Reformadores em ação na mídia

Postado originalmente na Uol em 12/07/2011

A Folha de São Paulo de 11-07-2011 é dedicada, no assunto educação, a fortalecer as ideias dos reformadores empresariais.

Logo na página de Tendências e Debates abre-se espaço para Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco e que chefiou a divisão de desenvolvimento social do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Sua conclusão: “Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser um desafio estratégico para a sociedade brasileira. É preciso que tenhamos consciência de que, neste estágio de desenvolvimento do país, o médio é fundamental.”

Cara Wanda, o médio sempre foi fundamental. Vocês não tinham percebido, porque vocês só olham para a educação na dependência do “estágio de desenvolvimento do país”, ou seja, na dependência de quanto a falta de educação incomoda o capital, o lucro dos Bancos.

Em seguida, a Folha estreia sua inserção em bases de dados do INEP. É uma tendência da mídia nos Estados Unidos, processar bases de dados dos governos e tirar suas próprias conclusões – não raramente, orientadas por seus vieses ideológicos. A folha.com não foge disso.

Dentro desta matéria, primeiro alguns dados – até úteis – e outros que são rapidamente inseridos na maquiagem ideológica:

1. Turma privada é mais cheia que pública. No interior da matéria, os especialistas destroem a ideia de que turma maior é melhor, mas a imagem que a chamada do editor passa é que se a escola privada é melhor e tem turmas maiores, então ela é a) boa mesmo; b) não é motivo para as escolas públicas não ensinarem, mesmo que suas turmas sejam grandes. Não importa que o nível socio-econômico da turma seja alto ou baixo, se tem mais miseráveis ou não, se tem mais alunos com necessidades especiais ou não. É uma questão numérica.

2. Logo abaixo da matéria, o complemento. Abre-se espaço para o mais novo representante dos reformadores empresariais, Fernando Veloso – que já contestei aqui inúmeras vezes por sua fragilidade no conhecimento das receitas que sugere – para que ele possa dar a solução (que a Folha espera): louvar as escolas charters americanas – que já questionei aqui com dados da própria pesquisa americana. Mas Fernando vai mais longe agora. Ele quer que o MEC faça no Brasil o que o Departamento de Educação faz no governo americano: “financiar a realização e a avaliação de experiências inovadoras e fornecer recursos para a criação de bases de dados”. (…) Com se já não bastasse o INEP. “A construção de um sistema que estimule a adoção e a avaliação de iniciativas inovadoras tem grande potencial para elevar a qualidade da educação no Brasil.” Esta conversa de “inovação” também pode ser encontrada no texto da reforma do Ministério da Educação – já comentada aqui – e que foi publicada no Diário Oficial de 17 de maio último. Não há, de fato, nenhuma evidência conclusiva sobre se a qualidade das escolas charters são melhores que as escolas públicas americanas – apesar da vontade de Veloso.

3. Finalmente, abre-se espaço para José Francisco Soares, da UFMG e da empresa de avaliação educacional Avalia, refletir sobre a importância da “rotina pedagógica da escola”. O nome é bem sugestivo. Para os reformadores empresariais, a escola é como uma empresa. Ela tem uma rotina, uma espécie de linha de produção. Se você consegue colocar uma série de reloginhos que digam como está esta rotina, você consegue melhorar a escola. Esta é a lógica da padronização. Os reformadores empresariais partem do suposto de que há uma rotina objetiva que pode ser vista e medida no interior da escola e que tal rotina é passível de ser padronizada e portanto, controlada. Eles não conhecem como funciona uma escola fundamental, pois a última vez que estiveram lá foi quando estudaram nela, ou no máximo quando levaram seus filhos até a porta.

As vozes discordantes são localizadas no interior das matérias, enquanto a linha geral é garantida por reformadores empresariais escolhidos a dedo.

Como podemos ver, enquanto a CNTE, a ANPED, ANPAE, CEDES, ANFOPE gastam seu tempo tentando melhorar o Exame Nacional dos Docentes no INEP, a ser feito em 2012, o pessoal não perde tempo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Assuntos gerais, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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