Carta da ANPED sobre avaliação de habilidades socioemocionais

 CARTA ABERTA À COMUNIDADE ACADÊMICA E AOS REPRESENTANTES DE SECRETARIAS E ÓRGÃO DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SOBRE AVALIAÇÃO EM LARGA ESCALA DE HABILIDADES NÃO COGNITIVAS DE CRIANÇAS E JOVENS

A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) vem manifestar seu repúdio à adoção e a institucionalização de uma avaliação em larga escala de habilidades não cognitivas de crianças e jovens, no âmbito de iniciativas de avaliação em larga escala em curso no Brasil.

Trata-se de rejeitar a adoção, como política pública, do programa de medição de competências socioemocionais, denominado SENNA (Social and Emotional or Non- cognitive Nationwide Assessment), produto de iniciativa do Instituto Ayrton Senna em parceria com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Essa perspectiva está colocada na medida em que se tem a presença do Ministério da Educação (MEC) apoiando a realização de seminários em que tal proposta foi divulgada, além de parceria firmada entre Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão ligado ao MEC, e o Instituto Ayrton Senna (IAS) para a criação do Programa de Formação de Pesquisadores e Professores no Campo das Competências Socioemocionais.

A consideração de que o desenvolvimento de crianças e jovens extrapola a dimensão cognitiva e o reconhecimento de que no contexto escolar são trabalhadas atitudes e valores – fato esse reconhecido e trabalhado pelos profissionais da educação há muito tempo nos currículos e nas escolas – não autorizam a proposição de tomar aspectos relativos ao desenvolvimento socioemocional dos estudantes como objeto de avaliação em larga escala.

As ações e estratégias que balizam as políticas e, consequentemente os exames, não são neutras nem destituídas de valores, mas correspondem e apontam para um ideal de sociedade que precisa ser democraticamente debatido. As questões da avaliação são questões de currículo e, portanto, uma arena política, ideológica, cultural e de poder.

No campo da psicologia, características socioemocionais costumam ser tratadas como “traços de personalidade” ou “traços de caráter”. Na área da educação tem-se observado certa variação terminológica, na medida em que há estudos em que é adotada a expressão “características socioemocionais” e outros, que ao se apropriarem de expressões mais recorrentemente empregadas pelos economistas, tais como “competências socioemocionais” ou “habilidades socioemocionais” têm preferido o emprego de “habilidades não cognitivas”. Essas distinções são necessárias para situar que campo de conhecimento está balizando a proposição de testes.

Outra consideração importante diz respeito ao histórico da ANPEd na luta pela educação pública e democrática. E, nesse sentido, questiona-se o que significa uma instituição privada definir o “conteúdo da educação” por meio de avaliações. No Brasil, por um lado, avançamos no acesso à educação, mas, por outro, há um avanço da privatização do público e da naturalização das perdas da democratização da educação.

Com base nessas considerações pondera-se que:

– as dimensões política e ideológica são constitutivas da avaliação, ou seja, é uma atividade que traz inerente às suas finalidades e procedimentos a afirmação de valores, que representam projetos educacionais. Que valores são afirmados por meio dessas avaliações? A quem cabe defini-los?

– o estabelecimento de uma hierarquia valorativa, pretensamente universal e imparcial, expressa a desconsideração da desigualdade social econômica e a diversidade cultural da sociedade brasileira, bem como as diferenças entre os sujeitos, o que possivelmente representa a naturalização de valores oriundos das classes mais favorecidas. O que se busca é a padronização desses valores?

– as avaliações em larga escala vêm se constituindo como uma das principais estratégias de consecução de uma lógica de gestão da educação que, em nome da promoção do desenvolvimento dos alunos, recorre à comparação de seus níveis de proficiência e à sua classificação e premiação. O que poderá resultar da avaliação de habilidades socioemocionais: premiação daqueles alunos que se conformarem aos valores estabelecidos? Segregação e discriminação daqueles que não apresentam as habilidades tomadas como as necessárias para uma sociedade “melhor”? Quem decide sobre qual é a “melhor sociedade” são os elaboradores dos itens dos testes?

– é conhecido o potencial que avaliações externas à escola, em larga escala, de condicionarem e conformarem o currículo O que teremos agora: a intensificação e ampliação desse controle e conformação, abarcando um quadro disciplinar de competências socioemocionais tidas como desejáveis?

