A curva normal é uma concepção de educação

Postado originalmente na Uol em 21/09/2010

A inocente curva normal não é apenas um conceito estatístico. Tem, na sua formulação, uma concepção de educação. Parte da idéia que a educação escolar não pode ser completamente assimilada por todos e que esta capacidade se distribui na forma de um “sino”, com alunos nas extremidades (que aprendem muito em uma ponta e que não aprendem muito na outra, sendo que uma grande maioria se concentra em torno da média).

A partir dessa idéia, as avaliações têm que captar esta “variabilidade”. Sem variabilidade, não há estatística na forma como a conhecemos correntemente. Portanto, os testes têm que ser proposições que permitam verificar quanto o aluno aprendeu e localizá-lo nesta curva.

Porém, se pensarmos que a educação, de fato, visa ensinar tudo a todos, podemos dizer que a normalidade da curva é apenas o atestado de nossa incompetência de ensinar. Se cumpríssemos com o compromisso de ensinar tudo a todos, então todos os alunos estariam na mesma extremidade. Suponhamos que todos os alunos dominassem o conteúdo de uma disciplina, propósito da educação, teríamos todos com nota 10, sem variabilidade.

Esta é a razão pela qual os produtores de testes eliminam destes um item de avaliação que todos os alunos acertem. Dizem que “não discrimina bem”.

A boa educação deveria ser aquela que permite que todos atinjam o mais alto patamar, em matéria de aprendizagem escolar. Isso não tem nada a ver com aptidão ou com escolha profissional. Claro que as pessoas não são iguais em seu desenvolvimento global, mas em termos de escolarização, não deveria haver esta diferença, a não ser em caso de portadores de necessidades especiais.

Aliás, para surpresa dos liberais, foi um liberal que formulou a seguinte proposição: 95% dos alunos podem aprender tudo em algum tempo. Ao uniformizarmos o tempo de aprendizagem, produzimos a curva normal, ou seja, a diferenciação de desempenho. Ao diversificarmos o tempo, operamos inversamente e produzimos a unificação do desempenho.

Ou seja, se nossa concepção de educação fosse realmente igualitária e não apenas baseada em equidade (leia-se: igualdade de oportunidades) nossos alunos deveriam, todos, aprender em um nível equivalente e ter a mesma nota, pelo menos no que diz respeito a desempenho escolar. Quem precisaria da estatística?

Para produzir esta situação de igualdade de aprendizagem, deveríamos olhar para o número de alunos em sala de aula, o tempo disponível para aprender a ajuda adequada para que tem dificuldades, a qualificação do professor, sua carreira, a infra-estrutura das escolas e outras questões que as políticas públicas preferem ignorar para “responsabilizar” o professor e o próprio aluno pelo fracasso.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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