Quando o mensageiro fala mais do que deve

Tenho ouvido com frequência a metáfora da carta e do mensageiro quando se trata de apoiar o uso de testes nas políticas públicas. Várias vezes argumenta-se que os testes são apenas o mensageiro de uma situação (boa ou má) em que a escola se encontra. Dessa forma, quem pensa assim, argumenta que não devemos condenar os testes pois eles seriam mensageiros de que algo não vai bem na escola.

Aos olhos do senso comum, faz sentido. O que a metáfora esconde é que o mensageiro, os resultados dos testes, não fala somente o que alguns querem ouvir e ver. Fala mais. Fala também das políticas educacionais nas quais os testes estão inseridos.

Neste sentido, de fato, não devemos condenar os testes. E não condenamos é bom que se diga. Eles podem ter lugar nas políticas públicas, não porém no interior de políticas de testes de alto impacto que procuram envergonhar as escolas e seus professores com ranqueamentos seguidos de bônus, por exemplo. De fato, os testes de larga escala devem avaliar prioritariamente as política públicas e não uma escola em si. Com este sentido, os testes são bem vindos.

Além disso, os testes são uma forma inadequada, hoje, nas políticas atuais, de impor o conceito de que qualidade de educação se reduz a ter uma média mais alta na escola. Com isso, acreditamos que se a média aumenta meio ponto, então a educação melhorou. Não necessariamente. Até porque os testes não têm a exatidão que os leigos acreditam que ele tenha.

A questão é o que entendemos por boa educação. Isso vai muito além do que os testes podem medir.

Portanto, o mensageiro (resultado do teste) não apenas diz que uma situação indevida pode estar ocorrendo nas escolas – quando são maus tais resultados – e nem que a escola vai bem – quando são bons os resultados. Eles são portadores da notícia de que as políticas públicas adotadas e que estão estipulando os usos que se faz dos resultados dos testes, são inadequados. Notoriamente a política educacional no Estado de São Paulo, uma política que tem favorecido a meritocracia e a bonificação ao longo de uma década, associada a testes, contra toda a evidência empírica disponível cientificamente.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Quando o mensageiro fala mais do que deve

  1. Arnaldo Lopes disse:

    O uso que se faz dos testes é inadequado mesmo. O nosso Imperador, digo, governador Alckmin deveria, justamente pelos resultados dos testes, abolir a política de bonificação, mudar a estrutura da formação docente, alterar a jornada do professor (permanência integral em uma escola)… e mais tantas mudanças. Várias evidencias indicam esse caminho. E o teste externo é uma delas.

    E é obvio que ele mede apenas uma parcela da função da escola (por isso não deve ser utilizado como a única regra para qualquer tomada de decisão).

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