– corre-se o risco de rotular e estigmatizar crianças e jovens por não se saírem bem nos testes socioemocionais, culpabilizando-os pelo fracasso, abstraindo fatores contextuais, sejam suas condições de escolarização, seja seu capital econômico, social. Em consequência, não se estaria afirmando preconceitos a respeito de determinados estudantes?

– O desenvolvimento socioemocional ou socioafetivo é, assim como o cognitivo, um processo de construção do sujeito, intermediado por questões sociais, culturais, ambientais que não pode ser medido por meio de itens de testes de larga. O que se intenta é torná-lo mensurável e quantificável para apoiar classificações?

Em conclusão, a Anped considera inadequada e inaceitável a adoção de uma avaliação em larga escala de habilidades socioemocionais de crianças e jovens, no âmbito de iniciativas de avaliação em larga escala da Educação Básica, uma vez que poderá vir a reforçar a seletividade e exclusão, escolar e social.

Rio de Janeiro, 06 de novembro de 2014.

Maria Margarida Machado

Presidente da ANPEd

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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18 respostas para Carta da ANPED sobre avaliação de habilidades socioemocionais

  1. André Luís disse:

    É válida a preocupação de se aplicar qualquer avaliação em larga escala, mas de acordo com o texto, me parece haver uma falta de entendimento sobre os conceitos de valores e traços de personalidade ou habilidades socioemocionais.

    Características como perseverança, autocontrole, prudência, dentre outros, que são estudados profundamente por psicólogos e neurocientistas do mundo inteiro, não estão diretamente correlacionados com questões socioeconômicas ou educação para valores.

    Sobre a educação para valores, quantos professores de fato ensinam de forma regular, estruturada, mensurando os avanços e corrigindo os caminhos, dando retorno para seus alunos e pais? Novamente preferimos “deixar solto”, dependente do comprometimento de cada prodessor.

    Existe, novamente, um discurso perigoso que promove uma disputa preconceituosa devido à divisão de classes a partir das condições socioeconômicas. Minha mãe foi muito pobre, passou fome, começou a trabalhar cedo, tinha que faltar aula quando criança para cuidar de irmãos e parentes e mesmo com tudo adverso, se desenvolveu como ser humano e também profissionalmente. Desde que me entendo por gente, vi na minha mãe características marcantes, como disciplina, perseverança, determinação.

    Acredito que essas características ajudariam qualquer ser humano a estar mais próximos de seus objetivos. Por que não ensinar isso? Por que não tentar mensurar para ajudar o professor, a escola, a ajudar a desenvolver isso nos alunos? Será que esses profissionais acreditam que alunos advindos de condições socioeconomicas desfavoráveis não tenham capacidade de aprender isso, e só os de classes “mais favorecidas” teriam?!

    Desqualificar esses estudos da psicologia e neurociências é desrespeitoso, perigoso e limitante para a melhoria da educação.

    • kirilaraujo disse:

      Eu não consigo entender como certos comentaristas invertem completamente o significado daquilo que estão comentando. Desqualificar estudos da psicologia e neurociências? Onde isso? Se o comentário tem boas intenções, então a carta aberta foi lida de modo tão rápido e superficial que seu verdadeiro sentido não foi percebido.
      Ou, ainda, existe um objetivo mais sutil: tentar depreciar o que há de verdadeiro no manifesto. Talvez o comentarista não concorde com uma política que promova o equilíbrio de oportunidades ou, ainda, que eleve substancialmente as chances daqueles que normalmente estariam condenados a uma vida subalterna. Aí está o perigo: um ensino público tão bom ou até melhor que aquele que recebem os bem-nascidos.

      • Andre Luis disse:

        Prezada, acredito que não há inversão. Há uma preocupação legítima e sincera no que diz respeito a um repúdio à uma iniciativa, sem que se ofereça uma alternativa para algo tão importante. O Ministério da Educação entende a importância do desenvolvimento das competências socioemocionais, assim como outros sistemas educacionais ao redor do mundo.
        Não podemos melhorar aquilo que não conseguimos medir. O mecanismo pode não ser perfeito, e não acredito que um dia será, mas precisa ser iniciado para ser melhorado. O grande problema que considero é que estas defesas estão mais preocupadas com ideologias do que com os benefícios, e que travam o desenvolvimento da educação, enquanto o resto do mundo caminha.
        Ao contrário do que afirma a carta (“…uma vez que poderá vir a reforçar a seletividade e exclusão, escolar e social”), e ao contrário do que é colocado no comentário acima (“…não concorde com uma política que promova o equilíbrio de oportunidades ou, ainda, que eleve substancialmente as chances daqueles que normalmente estariam condenados a uma vida subalterna.”), o objetivo é melhorar as condições para os menos favorecidos, aqueles que normalmente frequentam as escolas públicas. Certamente aprender habilidades socioemocionais importantes, poderá fazer com que nosso aluno de escola pública tenha maiores chances de um futuro melhor.

