICULAR COMUM. Educ. Soc. [online]. 2017, vol.38, n.139 p. 517

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