Uma paulada na teoria da meritocracia

Postado originalmente na Uol em 14/06/2011

A National Academy of Sciences americana divulgou estudo que revisou as pesquisas com uso de incentivos baseados em testes (p. ex. bônus).  É uma verdadeira “paulada” na teoria da  accountability e da meritocracia dos reformadores empresariais.

Mas os nossos reformadores empresariais seguem impassíveis – mesmo ante as evidências empíricas agora reunidas neste relatório. Curiosamente, dizem basear-se em “fatos científicos”, ao defenderem suas posições ideológicas.

Link para o estudo completo:  Incentives and Test-Based Accountability in Education

http://www.nap.edu/catalog.php?record_id=12521

Os reformadores poderão continuar a vender e recomendar testes de alto impacto nas redes porque estas ações são coerentes com sua ideologia de controle, na sua “fé” nestas formas de controle, mas não podem dizer que tais sistemas estão prontos para uso em redes (são assunto de pesquisa e não para experimentos sociais irresponsáveis com redes inteiras) ou que são eficientes na determinação da melhoria da qualidade de ensino. Não, depois deste relatório.

Abaixo seguem as conclusões e recomendações da Academia Nacional de Ciências americana.

“CONCLUSÃO 1: programas de incentivo baseados em testes, como concebido e implementado nos programas que foram cuidadosamente aqui estudados, não têm aumentado o desempenho dos estudantes o suficiente para que os Estados Unidos atinjam os níveis de realização mais altos de outros países. Quando avaliados usando  testes de baixo impacto pertinentes, que são menos susceptíveis de serem inflados pelos próprios incentivos, os efeitos globais sobre o desempenho tendem a ser pequenos e são efetivamente zero para um certo número de programas. Mesmo quando avaliados usando testes ligados a incentivos, uma série de programas mostra apenas efeitos pequenos. Programas em países estrangeiros que mostram maiores efeitos não são claramente aplicáveis ao contexto dos EUA. Incentivos ao nível da escola como os da NCLB – No Child Left Behind – produzem algumas das maiores estimativas de efeitos no desempenho, com tamanhos de efeitos em torno de 0,08 desvios-padrão, mas os efeitos medidos até o momento tendem a ser concentrados no nível elementar de matemática e os efeitos são pequenos em comparação com as melhorias que a nação espera alcançar.

CONCLUSÃO 2: A evidência que revisamos sugere que o exame de saída dos programas de ensino médio, como implementado atualmente nos Estados Unidos, diminuem a taxa de conclusão do ensino secundário, sem um aumento no desempenho. A melhor estimativa disponível sugere uma diminuição de 2 pontos percentuais em média sobre a população. Em contrapartida, vários experimentos que fornecem incentivos para a graduação sob a forma de recompensa, embora mantendo o padrão de graduação constante, sugerem que tais incentivos poderiam ser usados para aumentar a conclusão do ensino médio.

RECOMENDAÇÕES PARA A POLÍTICA E PESQUISA

Os modestos e variáveis benefícios mostrados pelos programas de incentivos baseados em  testes até esta data, sugerem que tais programas devem ser usados com cuidado e que pesquisas mais substanciais são necessárias para entender como eles podem ser usados com sucesso.

RECOMENDAÇÃO 1: Apesar de usá-los por várias décadas, os formuladores de políticas e educadores ainda não sabem como usar consistentemente incentivos baseados em testes para gerar efeitos positivos no desempenho e melhorar a educação. Os formuladores de políticas devem apoiar o desenvolvimento e a avaliação de novos modelos promissores que utilizem os incentivos baseados em testes em forma mais sofisticada como um aspecto de um rico processo de responsabilização e melhoria. No entanto, o modesto sucesso de programas de incentivo até esta data significa que a utilização de todos estes programas de incentivos baseados em testes devem ser cuidadosamente estudados para ajudar a determinar quais formas de incentivos são bem-sucedidas na educação e quais não são. A experimentação continuada com incentivos baseados em testes não deveria deslocar o investimento no desenvolvimento de outros aspectos do sistema de ensino que são importantes complementos aos próprios incentivos e que provavelmente possam ser necessários para que os incentivos possam ser eficazes na melhoria da educação.

RECOMENDAÇÃO 2: Os formuladores de políticas e pesquisadores devem elaborar e avaliar novos programas de incentivo baseados em testes de forma que forneçam informações sobre abordagens alternativas para os incentivos e responsabilização. Isso deve incluir a exploração dos efeitos das principais características sugeridas pela pesquisa básica como: quem é o alvo dos incentivos; que medidas de desempenho são utilizadas; quais as consequências que estão ligadas às medidas de desempenho e como elas são freqüentemente usadas; que suportes adicionais e opções são fornecidas às escolas, professores e alunos em seus esforços para melhorar; e como os incentivos são elaboradas e comunicados. Escolhas entre opções para algumas ou todas essas características tendem a ser crítico na determinação de quais – se algum – dos programas de incentivo são bem sucedidos.

RECOMENDAÇÃO 3: A pesquisa sobre os efeitos de programas de incentivo deve documentar a estrutura de cada programa e deve avaliar uma ampla gama de resultados. Para evitar ter seus resultados determinados por pontuações infladas como ocorre nos testes de alto impacto associados a incentivos, os pesquisadores devem utilizar testes de baixo impacto que não imitem os testes de alto impacto para avaliar como os incentivos baseados em teste afetam o desempenho. Outros resultados, tais como o desempenho posterior na educação ou no trabalho e as disposições relacionadas à educação, também são importantes para o estudo. Para ajudar a explicar porque incentivos baseados em testes, por vezes, produzem efeitos negativos no desempenho, os pesquisadores devem coletar dados sobre as mudanças na prática educativa das pessoas que são afetadas por incentivos.”

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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