Bônus: terão mais crises

Postado originalmente na Uol em 25/07/2011

Os reformadores empresariais brasileiros resolveram considerar Nova York a meca das inovações educacionais de sua conveniência. Isso significa que teremos muito mais crises pela frente e não apenas esta produzida pela queda da política de bônus em Nova York.

Atrevo-me a prognosticar que uma das próximas crises será relativa a outra “inovação” muito cultivada pelos reformadores do Brasil, as “charter schools”. São escolas administradas por contrato de gestão. Há tempos os estudos mostram uma grande interrogação sobre esta inovação. No Reino Unido elas são chamadas de “escolas independentes”. Dimenstein, ama. Em Nova York elas não estão bem das pernas e logo teremos barulho…

Mas há muitas outras crises potenciais em curso.

Porque Nova York é tão importante? Alí, Bloomberg o magnata da mídia, prefeito de Nova York, experimenta uma série de medidas que envolvem a transferência da lógica dos negócios para o campo da educação. Mais do que medidas específicas é isto que está em jogo. Esta é a grande tese. Entre outras “inovações” está a transferência para a educação da estrutura autoritária da iniciativa privada, onde o chefe manda o resto obedece.

É assim que ele interfere no Conselho de Educação da cidade de Nova York onde tem maioria. Seus prepostos têm instruções claras de obedecer seus ditames ou sabem que serão trocados. Portanto, tem controle total de todas as decisões do órgão.

John Klein ex-superintendente de Bloomberg na educação em Nova York, hoje demitido e assessorando o Reino Unido, foi responsável pela engenharia que motivou a inflação dos resultados de aprendizagem em Nova York, o que foi confundido com melhoria da qualidade do ensino na cidade. Desmascarado, saiu discretamente. A sua substituta, vinda diretamente das empresas de Bloomberg, da Hearst, não durou três meses e caiu depois que considerou que a melhor maneira de se reduzir a superpopulação das salas de aula nova-iorquinas seria promover o controle de natalidade. Este pessoal é que é modelo para os reformadores brasileiros. E ainda ficam chocados quando algo não dá certo por lá.

Nos últimos meses os reformadores empresariais mudaram seu discurso. Primeiro falavam muito da Finlândia, a estrela do PISA. Depois perceberam que ela era boa – segundo os critérios do PISA – mas não usava suas ideias. Resolveram silenciar sobre seu sucesso. Depois tentaram divulgar Shangai, mas a China é uma incógnita e Shangai outra.

Restou falar do Chile. Mas o Chile não é estrela no PISA – a não ser que comparemos apenas países da América do Sul, e mesmo assim, o Uruguai, que não usa estas ideias, está cabeça a cabeça com o Chile, quando não o supera. Nunca dizem isso, pois não convém. O Chile é o fiel escudeiro das teses dos reformadores na América Latina, desde os tempos de Pinochet.

Ensaiam, agora, introduzir o Reino Unido. Mas ocorre que os conservadores de Tatcher voltaram ao poder apenas recentemente e não há resultados concretos a exibir. Se formos ao PISA, o Reino Unido não é nenhum primor.

Os reformadores empresariais jogam com os dados segundo as conveniências. Quando a pesquisa convém, falam dela. Quando não, silenciam como fazem agora com o estudo da RAND que implodiu a política de bônus em Nova York. Quando um país está em alta e podem atribuir, ainda que arbitrariamente, seu sucesso às suas ideias, o divulgam. Quando não convém, trocam de país.  Quando uma “inovação” não dá certo, dizem que precisa ser melhor pesquisada ou que ela funciona quando associada a outras medidas. Ou seja, quando não pode ser identificada e pesquisada objetivamente. E por aí vai.

Isso não pode ser sério… Abaixo, o editoral da Folha de 25-7-2011 do qual falei ontem.

Bônus na berlinda

Folha de São Paulo, 25/07/2011 – São Paulo SP

Política de remuneração de professores com base no mérito é promissora, mas precisa ser alvo de estudos para poder ser aperfeiçoada

Leia em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2507201101.htm

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Meritocracia, Postagens antigas da UOL e marcado . Guardar link permanente.

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