      • Elza Helena Soares disse:

        Então, a necessidade de mudanças na educação não é coisa com a qual podemos concordar ou discordar. É uma necessidade autêntica e urgente. Então, ou nós fazemos o que algumas organizações já fizeram que é analisar todas as alternativas existentes para criarmos a nossa própria, ou fazer como a Austrália e Cingapura fizeram, partir do que já foi feito (seleção e definição das competências universais e essenciais e criar o nosso próprio modelo a partir da base de pesquisa que já foi feita com base nos mais sólidos estudos nas áreas de ciências humanas ao longo do último século. Acredito que o acesso à informação e a barreira linguística são duas barreiras ao nosso entendimento destas competências porque até que todo o material mais acadêmico seja traduzido (e não traído) e disponibilizado há um lapso de tempo enorme. O que o Instituto Ayrton Senna está divulgando resultados de estudos e não a fundamentação que está bem clara nos documentos originais – são a ponta do iceberg, na fonte certa encontramos a base de conhcimentos que deu origem às competências. Para se entender bem a origem científica, a credibilidade e validade das pesquisas é preciso irmos à fonte. Minha preocupação é que enquanto nós discutimos sem muita objetividade (no âmbito da educação pública) a educação particular já está aplicando estes conceitos muito bem obrigada. Então neste caso, mais uma vez, a lacuna social aumenta. Por isto eu defendo a discussão de filosofias de ensino e não política de ensino. Porque quando a discussão descamba para o lado político-ideológico, ela perde a praticidade e a racionalização dando lugar à paixão enquanto a razão fica adormecida. Por isto mesmo algumas correntes políticas são contra a educação para o século XXI porque um dos objetivos da Ed. Sec. XXI é levar o aluno à racionalização,e, o indivíduo capaz de praticar reflexão baseada em evidências, racionalizar e conceituar com certeza não será facilmente doutrinado.

      • kirilaraujo disse:

        Gostaria de explicar o que vejo de preocupante nas mensagens do Sr. André Luis. Preocupa-me que só veja ideologia nos outros, até mesmo onde não há. A palavra ideologia muitas vezes é usada pejorativamente com o significado de “crença infundada”. Pois então vejamos onde está a crença. Este blog tem no próprio nome a principal crítica. Quer mostrar, e mostra, baseado na experiência e no conhecimento dos autores, o quanto a aplicação de avaliações em larga escala é prejudicial. Normal que venham leitores discordantes. Normal que coloquem comentários com opinião contrária. Mas não lembro de ter lido uma que fosse minimamente fundamentada. Por exemplo, “não podemos melhorar aquilo que não podemos medir”? Esse tipo de argumento só reforça minha opinião, o Sr. Luiz Carlos está coberto de razão. Lamento por em dúvida a boa intenção do comentarista, enfim, resta-me dizer que está bastante enganado e sugerir que leia mais atentamente as publicações anteriores do blog.

      • Andre Luis disse:

        Prezada Kirilaraujo (desculpe se este não for seu nome real),
        Entendo e acho válida a sua preocupação. Parece-me claro que ambos temos o interesse da melhoria da educação pública, embora em algumas ocasiões você ter questionado isso na minha pessoa. Peço que me responda por favor:
        1. Você concorda com o ensino de habilidades socioemocionais e a avaliação deste ensino pelos professores?
        2. Qual alternativa você daria à avaliação em larga escala, para que os responsáveis pela estruturação de políticas públicas nacionais, estaduais ou municipais tenham conhecimento de como os sistemas se comportam?
        Minha maior crítica não diz respeito ao conhecimentos técnico abordado nos posts ou à capacidade técnica do prof. Luiz Carlos, absolutamente, mas critico a limitação à crítica sem propor efetivamente formas melhores. Criticar é fácil, ajudar a construir, fazer parte da solução que é o grande desafio.

