Tecnicismo: ele está de volta

Ele voltou sob a batuta da reforma empresarial da educação. De fato, nunca se foi; mas da mesma forma que a ideia de termos um golpe político era distante, o tecnicismo também parecia algo já recusado e distante. Não era bem assim.

Esta reconstrução do tecnicismo está sendo trabalhada há algum tempo no plano internacional e nacional. E é até explicável. Se há retrocesso geral no mundo, no Brasil, sob o impacto do golpe, nada a estranhar que também a educação, um fenômeno social, acompanhe este movimento e acelere o seu retorno.

Não é automático, claro. Há resistência etc. Mas o fato de que terá resistência só atesta que ele voltou, ou não precisaríamos resistir a ele. Portanto é bom pararmos de acreditar num “ente superior” que costumamos chamar de “resistência” e por o pé na estrada real da resistência e isso supõe, saber ao que se resiste e como ele se caracteriza.

Ele voltou completamente reformulado, ainda que conceitualmente seja o mesmo. Podemos chamá-lo de neotecnicismo. Em 1992, de fato, apresentei um trabalho em uma das nossas Conferências Brasileiras de Educação onde indagava: “conseguiremos escapar ao neotecnicismo?” Era o tempo da primeira onda neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.  A questão do tecnismo é hoje, envoltos que estamos na segunda onda neoliberal de um governo golpista, mais atual ainda e, se considerarmos a nova base tecnológica que pode ser mobilizada para apoiar este retorno, isso poderá fazer com que aquela nascente “tecnologia da educação” dos anos 70 pareça uma precária pré-história do neotecnicismo.

No início dos anos 80, Saviani (em Escola e Democracia: 1983) definiu o tecnicismo como:

“A partir do pressuposto da neutralidade científica e inspirado nos princípios da racionalidade, eficiência e produtividade, […] advoga a reordenação do processo educativo de maneira a torná-lo objetivo e operacional.” (…) “… na pedagogia tecnicista (…) é o processo que define o que professores e alunos devem fazer, e assim também quando e como o farão”.

Conceitualmente, não precisamos mexer nesta definição. Destaque-se o “pressuposto da neutralidade científica”. A definição continua válida para caracterizar o núcleo do neotecnicismo. Mas se conceitualmente pouco mudou, do ponto de vista de sua constituição, vale dizer, do ponto de vista das categorias que o descrevem no presente momento, há alterações substanciais.

Ele volta fazendo uso de novos (alguns nem tão novos) desenvolvimentos científicos da psicologia, neurociência, administração, informação, entre outras, reinserido em uma nova proposta de política educacional que potencializa seu poder de penetração no sistema público de ensino pela via da accountability meritocrática e da privatização (tanto do processo educativo como da gestão das escolas), e com nova base tecnológica que permite o desenvolvimento de formas de interatividade do aluno com o conteúdo escolar jamais pensadas antes, redefinindo – como era seu desejo inicial inacabado, pois o nível tecnológico nos anos 70 não ajudou neste objetivo – o próprio trabalho do professor e do aluno, tornando-o dependente de um processo tecnológico que comanda,  por si, o quê, quando e como se ensina. Alie-se a isto, o fato dele vir associado à mobilização do setor empresarial com amparo da mídia e re-inserção na academia, constituindo um bloco de alianças o qual ele utiliza para pressionar as políticas públicas na direção de sua própria hegemonização como teoria pedagógica, executada em um espaço mercantilizado que atende tanto interesses ideológicos do grande capital internacional (OCDE), como aos interesses práticos de faturamento das indústrias e consultorias educacionais locais ou não.

Esta é a nova face do tecnicismo. Cada um destes componentes do neotecnicismo precisará ser analisado e estudado em profundidade para uma devida caracterização desta modernização conservadora do tecnicismo.

Mas Saviani diz mais sobre o tecnicismo:

“Compreende-se, então, que para a pedagogia tecnicista (…) marginalizado será o incompetente (no sentido técnico da palavra), isto é, o ineficiente e improdutivo. A educação estará contribuindo para superar o problema da marginalidade na medida em que formar indivíduos eficientes, portanto, capazes de dar sua parcela de contribuição para o aumento da produtividade da sociedade. Assim, ela estará cumprindo sua função de equalização social “.

