Filosofia X Matemática: torturando dados do ENEM – III

Continuação de post anterior.

Silveira e outros, comentando a divulgação da pesquisa na imprensa, também apontam limitações em sua análise do estudo:

“Curiosamente, os pesquisadores também registram a ocorrência de aspectos positivos na inclusão daquelas disciplinas [Filosofia e Sociologia], como a melhoria das notas em Português e Ciências Humanas, o que, de resto, também não foi efetivamente demonstrado. Em outras situações, afirmam [em reportagem da Folha], “a medida não afetou, nem para melhor nem para pior, a aprendizagem” de outros componentes curriculares.

Ora, se ocorrem essas oscilações nos resultados (piora em alguns casos, melhora em outros e ausência de alterações em outros tantos), caberia levantar novas hipóteses para explicar a derrubada das notas em Matemática. ”

“A hipótese dos pesquisadores é a de que a inclusão obrigatória de qualquer nova disciplina “se reflete em redução no espaço dedicado ao ensino das demais”, o que provocaria a queda no rendimento dos alunos. Presume-se, portanto, uma relação direta entre carga horária e desempenho dos estudantes, o que, no entanto, não ocorre necessariamente e, se ocorre, precisa ser rigorosamente demonstrado.” (p.2)

Os métodos econométricos aplicados à educação parecem ter alguma dificuldade para adaptar-se à complexidade do fenômeno educacional, sempre multivariado, como apontou o economista Ernesto Faria:

“Em economia e estatística, há ênfase nos métodos e na busca por aperfeiçoá-los e há uma crença de que, se atendidos certos pressupostos, eles dão conta de analisar várias questões. Isso em parte é verdade, mas tem um tipo de conhecimento que exige um aprofundamento para ver se de fato aquele pressuposto é válido. Esse estudo entrou numa complexidade muito grande que talvez os autores desconheçam.”

O problema também é constatado nos Estados Unidos. A mesma colunista da Folha de São Paulo, Erika Fraga, que se encantou com o estudo do IPEA, divulgando-o em artigo da Folha de São Paulo, antes mesmo de sua publicação pelo IPEA, já se encantou também com um autor americano que faz estudos também econométricos e que é citado no próprio estudo do IPEA: Eric Hanushek. Sobre este último já escrevemos em um post de 2017:

“Hanushek é bem conhecido nos meios educacionais norte-americanos pelo seu destacado papel em defesa do complexo industrial de testes. Por lá, já vaticinou milagres como o que agora propõe, estando a serviço da OCDE, analisando os resultados do PISA recém divulgados. Nos Estados Unidos:

“O economista da Hoover Institution, Eric Hanushek, é um dos principais braços direitos dos reformadores empresariais da educação e do complexo industrial de testes. O seu trabalho de forma consistente nos lembra a definição de “economista” como “um especialista que saberá amanhã por que as coisas que ele previu ontem não aconteceram hoje.” Como um exemplo perfeito dessa caracterização, Hanushek dá preferência para usar dados empíricos para especular o seu caminho em direção à aceitação compartilhada de noções preconcebidas de seus patronos plutocráticos através da construção de um castelo de cartas estatístico dentro de um futuro hipotético que podemos apreciar mais pelo seu valor de entretenimento, do que pela veracidade factual.”

“Muitas vezes, Eric Hanushek é visto como pertencente à “Universidade de Stanford,” quando na verdade ele está no Instituto Hoover, uma entidade diferente alojada em Stanford. Em um recente artigo que foi pego e reimpresso como se tivesse sido publicado em um jornal com revisão de pares, Hanushek afirma que “a substituição de 5-8 por cento dos professores com [baixo desempenho] por professores [com desempenho] médio, moveria os EUA para perto do topo dos rankings internacionais de matemática e ciências, [gerando] um valor atual de 100 trilhões de dólares “.”

Porém como aponta Diane Ravitch em uma discussão com Hanushek:

“Quando Rick [Hanushek] diz que “a pesquisa mostra” que a remoção dos [professores] de “5-10 por cento [de desempenho] inferiores” geraria resultados [positivos] dramáticos, ele está se referindo aos seus próprios cálculos (grifos meus LCF), não a qualquer programa real que já tenha sido tentado.”

Ou seja, Hanushek faz hipóteses que não podem ser comprovadas e as trata como verdades que devem orientar políticas públicas hoje. O mesmo pode ser dito de seu novo “milagre”: a elevação do PIB de países como o Brasil em até 7 vezes com a melhoria da educação.”

Dados alguns pressupostos, nem sempre testados, para alguns econometristas parece que o céu é o limite…

Dessa forma, o conjunto de críticas já acumulado, em nossa opinião, indica que o estudo do IPEA, a despeito de todo o esforço dos autores para converter um “estudo natural” em um “experimento controlado”, é inútil para efeito de apoiar a elaboração de políticas públicas, até que se façam estudos específicos melhor controlados.

Isso, se entendermos que vale a pena aprofundar estudos sobre as repercussões desta lei. De fato, a inserção destas disciplinas (Filosofia e Sociologia) justifica-se no ensino médio a partir do entendimento do que deva ser uma boa educação para a juventude. Se ocorrem problemas com a introdução destas, eles devem ser sanados ao nível curricular e não pela eliminação das mesmas, retrocedendo-se a conceitos de educação estreitos.

Como afirmam Silveira e outros:

“Se o propósito da Educação Básica é o preparo para o exercício da cidadania – como estabelecem a Constituição e a legislação educacional –, não é mais coerente assegurar a todos a mesma educação integral, que articule todas as áreas do saber – as Ciências Humanas, as Artes, as Linguagens, as Ciências da Natureza e a Matemática –, não apenas habilitando o jovem ao mundo do trabalho, mas também formando-o para a participação ativa, crítica e criativa na vida política, social, cultural e até afetiva? Não é esse o espírito de uma sociedade verdadeiramente democrática?

Particularmente, penso que há outras leis mais importantes a serem investigadas, por exemplo, os impactos da MP que retira recursos da educação e a própria lei do Plano Nacional de Educação. Órgãos como o IPEA deveriam estar investindo nisso.

Continua no próximo post.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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