      • kirilaraujo disse:

        Kiril Araujo é meu nome, tudo no masculino. Moro em São Paulo, na capital, tenho filhos em idade escolar, evidentemente meu interesse no assunto é grande. Posso responder suas perguntas de maneira simples, sr. André, mas também posso ir um pouco além. Analiso a relevância da pergunta. Infelizmente, mostra-se pouco relevante, pois o núcleo do manifesto é “avaliação em larga escala”. Veja lá, no começo. A outra questão, que pode ser traduzida assim: “Já que você, sabichão, acredita que avaliação em larga escala é tão ruim, terá alguma coisa para colocar no lugar?” é uma pergunta retórica. Daquelas que quem pergunta já vem com a resposta pronta, antecipadamente, e se eu responder diferente estarei errado.
        Assim mesmo, responderei. Concordo com o ensino de habilidades socioemocionais. Tenho filhos, e estes recebem tal ensino de mim mesmo, em casa. Por sorte, tenho condições para fazer isso. Se há professores com esta competência, que vão em frente. E que eles mesmos façam suas avaliações. Com isto, parte da segunda pergunta está respondida. O resto, é o seguinte: leia as publicações do blog. Está tudo lá.
        Acredite, não estou fechado à opiniões contrárias. Se surgirem ideias ou informações melhores, terei o maior prazer em receber.

      • Andre Luis disse:

        Peço desculpas Sr Kiril por tem entendido o seu nome no feminino.
        Eu acredito que o ensino das habilidades socioemocionais seja muito importante. Tão importante que acredito inclusive que deveria se tornar política pública, para que toda criança tivesse condições de receber este ensino de forma obrigatória, assim como português e matemática, e não menos importante. Deixar “solto” nas mãos dos professores, é não garantir um mínimo que pudesse ser ensinado e avaliado a qualidade desse ensino. Esse mínimo já foi pesquisado por educadores do mundo inteiro e refletido, por exemplo, no documento da OCDE (ver detalhes no post da Elza Helena Soares).
        Não fiz uma pergunta retórica. Embora realmente não veja hoje forma melhor, embora longe de ser perfeita e devidamente mostrada pelos estudos do Prof Luiz Carlos, queria ser surpreendido por alguma forma mais interessante, mais assertiva, menos custosa para manter os responsáveis pela criação de políticas públicas atualizados e cientes sobre o que acontece nos sistemas públicos de ensino e nas escolas, que compõe esse sistema.

      • kirilaraujo disse:

        Muito bem, sr. André, parece que monopolizamos o debate. Fico feliz em poder contribuir de alguma forma. Parece que a divergência é: avaliações em larga escala são uma boa ideia ou não. Só queria acrescentar uma coisa. Tenho lido o blog há um tempo, não muito, mas o suficiente, acredito eu, para considerar este como uma das mais importantes fontes de informação sobre ensino no Brasil. Salvo engano meu, não contém apenas críticas, pelo contrário, em diversas postagens mostra-se caminhos melhores. Por isso, recomendo leitura de artigos mais antigos deste blog, coisa que eu mesmo pretendo fazer.

    • Claudia Lopes disse:

      Os adeptos aos reformadores também estão lendo o blog…que bom !!! Pena que os argumentos são tão fechados em um mundinho irreal…

      • Andre Luis disse:

        Prezada Claudia, fico feliz em ler o blog e ter discussões ricas sobre variados temas, como tive com o Sr Kiril, por exemplo. Isso me dá a capacidade de refletir sobre novas possibilidades, caminhos, além de aprofundar meus conhecimentos. Lamento pela infelicidade do seu comentário, limitado e preconceituoso.

      • Claudia Lopes disse:

        Preconceituoso não, na minha opinião os reformadores e adeptos se fecham em um mundo irreal….só isso.

