Falta de evidência e responsabilização

O Brasil está caminhando para copiar o que de pior existe em matéria de políticas educacionais. Existem os que aprendem somente pelas próprias experiências. E existem os mais espertos que aprendem com a sua e com a dos outros. No artigo abaixo, Robert E. Slavin, Director of the Center for Research and Reform in Education da Universidade John Hopkins, reitera o que inúmeros especialistas e educadores americanos têm afirmado nos últimos anos sobre as políticas de responsabilização agora em voga no Brasil:

“Talvez a questão mais controversa na política educacional seja a responsabilização com base em testes. Desde os anos 1980, a maioria dos Estados tiveram testes de leitura e matemática (pelo menos), e têm usado notas médias nos testes da escola para fins que vão desde elogiar ou constranger as equipes escolares com a atribuição de incentivos financeiros ou fechamento de escolas com baixa pontuação. A responsabilização com base no teste tornou-se nacional com a lei No Child Left Behind o que exigiu testes anuais da 3ª. série a 8ª., e previu sanções para as escolas com baixos resultados. A administração Obama reforçou esta ênfase utilizando as notas dos alunos como parte da avaliação de professores.

Todo o movimento de responsabilização com base em testes tem dado pouca atenção à evidência empírica. De fato, em 2011, o Conselho Nacional de Pesquisa revisou a pesquisa ligada a prestação de contas de alto impacto e encontrou poucos benefícios.

Não há nada de errado com testar os alunos e identificar as escolas em que os alunos parecem estar fazendo progresso bom ou ruim em comparação com outras escolas que atendem alunos com origens semelhantes, desde que isto seja apenas utilizado como informação para identificar áreas de necessidade. O que é prejudicial na prestação de contas é a utilização de resultados de testes para consequências draconianas como demitir diretores e fechar escolas. O problema é apenas que o medo não é uma estratégia muito boa para o desenvolvimento profissional. Professores e diretores que têm medo da punição são mais propensos a usar estratégias questionáveis para aumentar sua pontuação – ensinando o teste, reduzindo o tempo das disciplinas não-testadas, tentando atrair as crianças de maior desempenho ou livrando-se dos rendimentos mais baixos, para não falar da fraude. Nem medo, nem a esperança de recompensas fazem muito para melhorar fundamentalmente o dia a dia do ensino porque a grande maioria dos professores já estão fazendo o seu melhor. Há maçãs podres, e elas precisam ser erradicadas. Mas você não pode melhorar a aprendizagem global das crianças da América, a menos que você melhore as práticas pedagógicas diárias de 95% dos professores, os que vêm para trabalhar todos os dias, fazem o melhor que podem, se preocupam com suas crianças, e vão para casa mortos de cansaço.” Leia mais aqui.

Teremos que percorrer o caminho destas políticas de responsabilização no Brasil? Os Estados Unidos estão chegando a esta conclusão depois de mais de duas décadas perdidas com tais políticas. Podem nossas crianças esperarem por um fracasso que já está antecipado na literatura internacional?

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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