Irresponsabilidades

Postado originalmente na Uol em 14/06/2011

Se um determinado pesquisador disser que possui um método para curar uma doença grave, os médicos não sairão usando este novo método, mas sim indagarão do proponente qual foi a metodologia utilizada para constatar o “milagre”.

Em educação não. Se um economista disser que “troca de conhecimento, reforço escolar, mais aulas e avaliações constantes melhoram os resultados”, jornais como a Folha de São Paulo ecoam e divulgam como verdades em suas páginas. Secretários de Educação aplicarão em suas redes, mesmo que seja para constatar que não deu resultado, fazendo experimentos sociais irresponsáveis com redes inteiras. Segundo Fernando Veloso, por exemplo, uma boa gestão deve garantir a todos uma boa educação independentemente do nível sócio-econômico. É como se o sistema social pudesse produzir a pobreza, cabendo a escola “limpá-la”, bastando para tal ter uma boa gestão.

É a ótica dos “homens de negócio”. É a mesma lenga-lenga americana que Diane Ravitch comentou em postagem que traduzi aqui neste blog. Como ela bem exemplifica, esta posição acha que se um cidadão bem treinado pode correr 100 metros em 9 segundos, então todos os demais deveriam poder fazê-lo. Num país que até conteiner vira sala de aula, esta ideologia contribui para retirar a responsabilidade dos governos e depositá-la exclusivamente nas escolas. Sabemos a quem atende tais argumentos. Focando-se na escola, cria-se mercado para a indústria educacional; focando-se na responsabilidade dos governos, fortalece-se a escola como tarefa pública, do Estado.

As páginas deste jornal estão sempre abertas aos economistas e empresários amadores que resolvem aparecer como “especialistas em educação”. É previsível. São os negócios. Não se trata de educação, mas de “business”.

Fernando Veloso, o mais novo convertido a estas baboseiras educacionais, vive escrevendo, como ontem na Folha (ver abaixo). Transita pelas experiências, cita “estudos em outros países”, mas nunca revela o santo. O milagre é sempre contado sem o santo. Nem uma dica sobre em qual relatório técnico e com qual metodologia o milagre foi constatado. Nem uma dica sobre se o relatório técnico sofreu revisão de pares ou é produto do dinheiro que alguma fundação interessada na ideia, argumentando em causa própria, resolveu converter em uma publicação de difusão de sua$ idéia$ que a mídia acolhe como verdade.

Aqui neste blog está cheio de relatórios que mostram o contrário das impressões amadoras de Fernando Veloso e aqui, o santo está sempre presente para que possa ser conferido.

A Folha de São Paulo deveria ter vergonha deste procedimento descuidado e amador.

Folha de São Paulo, 13/06/2011 – São Paulo SP

Políticas para as piores escolas

Troca de conhecimentos, reforço escolar, mais aulas e avaliações constantes melhoram os resultados

Por FERNANDO VELOSO

Continue lendo em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saber/sb1306201103.htm

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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