  2. Elza Helena Soares disse:

    Esta decisão da rejeitar a avaliação das habilidades emocionais sem oferecer uma alternativa é refratária e até mesmo irresponsável, vou dizer por que:
    1. A politização da educação tem sido muito prejudicial ao desenvolvimento técnico pedagógico. Aqui no Brasil a gente acredita, em uma má interpretação do trabalho de Paulo Freire, que educação não pode estar dissociada da politização. Porque isto é perigoso? Porque aqui, politização é sempre refratária, tendenciosa e partidária. Então tudo o que está de alguma forma relacionado ao poder econômico é rechaçado sem considerações mais profundas. Há uma rejeição instintiva e não racional baseada em evidências concretas. Aliás, dados da UNESCO mostram que só 1 em 4 brasileiros com nível superior desenvolve a capacidade de reflexão profunda. Há sistemas educacionais que dissociam política de escola. Ao contrário do que se dissemina no Brasil, os Estados Unidos, por exemplo, o Canadá, a Austrália, a Suécia, a Bélgica e a Inglaterra (no que a parte Irlandesa permite) separaram religião e política da educação. Naqueles sistemas educacionais a educação é super “técnica”. O aluno é desenvolvido na sua capacidade de pensar, refletir baseando-se em fatos e é deixado livre para fazer suas escolhas a seu modo. Isso é o que eles entendem por autonomia. Se o educador direcionar tendenciosamente a ideologia do aluno, eles está desrespeitando o seu direito de escolha e está negando a capacidade da educação de levar o aluno a fazer escolhas éticas e equilibradas por si só. São dadas aos alunos as ferramentas necessárias para o desenvolvimento do sistema cognitivo baseado nos princípios da racionalização e não do instinto ou emoção. Assim sendo os valores e habilidades sociais e emocionais são desenvolvidos de forma metacognitiva, ou seja, também mediados pela racionalização para que ele crie os seus conceitos e o seu código de crenças que é pessoal, mas é universal e essencial. Portanto é um trabalho de neutralidade. É claro que até mesmo a decisão de praticar uma educação asséptica já é uma decisão política. Mas é uma decisão da gestão da educação e dos educadores. O educando fica livre para fazer suas escolhas. Nos sistemas educacionais como o nosso, a gestão e os educadores sentem-se capazes de direcionar o pensamento do educando. O doutrinamento político que o Brasil está vivendo hoje é uma das causas da incapacidade que o Brasileiro está demonstrando de praticar a racionalização. A reflexão, racionalização e a conceituação são exatamente as três últimas habilidades cognitivas da OCDE.
    2. Falta de estudo, falta de informação sobre as fontes. Se você for estudar a origem das competências cognitivas e soco emocionais da OCDE, você verá que elas saíram de pesquisas na área de educação e de psicologia, sérias e desenvolvidas por educadores. Eles examinaram todos os modelos existentes e que tiveram aplicação, monitoramento e avaliação e impacto nas diversas culturas do planeta. Este trabalho foi realizado ao longo de diversos anos desde 1999 até 2006, quando elas foram finalmente divulgadas ao público em geral e envolveu mais de 250 grandes centros de pesquisa no mundo com recursos de mais de 64 universidades em 34 países. Nenhuma instituição educacional, por mais rica que seja, teria condições de realizar um trabalho desta magnitude e desta profundidade. Então a maioria das pessoas que fala mal e que discorda não conhece as raízes, porque se conhecesse não poderia dizer que estas pesquisas estão influenciadas pelos interesses econômicos. Agora é obvio que o interesse econômico em ter capital humano bem preparado para o mercado existe. Mas desde que a educação faça o seu papel, acredito que o poder econômico vai ficar feliz em abraçar as soluções vindas da educação. Só que a educação não está fazendo o seu papel e está reagindo como “fera ferida”. O econômico move o mundo. Se não houver crescimento econômico o país não se desenvolve, não se geram impostos, não pode haver políticas públicas que promovam igualdade, etc. Os governos e as organizações sociais são as que mais se beneficiam do poder econômico porque não geram capital financeiro próprio. Eles usam o dinheiro de impostos gerados pelo setor privado. Portanto esta visão dicotômica é prejudicial. É possível em um estado democrático praticar-se uma educação técnico pedagógica focada no desenvolvimento global do ser humano capaz de leva-lo ao desenvolvimento da mente, do corpo e da volição sem politizar. Mas para isto os professores precisariam ter um pouco mais de auto eficácia porque a maioria dos discursos encobrem uma sensação de baixa auto eficácia.
