Ensinamentos de G. Ioschpe

Postado originalmente na Uol em 8/08/2011

1. Segundo Ioschpe, quem discorda é incompetente: “os incompetentes sempre são os que ficam contrariados” diz ele. Eu sempre ouvi dizer o contrário, ultimamente: “toda unanimidade é burra”. Agora fiquei em dúvida…

2. Para o “especialista em educação” da Fundação Ioschpe, as tabuletas do IDEB nas portas das escolas vão produzir uma grande troca de experiência entre as escolas e não a competição. As escolas boas terão muito a ensinar às ruins.

É uma questão de lógica simples: se uma escola descobriu como é que se faz a escola dar certo, é uma questão de contar para as outras. Afinal, as realidades não são diferentes, aluno é aluno em qualquer lugar, os professores são equivalentes. Basta o contato com a “luz” propagada pelas boas escolas e o milagre do crescimento vai se operar. Como ninguém descobriu isso antes?

Isso me lembra muito dos anos 90 quando se começou a estudar as práticas dos “bons professores”. Se descobríssemos como agem os bons, passaríamos tais práticas para os ruins. Não se tem notícias de sucesso nestas pesquisas. Estas políticas públicas de “uma variável só” estão fadadas ao fracasso.

Perguntinha: e precisa da tabuleta para as escolas trocarem experiências? Então, por que elas estão sendo postas? Para gerar “motivação” para conversar com a outra. Então, é indução de competição sim. Mas a pergunta mais relevante é: se não precisariam de tabuleta para conversar, porque não conversam? O que as impede? A falta da tabuleta? Simplismo puro.

No fundo a argumentação de Ioschpe é reprodução da velha ideia fracassada de que a inovação pode ser transplantada.

3. E, finalmente, a última pérola – contra todos os dados disponíveis sobre “estreitamento curricular” na matriz – para ele, a “escola que ensina bem português e matemática, ensina bem o resto”. O bom de você ser articulista da Veja é que você pode falar o que quiser e não precisa demonstrar nada – é o céu.

A Veja, sucursal do Tea Party americano (grupo radical de neocons) abre espaço para G. Ioschpe escrever suas reflexões. E isso é bom porque Ioshpe não é nem educador profissional (é empresário de fato) e nem um técnico em assuntos educacionais. Os técnicos que defendem estas ideias costumam se limitar a questões técnicas e com isso, os aspectos ideológicos ficam ocultos. Com Ioschpe é diferente. Não sendo um educador profissional e nem técnico só lhe resta reproduzir a requentada receita de ideias americanas para a educação, mas o faz tendo que preencher o vácuo com a ideologia que as cerca. Isso deixa o debate mais rico, pois ele revela a visão de mundo que embasa estas ideias. Como se poderia dizer: “o peixe morre pela boca”.

No entanto, esse senso comum desprovido de qualquer fundamentação não deixa de ser assustador – não porque exista – é antigo -, mas porque é levado a sério por muitos – a ponto, como ele mesmo diz, de se “surpreender com a repercussão de suas palavras”.

Mas enfim, melhor ouvir do que ser surdo.

Leia a matéria de Ioschpe em:

http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a3438307.xml&template=4187.dwt&edition=17692&section=887

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About Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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