Nalini: “irreverência” baseada em evidência

A Folha de São Paulo critica, hoje, 11-03-18, o Secretário da Educação do Estado de São Paulo por uma entrevista dada a Paulo Saldaña, também da Folha, na qual ele faz críticas à política educacional de São Paulo. Diz a Folha, em sua resposta ao Secretário que ele:

“Critica o sistema de incentivos para professores na forma de bônus, em coro com teses rasteiras do sindicalismo; rejeita, também, o sistema de avaliação de alunos.”

Leia o editorial aqui.

Nalini cometeu a “irreverência” de identificar pontos equivocados da política educacional após lidar com ela por apenas dois anos. A Folha diz que o Secretário usa “teses rasteiras do sindicalismo” para criticar a política educacional. Ora, a Folha, ao criticar o Secretário, usa as mesmas teses rasteiras do anti-sindicalismo para defender a política atual. Não eleva o debate. O Secretário expressa o que ouve e vê na Secretaria de Educação. Tem a prática a seu favor. E a Folha? Baseado em que critica o Secretário? Onde está a argumentação científica no editorial, a mesma que a Folha exige do Secretário? Não há. As razões da Folha para criticar o Secretário advêm do fato de que ela está alinhada com a defesa daquela política, juntamente com empresários que pululam ao redor da Secretaria do Estado de São Paulo. Mas não têm nada de “científico”. A “irreverência” do Secretário tem pelo menos a evidência empírica a seu favor.

Mas não era de se esperar outra coisa. Reformadores empresariais nunca cedem. Lidam com argumentação ideológica, como um ato de fé. Se algo não dá certo, é porque suas receitas não foram bem aplicadas. Elas nunca estão erradas. Apesar de suas ideias serem contrariadas pela prática das escolas diariamente, sempre as defenderão. Com a Folha não se deve eNovo livro Koretzsperar nada diferente. Bônus é uma ideia, como diz Ravitch, que nunca funciona e nunca morre. Está ancorada em ideologia e não em fatos.

A evidência empírica está com Nalini. Não é para fazer política pública com evidência? Os donos da Folha deveriam ler Testing Charade de um autor que não é anti-avaliação e nem presidente de Sindicato. Revela a experiência americana, que a Folha tanto gosta, no uso da mesma política educacional que o Estado de São Paulo aplicou até agora: um desastre lá, que explica o desastre de cá, porque foi copiado de lá. Ao invés de se comportar como uma criança que perdeu o doce, deveria estudar e não repetir argumentação falaciosa baseada em crenças.

O Secretário expressa certamente o que ouve a diário dos profissionais da educação do Estado de São Paulo que vivem o desastre desta política diariamente nas escolas. A entrevista é corajosa e honesta. A fritura que a Folha quer fazer do Secretário é meramente ideológica e esperada. Faz o papel que a mídia tem cumprido a diário neste país: desinformar.

Vale lembrar que o ex-Secretário Herman que também tinha suas reservas com esta política, passou por situações semelhantes. A política educacional de SP é dogma que não pode ser criticado.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Nalini: “irreverência” baseada em evidência

  1. Gertaldo Antonio Betini disse:

    Excelente, Luiz Carlos. O emprego da dialética proporciona um aprofundamento no entendimento das análises. Sua maturidade intelectual é revelada na profundidade de seus textos.

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