    3. Ser contra alguma coisa, mas não oferecer alternativa a altura não é contribuição decente. Um amigo acabou de voltar da Europa onde foi visitar diversas escolas modelares, como a “Escola da Ponte” em Portugal e percebeu a mesma resistência ao modelo de competências da OCDE na Espanha, em Portugal e na Inglaterra por motivos diferentes. Em Portugal e Espanha, pelos motivos parecidos com os do Brasil. Na Inglaterra porque a Inglaterra já faz isso tudo e queria avançar mais. Mas quando seu grupo passou a perguntar qual a alternativa existente, só a Inglaterra tinha uma alternativa e que era exatamente a mesma da OCDE, mas com palavras diferentes e nível de profundidade dos valores também diferentes. Portugal e Espanha também não tinham um modelo sistematizado, só não aceitava o da OCDE.
    4. Orientação não implica em obrigação. Uma orientação, em qualquer profissão, serve como o nome diz para orientar práticas. O que acontece é que os gestores educacionais e educadores que têm uma orientação positivista estão sempre procurando algo que já vem pronto para ser utilizado. Mas não é esta a função dos modelos e orientações. Eles servem como parâmetro. São essenciais, significa que de qualquer forma que eu trabalhe é preciso compara a este modelo e ver se estou tendo resultados positivos; se são universais, preciso saber se o meu modelo particular também pode ser usado trasnculturalmente e em todas as fases do desenvolvimento humano e eu tenho aquele modelo como parâmetro para saber isto. As universidades públicas brasileiras formaram um cartel contra o modelo de competências da OCDE por que não querem sair da sua zona de conforto, mas mesmo que eles queiram criar um modelo próprio, eles não poderão fugir do que está ai porque ele foi baseado em pesquisas das áreas de educação e psicologia que é a mesma base para o mundo inteiro e que trata da essência do ser humano preto, branco, amarelo, ou vermelho. Se assim não fosse, não seriam ciências humanas e sociais.
    5. Há uma diferença entre a seleção e descrição das competências e a aplicação deste conhecimento e avaliação da sua aplicação. Os métodos de avaliação podem estar sendo utilizados de forma inadequada e já vimos que esta pode ser uma verdade, haja vista a forma como foi aplicada aqui no Rio de Janeiro e já discutimos isto. Mas cabe a cada sistema educacional e a cada instituição decidir como vai fazer uso deste conhecimento. O papel das universidades deveria ser este. Avaliar a forma como estas competências foram elaboradas e qual a contribuição que a universidade, a ONG, a organização da sociedade civil, sabe l á, pode trazer para que as pessoas possam desenvolver as competências necessárias para si, para suas comunidades imediatas, para o seu país, para o mundo.
    6. É preciso que as pessoas discutam sim, mas não vindo com ideias já formadas a respeito da situação. É preciso que recursos sejam destinados à iniciativas diversificadas e aplicação e avaliação.
    7. Último item que eu gostaria de comentar é que o aluno estuda para criar conhecimentos, não para receber uma nota ou um prêmio. Assim sendo, trabalhar as habilidades cognitivas e socioemocionais não deve estar atrelado a nenhuma premiação de quem seja mais ou menos conformado com o sistema. Ai por si já há uma deturpação dos objetivos de se terem um modelo de competências. Ele é universal e essencial no sentido que tendo estas habilidades desenvolvidas, além de outras ainda, o indivíduo, as organizações a sociedade poderá atuar no mundo em nível de igualdade. Não é para universalizar as competências ou as sociedades porque elas têm a liberdade de escolha de quais outras poderão ainda ser desenvolvidas. Mas estas são as básicas que darão a este ser humano as ferramentas que o mundo exige. O monitoramento e avaliação da aplicação do modelo deve servir para aprimorar o sistema e não deve ser focado na pessoa, mas nos processos.

