Exame: MEC acha que pode suspender as leis de mercado

Postado originalmente na Uol em 22/10/2010

Durante a 33a. Reunião Anual da Anped participei de um debate sobre a questão do Exame Nacional de Docentes. Estavam presentes o Representante do Ministro da Educação, o Presidente da CNTE, a Presidenta da ANPEd e eu.

O Representante do Ministro desfilou as realizações do governo no campo da educação e nada falou sobre o Exame Nacional. O Presidente da CNTE seguiu pelo mesmo caminho, confirmando o que temos dito neste Blog sobre o seu comportamento: linha auxiliar do governo na implantação do Exame.

Compreende-se que o Representante do Ministro não tocasse no Exame Nacional de Docentes pois trata-se de tema polêmico. Mas que a CNTE não o mencionasse isso é outra coisa. O exame é a maior agressão que um governo já fez contra as Instituições Formadoras de Profissionais da Educação no Brasil e contra os próprios profissionais que a CNTE diz representar. Interfere, via exame, com os currículos destas Instituições, estreitando-os. Como estabelece um padrão de conhecimentos para participar do Exame, termina criando escala que atrairá as grandes corporações de preparação para Exames.

Além disso, está claro que no dia seguinte ao Exame, os dados serão processados com a intenção de se localizar as melhores e as piores escolas formadoras de professores, como ocorre atualmente com o ENEM.

Em entrevista que divulguei ontem neste Blog o Representante do Ministro argumenta que o Governo tem mecanismos para evitar a investiga da área dos negócios. Cita como exemplo o Programa do Livro Didático. Mas a comparação não procede. A menos que o Ministro tenha condições de sustar as regras de funcionamento do sistema capitalista. No caso do Livro Didático o Governo é o definidor dos livros, define as regras. No caso do Exame, não define produtos e nem compra nada, ou seja, não tem poderes para interferir em uma empresa que produza kits de preparação para o Exame. Não só o currículo das instituições formadoras será afetado pelos Kits como estes serão os preparadores dos professores de fato, segundo regras estreitas. Ou não é assim que ocorre com o ENEM?

Durante os debates o Governo afirmou que produzirá um Exame que não tem como referência nem o conteúdo do Ensino Médio Magistério e nem o da Pedagogia, mas sim, a escola. Ora, aí está o viés pragmatista que já se anuncia na elaboração do exame. Um fenômeno não se explica em si mesmo, sem categorias e conceitos de análise. Estes estão nas ciências que estudam o fenômeno. O Magistério trata estes conteúdos com uma profundidade e a Pedagogia com outra. Com qual ficará o INEP? Pelo que diz o Governo, com nenhuma. Portanto, somente incluirá aquilo que é da Escola – sua prática. Daí o pragmatismo que deverá caracterizar o Exame.

Os demais argumentos, já os utilizei neste Blog em ocasiões anteriores.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Fernando Haddad no Ministério, Postagens antigas da UOL e marcado . Guardar link permanente.

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