Filosofia X Matemática: torturando dados do ENEM – IV

Continuação de post anterior.

Cabem ainda algumas considerações a propósito das atitudes de pelo menos um dos autores do estudo, em seu Blog, o Prof. Adolfo Sachsida. Reagindo à crítica, o autor escreve:

“Deixo aqui um pedido: leia o texto. Antes de criticar responda a seguinte pergunta: Você conhece um único estudo feito para o Brasil sugerindo que a lei 11.684 (que tornou obrigatório o ensino de filosofia e sociologia em todas as séries do ensino médio) melhorou o desempenho escolar dos alunos?

Pelo melhor de meu conhecimento, nosso estudo é o primeiro a analisar o efeito da lei 11.684 sobre o desempenho escolar. Será que não é importante verificar o efeito de leis sobre o desempenho dos estudantes? As pessoas criticam o texto dando a entender que existe ampla evidência empírica de que a lei 11.684 foi benéfica. Isto está incorreto! Até o momento não existe evidência alguma de que tal lei foi positiva para os estudantes.”

Como já foi dito, a justificativa da Filosofia e Sociologia no ensino médio advém do que devemos entender por ser uma boa educação para a juventude. A partir disso, compete ao poder público garantir que este conceito de educação chegue a todos, sanando os problemas que existam e não retrocedendo. Talvez aqui residam as diferenças fundamentais com os autores. Achamos que é lamentável que tenha que ter havido uma lei para que estas disciplinas tenham sido incluídas no ensino médio.

Segundo, a ausência de outros estudos não autoriza o autor a considerar seu estudo inatacável e muito menos valida, automaticamente, seus achados. Para contestar seus críticos o autor, ao invés de raciocinar sobre a crítica, apenas reitera seus achados. Mas, apenas reiterar os achados, nos os torna melhores do que eram. O autor também naturaliza as críticas:

“Existem críticas ao estudo? Claro que existem, todo trabalho científico é sujeito a críticas.”

“Em resumo, se encontramos resultados negativos é porque provavelmente a lei realmente piorou o desempenho escolar dos alunos em matemática, e tal piora foi realmente mais severa para alunos carentes.”

Ou seja, para o autor, ele está certo e ponto, cabe aos incrédulos mostrar que ele está errado. Com isso, o autor procura colocar a responsabilidade da verificação da veracidade de seus pressupostos e das suas conclusões nos próprios críticos:

“Sim, é possível a lei 11.684 ter tido efeitos benéficos que não foram capturados por nosso estudo. Que tal você testar essas hipóteses? Creio que será uma contribuição importante.”

Leia aqui o blog do autor do estudo.

A resposta que o autor dá só é possível porque ele encontrou uma forma de disponibilizar seu texto, através do expediente do “texto para discussão” no IPEA, sem precisar encaminhar a uma revista especializada. Mas é claro que não poderia ter esta atitude se seu texto dependesse da aprovação de revisores de revistas especializadas de renome. Neste caso, se não respondesse adequadamente à crítica, seu texto seria devolvido. Por isso, é fundamental que, antes de mais nada, se verifique se uma pesquisa foi apreciada por revisão de pares.

Os pesquisadores não são obrigados a deixar seus afazeres para conferir pesquisa de outros, principalmente quando há evidências a olho nu de problemas com ela. Ainda me lembro das advertências que li quando estudante de metodologia da pesquisa, feitas por A. J. Bachrach em um pequeno livro chamado “Introdução à pesquisa psicológica” (São Paulo: EPU, 1975):

“… um cientista respeita os fatos e o indivíduo que apresenta um novo ponto de vista está obrigado a demonstrar evidência suficiente a fim de alcançar o reconhecimento de sua teoria. O mundo está repleto de pessoas que têm teorias sobre cada evento imaginável e os cientistas, facilmente, poderiam dispender todo o tempo de que dispõem ouvindo e refutando a maioria deles. É preciso haver alguma defesa contra isso, pois, conforme diz Gardner: “A ciência se reduziria a nada se tivesse que examinar cada nova noção periférica que surgisse. Evidentemente, os cientistas têm tarefas mais importantes. Se alguém anuncia que a lua é feita de queijo verde não se pode esperar que o astrônomo abandone seu telescópio e escreva uma refutação pormenorizada”. (p.20-1)

Logo que iniciamos nossa carreira de pesquisador somos advertidos de que:

“Pesquisa não é estatística. (…) Isto não é, de maneira alguma, para desacreditar a estatística mas, meramente para indicar que a estatística é um instrumento de pesquisa, útil sem a menor dúvida, mas não mais do que uma técnica para tratamento de alguns (não de todos) dados da pesquisa.” (p. 1).

Ainda nos lembra o mesmo autor que “a ciência é uma mescla de dúvida e certeza”. (p. 19)

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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