  3. Sheyla Silva disse:

    Texto de Elza Helena Soares altamente contraditório, ora diz que o processo de avaliação induz à neutralidade o que sabemos que não existe em nenhum processo, mas, depois se contradiz citando questões econômicas como a mola motriz para a educação. Mostra o comprometimento do processo em igualar a população brasileira aos patamares europeus esquecendo as particularidades desta mesma população. Muito se necessita mudar sim na educação brasileira, mas não copiando modelos específicos de outros sistemas.Até quando modelos externos para a educação continuarão a dizer o que se deve fazer? Falta sim, uma política com uma melhor definição para a construção da educação de jovens e crianças de acordo com a sociedade que pretendemos e desejamos ter, ou seja, desvinculada de modismos. Porque então, não criarmos nós mesmos uma alternativa a esta avaliação de habilidades emocionais, inclusive com a cooperação da autora das ideias do texto?

    • Elza Helena Soares disse:

      Excelente esta interlocução. Sheila, obrigada pela oportunidade de expressar minhas ideias em meiores detalhes. Na verdade eu não afirmei que poder econômico é mola mestra DA EDUCAÇÃO, mas da VIDA em sociedades livres porque até para se terem recursos para serem investidos na educação é preciso que haja desenvolvimento econômico em paralelo. Eu também não direcionei para nenhuma ideologia que valorize o capital financeiro acima do capital humano. Eu vejo isto como um sistema que se retroalimenta. Recursos financeiros são aplicados na educação, mas a educação produz o capital humano que vai compor todos os setores da sociedade. Então há uma interdependência que precisa ser considerada e não tratada de forma maniqueista, tipo a educação é do bem o poder econômico é do mal. Eu não acredito absolutamente que se deva “copiar” modelos europeus até porque os maiores exemplos dos benefícios da educação para o século XXI (com esse rótulo que é apenas um rótulo e pode ser chamada de qualquer outra coisa que se queira desde que leve realmente ao desenvolvimento do ser humano na sua totalidade e pluralidade); Copiar, direcionar, doutrinar, alienar são princípios contrários a própria essência da educação para o século XXI que tem como premissa justamente o desenvolvimento de pensamento crítico, capacidade de tomar decisões baseadas em fatos, capacidade de trabalhar em equipe respeitando a diversidade, sendo protagonista e autônomo, tendo responsabilidade pessoal e social, etc. Não há nada de mal nisto seja qual for a orientação filosófica do professor. Oreintação filosófica é uma coisa e militância política é outra. O que eu alerto para é que modelos, sejam eles quais forem, podem servir como ponto de partido para que nós possamos repensar o nosso sistema e criar os nossos processos de acordo com nossas crenças, valores, características e necessidades. O Modelo da OCDE não foi desenvolvido pela OCDE e sim por todos aqueles pesquisadores da área de educação, inclusive, que trabalharam durante diversos anos, avaliaram todos os modelos existentes e chegaram a este compêndio. Procure entrar no site da ACT21S, por exemplo que eles disponibilizam todos os documentos mostrando passo a passo cada resolução e cada conclusão. O que eu não concordo é com uma postura refratária que rejeita sem avaliar profundamente e sem oferecer uma alternativa tão fundamentada quanto. Enquanto nos debatemos em discursos semânticos a roda da vida rola e quem perde com isso são os nossos alunos, as organizações e a sociedade que perde oportunidades de igualdade de condições porque enquanto nós discutimos que tem condições para isto está se desenvolvendo muito rapidamente na nossa frente. Então é preciso um pouco mais de praticidade e ação, é preciso mais abertura para on para o novo. Em relação às competências cognitivas e socioemocionais que a OCDE, a UNESCO, a ACT21s, Educação Positiva, etc…vêm apresentando há muita convergência e são competências que se bem desenvolvidas não farão mal a ninguém. A meu ver não faz mal nenhum em se desenvolver raciocínio lógico, reflexão metacognitiva e racionalização na parte das cognitivas e não faz mal nenhum também que se trabalhe a questão do respeito, da responsabilidade, da colaboração, da comunicação eficaz… Ai, a gente pode imaginar… “mas isso tudo pode ser mal direcionado…” OK, mas então que nós direcionemos bem! Que nós demos a significação que o arquétipo não dá (o modelo é apenas um arquétipo que os usuários dele poderão preencher de acordo com as suas circunstâncias, valores, volição e necessidades).

  4. Colegas, não pretendo ser simplista (embora, infelizmente, sendo). O fato é que a educação, sobretudo do povo brasileiro, tem sido atrelada à manutenção de benesses de uns poucos “afortunados”. Fico pensando: para que avaliação em larga escala sobre aquilo que nós já sabemos o que ocorre nas escolas? O que sabemos? Cada vez menos pessoas desejam ser professores, pedagogos, educadores. A escola, em sua maioria, tem se tornado um lugar que adoece e entristece as pessoas. Por quê? Pensemos! Há uma precariedade dos postos de trabalho e no processo formativo de novos quadros (professores) para a educação. Todo mundo acha que entende de educação e, o pior de tudo, traz em sua “voz” certa empáfia e negação da fala (competente) dos professores. Pergunto, caros colegas, quem melhor entende de engenharia? Quem melhor entende de medicina? E quem melhor entende de educação? Os professores têm a capacidade de escuta (de leitura e de escrita) e precisa desenvolver de igual modo a capacidade de dar um basta aqueles que nada ou pouco entende sobre o processo de educação e desejam transformá-la em um negócio. O que é preciso, então? Qualificar a formação inicial e continuada para os professores, melhorar os planos de cargo e salários e garantir escolas com infraestrutura (incluindo salas, parques, bibliotecas, laboratórios etc), aberta à comunidade para diálogo e produção de culturas diferenciadas, eis algumas das ações que urgentemente precisamos. Professores competentes não nascem em árvore, é preciso formá-los, prepará-los. Para isso, os Cursos de Licenciatura das universidades públicas, bem como de algumas privadas que tenham projetos claros para ajudar a transformar essa sociedade que organizamos até o presente momento (segregadora, excludente, focada no supérfluo, no espetáculo e na produção e no consumo inconsequentes, pela qual muitos trabalham muito e poucos/pouquíssimos trabalham muito pouco, mas são estes últimos que usufruem de tudo o que se produz), podem contribuir. Resta saber se os professores universitários (me refiro aos dos Cursos de Licenciatura, porque os demais devem cuidar do seu “quadrado” e, quando for o caso, estabelecer diálogo e não ditar normas) estão dispostos a trabalhar intensamente para a formação inicial e continuada de professores, desenvolvendo suas aulas, suas ações de extensão e pesquisas “dentro” (mergulhados nas dores e nas alegrias do cotidiano das instituições de educação básica).