Não há o que mexer nesta conclusão. Basta atualizar o conteúdo das categorias para que expressem o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, marcado pelo revolucionamento dos processos produtivos e pelo advento do desemprego estrutural, os quais demandam igual revolucionamento nas formas de preparação de uma juventude trabalhadora mais polivalente e até mesmo da juventude desempregada estacionada no exército de reserva, mas que devem estar disponíveis para serem lançadas, juntamente com os fluxos de capital que transitam de um ramo para outro da produção, como previu Marx em “Maquinaria e grande capital”, em sua obra “O Capital”.

Marx também adverte para a contradição que se estabelecerá entre explorar, (segundo as novas bases e exigências do novo padrão de automação da organização do trabalho), e ter que “educar” esta nova força de trabalho (correndo riscos de que este upgrade educativo leve a uma maior conscientização das condições de exploração), o que neste momento em que vivemos aflora mais fortemente, exigindo das forças conservadoras/liberais um maior controle político-ideológico da escola atual (tanto da forma de gestão como do conteúdo do processo educativo) impondo uma pseudo-neutralidade no âmbito escolar.

É neste quadro que vem renascendo com força o tecnicismo. A educação é atingida pela privatização em todos os níveis (no processo de ensino e na gestão da escola), por um lado, e de outro, por uma onda conservadora que se expressa muito bem no projeto de retirada de autonomia do professor como o “escola sem partido”. São faces de um mesmo processo.

A privatização coloca a gestão da escola sob controle direto de empresas, vigiando a gestão, o “escola sem partido” transforma cada personagem da escola em um soldado pronto para denunciar qualquer um que tente promover maior conscientização. Aliado a isto, a introdução de sistemas de ensino pre-fabricados isola e retira a centralidade do professor, colocando alunos e professores sob controle de processos de ensino on line previamente “neutralizados” e aprovados. Com isso, tenta-se que o espaço da sala de aula seja padronizado nos termos da política vigente, sem oponentes. Nem mesmo a sala de aula, tida como um espaço do professor, pode escapar, procurando pôr fim à ideia de que “na sala de aula é o professor que faz o que ele entende que deve fazer, independentemente da política oficial”. No limite, onde estas ações de controle não conseguem chegar, o “escola sem partido” estimulará o estudante mais conservador a denunciar o professor.

Trata-se de forçar a “neutralização” da forma de organização escolar (privatização) e a “neutralidade” de seus atores (“escola sem partido”) para que o conteúdo do projeto de upgrade da força de trabalho se desenvolva e transcorra em ambiente politicamente controlado, abrindo espaço privilegiado para o projeto político conservador/liberal, sem concorrentes. Como vivemos sob o projeto político de interesse do capital e o vivenciamos em todos os aspectos da vida, ele é “naturalmente” assimilado nestes espaços e levado para dentro das escolas, sendo também vivenciado na própria organização política e pedagógica da escola (esta mesma forma e conteúdo escolar que os estudantes mais organizados rejeitam hoje ao ocupar as escolas).

Tudo que se pretende é tentar abafar as contradições evitando que tais concepções políticas conservadoras/liberais, assumidas em outros ambientes sociais e exercitadas pela forma e conteúdo da escola atual, sejam “perturbadas” por alguma ação educativa “esquerdizante” (uma outra visão de mundo) e permitir que, na ausência desta oposição, aquelas concepções sejam “naturalmente” reforçadas pela vivência da subordinação e exclusão, embutidas na organização escolar (a “Ordem e Progresso” do golpe). A disputa de agendas educacionais que estamos há algum tempo vivenciando, é também uma disputa pelo “chão da escola”.

São estes processos que precisamos entender e combater. Eles caracterizam um novo tecnicismo, revigorado tecnologicamente e violento politicamente, um neotecnicismo. A nossa capacidade de resistência depende também do entendimento destas novas características. Não se combate o neotecnicismo de hoje, como se combateu o tecnicismo de ontem.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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