A direita educacional chilena contra-ataca…

Postado originalmente na Uol em 15/07/2010

O Ministério da Educação do Chile nomeou uma comissão de especialistas para indicar as mudanças a serem feitas no sistema educacional chileno.

Vale a pena ler o documento. Ele mostra a opção do grupo por alterar o sistema educacional centrando a atuação nos professores (docentes e diretores) atráves de uma série de mudanças. Esta é a visão que a direita tem sobre as mudanças no campo educacional hoje, para a América Latina.

– “A todos os egressos dos programas de pedagogia se exigirá um exame de habilitação para poder ensinar na educação subvencionada pelo Estado.”

– “Os desempenhos dos egressos dos diversos programas de pedagogia devem ser públicos. Estes devem ser considerados no processo de acreditação dos programas de formação inicial docente.”

– “As instituições formadoras terão que encarregar-se, obrigatoriamente a seu custo, da nivelação de seus egressos que havendo sido reprovados no exame de habilitação, queiram fazê-lo uma segunda vez.”

O Exame de Ingresso na Carreira Docente proposto pelo nosso MEC, não vai ser diferente, em que pese aparecer, agora, sob outra roupagem. Pode não conter um ou outro aspecto, mas nasce no mesmo contexto. Parte-se da idéia de que o culpa pelo fracasso é do professor ou então da agência que o formou. O Ministério acaba, com esta agenda internacional, sendo pressionado a caminhar na mesma direção.

O aluno pode não ir bem em um Exame por vários motivos, não só porque não sabe. E quando não sabe, não se pode dizer que a agência formadora é a única responsável, pois esta lógica parte da idéia de que o aluno está disponível para aprender, o que pode não ser verdade. Muita gente vem aos cursos de pedagogia e não pretende dar aula, vem para ter um diploma somente. Se esta pessoa decidir um dia ser professor, certamente, não conseguirá passar no Exame. Há outras variáveis. Fazendo com que uma instituição privada, por exemplo, se encarregue de ensinar novamente o aluno que não passou no exame, esta instituição irá pressionar mais ainda seus alunos em exames e simulados internos, durante sua formação. O curso se converte, portanto, em uma preparação para o Exame, estreitando a formação do aluno. Além do que, aumentando a pressão sobre o aluno, as instituições vão gerar mais evasão. Mas, se hoje, já não temos professores suficientes, como ficaremos se a evasão aumentar?

Mas não é só isso. Há outras recomendações no documento chileno. Os processos de avaliação docente no decorrer da carreira são amarrados a benefícios pecuniários.

– “Recomendamos que a partir dessa base o Ministério da Educação estabeleça um perfil de remunerações válido só para os docentes destacados, que todos os mantenedores públicos devem satisfazer. Estes docentes são aqueles que obtiveram a máxima qualificação na avaliação docente e o perfil de remunerações deve conciliar experiência com mérito.”

– “Cada mantenedor desenvolverá sua própria avaliação docente […] Esta avaliação deverá ser também o critério fundamental para definir a continuidade dos professores.”

– “A seleção e contratação de cada diretor suporá a aceitação de um convênio de desempenho que estabelecerá as metas que o mantenedor definiu para os cinco anos de gestão do diretor. O convênio estabelecerá, além disso, reconhecimentos e eventuais sanções de acordo com o grau de cumprimento das metas. “

– “Ampliar as atribuições dos diretores no manejo dos recursos humanos, dando-lhes um papel ativo nas funções de selecionar, avaliar, fixar remunerações e desvincular …”

E por aí vai…

Ou seja, mais controle sobre o diretor, que por sua vez coloca mais controle sobre o professor, o qual, é claro, colocará mais pressão sobre o aluno.

“Darwinismo concorrencial” – a lei do mais forte. Sobreviverá o mais forte. E o mais forte é o mais apto… Este modelo é passado também para os alunos, como visão de mundo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Links para pesquisas, Meritocracia, Postagens antigas da UOL, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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