Fracasso da privatização no Chile

Diane Ravitch divulga em seu blog trabalho que mostra o fracasso e os efeitos deletérios da privatização da educação no Chile (com escolas charters e vouchers). O artigo dos dois pesquisadores revela o que pode ser aprendido com o Chile e sua experiência com abordagens baseadas no livre mercado educacional. São eles Alfredo Gaete da Pontificia Universidad Catolica de Chile e Stephanie Jones, da Universidade da Georgia. Dizem:

“Imagine um país que já estava comprometido com a educação pública de qualidade, mas começou a tratar esse bem público como uma economia de mercado com a introdução de escolas charters e sistemas de vouchers.

Imagine que depois de alguns anos, a maioria dos estudantes neste país freqüentavam as escolas privadas e não havia financiamento público para a maioria dessas escolas, que deviam concorrer entre si pelo financiamento, melhorando seus resultados.

Imagine que o estado promoveu esta competição através de publicação de rankings escolares, para que os pais fossem informados dos resultados obtidos por cada instituição.

Imagine-se, por fim, que os proprietários da escola foram autorizados a cobrar taxas extras dos pais, tornando assim a educação um negócio bastante rentável.

Mas vamos parar de imaginar, porque este país já existe.”

Sim, é o Chile. Os pesquisadores, então, resumem o desastre:

“Então o que aconteceu? Aqui estão alguns fatos após cerca de três décadas de “experiência chilena” que, assustadoramente, também tem sido chamada de “milagre chileno”, como o mais recente dos EUA “O milagre de New Orleans”.

Em primeiro lugar, não há evidências claras de que os alunos melhoraram significativamente seu desempenho em testes padronizados, que é a medida preferida utilizada para avaliar as escolas dentro deste cenário de mercado livre.

Em segundo lugar, existe agora um consenso entre os pesquisadores de que tanto as lacunas educacionais como as socioeconômicas aumentaram. O Chile é hoje uma sociedade muito mais desigual do que era antes da privatização da educação – e há uma clara correlação entre renda familiar e aproveitamento dos alunos de acordo com testes padronizados e medidas semelhantes.

Em terceiro lugar, estudos têm mostrado que as escolas que atendem os alunos mais carentes têm maiores dificuldades não só para responder de forma competitiva, mas também para inovar e melhorar a atratividade da escola de maneira a obter alunos e, portanto, o financiamento.

Em quarto lugar, muitas escolas estão agora investindo mais em estratégias de marketing do que em realmente como melhorar os seus serviços.

Em quinto lugar, a cultura de responsabilização exigida pelo mercado produziu um esquema “ensinar-para-o-teste” que está progressivamente negligenciando a variedade e riqueza das práticas educativas mais integrais.

Sexto, alguns pesquisadores acreditam que tudo isso tem afetado negativamente a autonomia profissional dos professores, o que por sua vez provocou sentimentos de desmoralização, ansiedade, e no final práticas de ensino pobres dentro das escolas e uma profissão pouco atraente.

Em sétimo lugar, um sentimento geral de frustração e insatisfação surgiu não só entre as comunidades escolares, mas, na verdade, na grande maioria da população. Na verdade, a “Revolução dos Pinguins” – uma revolta de estudantes secundários impulsionada por reclamações sobre a qualidade e equidade da educação chilena – levou ao mais maciço movimento de protesto social no país durante os últimos 20 anos.”

Você encontra as análises destes pesquisadores e os graves problemas que a política educacional de mercado implantada trouxe àquele país aqui. (Em inglês)

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Avaliação de professores, Escolas Charters, Links para pesquisas, Meritocracia, Privatização, Responsabilização/accountability, Vouchers e marcado , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Fracasso da privatização no Chile

  1. Dagmar Zibas disse:

    Esse fracasso é conhecido há muito tempo. Por isso, neste ano, a Presidenta sancionou lei que acaba com a possibilidade de que entidades privadas aufiram lucro na área da educação. Foi uma luta de 20 anos na área educacional, com a participação muito ativa de estudantes secundaristas, que periodicamente entravam em greve, promoviam seminários, passeatas enormes, sofrendo repressão pesada, etc. etc. A luta era pela gratuidade, pela anulação do lucro das empresas e melhoria da qualidade do ensino. Ah! se nossos estudantes do Ensino Médio fossem assim politizados…

  2. vitornug disse:

    Esse sistema é tão fracassado que possibilitou o Chile atingir a um IDH como de um país desenvolvido da Europa.

  3. Ledo engano Vitor. É exatamente o contrário. Como o Chile sempre teve um IDH alto, seu nível educacional já era alto. Colonização espanhola ajudou também. Lá as Universidades são mais antigas do que no Brasil, por exemplo. O que ocorre é que o sistema ficou mais seletivo e não melhorou por conta das reformas empresariais. Já era bom. Em 1970, quando morei lá quatro anos, mendigo lia jornal sentado na praça…

  4. Thulio Lopes disse:

    Texto fraco. O Chile tem índices de primeiro mundo graças às parcerias com o setor privado.

  5. Bruno disse:

    Achei fraco também, com muito achismo. Tanta gente falando de uma forma mais técnica e relevante sobre esse assunto hoje em dia. O Brasil tem um percentual de gasto educacional no PIB mais alto que o Chile e nossos indicadores qualitativos são bem abaixo do esperado. Entre Brasil e Chile, prefiro o Chile. As universidades públicas federais e estaduais de ponta são ocupadas majoritariamente por alunos do ensino privado e o sistema de voucher trouxe resultados significativos pro país andino. A gente inclui mas forma mal, eles incluem e formam bem.
    O gap entre o ensino público e privado no Brasil é de assustar; não acho que devemos privatizar toda a educação, mas se o estado gasta menos em voucher do que nos alunos do ensino público (per capita), qual a razão de manter os alunos no público?
    O texto é de 2015 também, 2018 já mostrou resultados.

    • Há uma série de relatórios sobre o uso de vouchers no Chile e nos Estados Unidos. E eles não são de 2015. São atuais. Penso que seu posicionamento é apenas um “desejo”. Para poder concordar com você, há necessidade de que você derrube os relatórios. É assim que funciona.

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