    • Andre Luis disse:

      Jilvania, gostei das coisas que escreveu! Na verdade concordo com a grande maioria dos pontos. Gostaria apenas de colocar uma outra perspectiva sobre este trecho (…quem melhor entende de engenharia? Quem melhor entende de medicina? E quem melhor entende de educação?). Na verdade, acredito que melhor entende aquele que mais estuda e vive em torno do tema, e que se mantém atualizado. Certamente os que se graduaram especificamente sobre o tema, levarão uma grande vantagem inicial sobre os demais, mas isso não os faz detentores da verdade, principalmente se não se mantiveram atualizados.
      Falando especificamente sobre a educação, vejo professores maravilhosos, que além de dominar o conteúdo daquilo que irão ensinar, aprendem novas técnicas de gestão de classe para ter mais tempo útil de aula, que sabe como motivar os alunos, que entende como o cérebro funciona no processamento cognitivo da informação, que entende que quando um aluno que mora numa área conflagrada, tem sua capacidade cognitiva reduzida principalmente no início da aula pela simples expectativa que algo ruim pode lhe acontecer no caminho para a escola, então faz um acolhimento no início da aula. Professores que quando se tornaram gestores (Diretor de Escola), perceberam que precisariam ir além dos seus conhecimentos da faculdade e de sala de aula e foram estudar técnicas de gestão para administrarem melhor sua unidade escolar, para gerenciar melhor as pessoas com que trabalhavam. Diretores que depois foram convidados para assumir funções de gestão de políticas públicas e que novamente se viram com a necessidade de se atualizarem sobre os temas ligados à sua nova função. E de um desses diretores eu ouvi uma frase que jamais esqueci e que gostaria de compartlhar com você(s): “A educação é tão importante, que não pode ficar nas mãos apenas dos educadores”. E ele exemplificou falando dos pais que queriam participar mais do dia a dia dos filhos,que estudavam na sua escola e eram desencorajados pelos próprios professores, pois estes diziam que não entendiam de educação, ou de psicólogos que foram ensinar as novas descobertas sobre o comportamento do ser humano e como isso impactaria na sala de aula, e foram ignorados porque não eram educadores….
      É por isso eu acredito que em qualquer profissão, temos que ter a humildade de contar com a ajuda de áreas diferentes, complementares, que agregam ainda mais valor ao que fazemos.

  5. lucimara Laurano disse:

    Não sou nenhuma doutora ou PhD em educação, tão pouco conheço tudo sobre o assunto, como uma cidadã, mãe , limitada em recursos financeiros e que quer o melhor para os seus filhos, busco a literatura e pesquisas recentes desta área tão nobre que e a ciência humana e a Educação, fico eu lendo estes inúmeros debates, palestras, encontros mundiais sobre o tema etc.., e penso sozinha humildemente que:
    – porque não conseguimos chegar num concenso?
    – se existe uma pesquisa/ pesquisador brasileiro( muito competentes) que conseguiu mapear a nossa real necessidade educacional e que com esta referencia cada gestor de seu estado e município( do norte a sul do pais) possa adequa-las a sua realidade?
    – porque tanta discussão e pouca ação?
    – precisaremos de mais mártires da educação?
    – precisaremos se mais sofrimento destas criancas que muitas vezes só tem a escola ck alento, um refugio das mazelas da vida sua última esperança de futuro?

    Me perdoeam pela minha ignorância, sou apenas uma mãe, que não entende porque e tão difícil ensinar!!

    Gostaria de manter contato com Sra.Elza Helena, se possível manda email! Grata pela oportunidade

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