Paes de Barros e suas estatísticas

Ontem divulgamos a seguinte notícia:

“O secretário de Ações Estratégicas da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros, afirmou que a educação brasileira tem melhorado, mas bem abaixo que seus vizinhos em qualidade. Paes de Barros destacou o papel do professor ao afirmar que a qualidade do profissional não tem relação necessária com titulação ou experiência, “mas é fundamental”. “Do melhor para o pior professor há um aumento de aprendizado de 70% em relação àquele que tem o pior desempenho.”

Não é a primeira vez que as estatísticas da SAE surpreendem. Dito desta forma, e no contexto de Lei de Responsabilidade Educacional, Paes de Barro distorce o que sabemos sobre os fatores associados que afetam a aprendizagem do aluno. E ao distorcê-las coloca a responsabilidade da aprendizagem sobre o professor, de forma exclusiva: seria possível melhorar a aprendizagem em até 70% se o professor fosse melhor. Nada mais falso como mostra a evidência empírica (na versão por extenso e não sintética de Paes de Barros) abaixo.

“Mas no panorama geral, cerca de 60 por cento dos resultados do desempenho é explicado pelo aluno e as características da família (a maioria é imperceptível, mas provavelmente se refere ao rendimento/pobreza). Fatores de escolaridade observáveis e não observáveis explicam cerca de 20 por cento, a maior parte deste (10-15 por cento) se deve a efeitos de professores. O resto da variação (cerca de 20 por cento) é inexplicável (erro). Em outras palavras, embora as estimativas precisas variem, a preponderância da evidência mostra que as diferenças de realização entre os alunos são predominantemente atribuíveis a fatores externos das escolas e salas de aula (ver Hanushek et al 1998;. Rockoff 2003;. Goldhaber et al 1999; Rowan et al. 2002; Nye et al 2004).

Agora, para ficar claro: isso não significa que os professores não são realmente importantes, nem que o aumento da qualidade do professor só pode gerar melhorias pequenas.”

Leia matéria completa aqui.

É isto que se pode afirmar, de forma contextualizada.

É uma delícia o mundo da política. Enquanto lá as pessoas podem fazer afirmações sem ter a responsabilidade de demonstrá-las, na ciência somos cobrados por ter evidência empírica para cada palavra que dizemos – mesmo que isso nem sempre seja possível.

Que tal uma Lei de Responsabilidade Política de forma a manter os políticos responsáveis pelo que falam e fazem.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Responsabilização/accountability, Segregação/exclusão e marcado . Guardar link permanente.

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