Bastos comenta a “Hora do ENEM”

“Tenta-se replicar em nosso país o atual funcionamento das escolas públicas estadunidenses, marcado pela obsessão em aferir o desempenho acadêmico dos alunos por meio da utilização de testes padronizados de larga escala (de aplicação censitária), a ponto de comprometer a quantidade de tempo destinada à própria instrução, principalmente dos alunos desfavorecidos.

A maioria dos pesquisadores sérios (independentes) em educação já advertiram que esses testes não possuem a eficácia, a abrangência e nem a idoneidade necessárias para contemplar em toda sua complexidade as dimensões cognitivas do desenvolvimento intelectual do educando, sem falar nas igualmente relevantes dimensões não-cognitivas.

Vige no senso comum o entendimento de que os testes padronizados de aprendizagem são instrumentos científicos confiáveis, tão objetivos e precisos como um termômetro ou qualquer outro dispositivo utilizado para medições no âmbito da ciência. Nada mais ilusório. Pesquiso em minha Tese de Doutorado, no bojo do assalto à educação pública em escala global, as limitações desse tipo de avaliação discente.

A primeira limitação refere-se à abrangência do conteúdo testado. Tais tipos de testes conseguem atingir apenas uma pequena amostra de um amplo campo cognitivo, ou do conteúdo de uma determinada disciplina, a ser ministrada em uma série escolar específica. Por essa razão, a nota do aluno em um teste dessa espécie não consegue espelhar o seu nível de aprendizagem de todo o conteúdo a ser ministrado. E mais: não conseguem também mensurar as habilidades não cognitivas interpessoais , e nem as individuais, tais como a capacidades de escutar, de refletir, o controle dos impulsos, a paciência, a persistência, a empatia, a curiosidade, a criatividade, o pensamento crítico, a resiliência, a autodisciplina, a desenvoltura, as responsabilidades social e ambiental, a dimensão cívica, e outras de mesma índole e importância social. Ambos os tipos de capacidades não cognitivas, as interpessoais e as individuais, interagem com as habilidades cognitivas para o desenvolvimento integral do ser humano.

Tendo em mente que os pais desejam obter para seus filhos, das escolas, habilidades acadêmicas e conhecimentos básicos, pensamento crítico e resolução de problemas, apreciação das artes e da literatura, preparação para o emprego qualificado, habilidades sociais e ética de trabalho, cidadania e responsabilidade pela comunidade, saúde física e saúde emocional, é importante que eles saibam que, desses oito objetivos, os testes padronizados apenas começam a medir O PRIMEIRO. Todos os demais são completamente inatingíveis por meio dessa patológica obsessão por skinnerianos testes padronizados.

A maioria das pesquisas acadêmicas sobre avaliação discente atesta que a melhor forma de se mensurar a aprendizagem dos alunos se dá pelas atividades que eles desenvolvem individual e coletivamente, em sala de aula e em casa (seja por meio de tarefas escolares ou de seus próprios projetos independentes), tais como artigos relatando alguma pesquisa, ensaios escritos (dissertações ou composições) e outras produções do gênero, e não recorrendo a testes padronizados.

Esse adestramento para testes padronizados leva ao estreitamento curricular, e aí reside A DIFERENÇA ENTRE TREINAR E EDUCAR.

Um dos efeitos mais daninhos da instituição dos testes padronizados de larga escala como ferramenta nuclear das políticas educacionais de viés empresarial tem sido a subtração do tempo anteriormente destinado à instrução com vistas a intensificar a preparação para aqueles testes, os quais se transformaram de meio de aferição (com todas as suas limitações) do conteúdo que deveria ser ministrado em objetivo último de todo o processo de ensino-aprendizagem, seu zênite supremo. Para atingi-lo, não se mede as consequências do estreitamento curricular que tem engendrado um alunado hábil na aplicação de técnicas e “bizus” com vistas a se sair bem naqueles testes, todavia ignorante de conhecimentos básicos essenciais para a conformação de um adulto minimamente instruído para o convívio em sociedade.”

Remo Bastos

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Enem, Estreitamento Curricular, Mercadante no Ministério. Bookmark o link permanente.

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