Pátria Educadora – VII

Ainda dentro do tópico “Mudar o paradigma curricular e pedagógico do ensino básico” falta examinarmos seu último item, ou seja, “capacitações pré-cognitivas”.

“Grande parte da massa de alunos pobres no país enfrenta obstáculos que podem parecer instransponíveis em subir a escada das capacitações analíticas. São as inibições, às vezes chamadas socioemocionais, que barram o caminho.”

Alerta o documento que:

“Não se deve confundir a determinação de superar tais impedimentos com a tentativa de fazer da escola agente de doutrinação moral. (…) Trata-se de trabalhar no terreno de capacitações pré-cognitivas que faltam a crianças saídas da pobreza mais comumente do que faltam aos filhos da classe média.”

Com este alerta, o documento fica em paz e de consciência tranquila em relação ao que possa ser feito em seu nome na escola.

Prosseguindo, o documento estabelece dois conjuntos de capacitações socioemocionais que merecem maior atenção: a disciplina e a cooperação.

“Disciplina inclui o poder de concentração nas tarefas da aprendizagem e, portanto, determinação de manter rotinas de trabalho, habilidade para hierarquizar as tarefas em ordem de importância e de premência, disposição para organizar o tempo e para tratar o futuro como presente, dedicação ao cumprimento dos compromissos e energia para reprimir distrações e tentações. No fundo existencial da disciplina está a aliança entre a ambição e a autoestima.”

(…) “Quando a família não consegue desempenhar esse papel, porém, a escola tem que assumir parte das tarefas da família. É a situação que se multiplica em grande escala no Brasil: nas periferias e nos bairros pobres de nossas cidades, mais da metade das famílias costuma ser conduzida por mãe sozinha, casada ou solteira. Revezam-se homens como companheiros instáveis. Esta mãe, pobre e geralmente negra ou mestiça, luta para zelar pelos filhos e para manter ao mesmo tempo emprego ou biscate.”

Isso, com os pobres. Mas:

“Num meio social organizado e livre de extremos da opressão e da desigualdade, lugar para aprender disciplina é em casa. A escola apenas completa o que a família começou.”

Esta reflexão é associada à ampliação do turno escolar. Para a SAE:

“Tem [a escola] que assumir parte das tarefas da família ao criar, na escola, espaço de estímulos e cobranças (Grifos meus LCF) em turno social ampliado. Esta é uma das principais razões para estender o turno escolar.”

Quanto à cooperação, o documento entende que:

“As práticas cooperativas representam porta para as formas superiores de aprendizagem e de produção. É o método do trabalho científico tanto quanto é, cada vez mais, a base de qualquer atividade produtiva densa em conhecimento (Grifos meus LCF). As formas mais avançadas da produção são aquelas que pedem ao trabalhador fazer tudo aquilo que ainda não aprendemos a repetir e que portanto não podemos delegar a máquinas. (…) Ensino analítico e capacitador só pode ser ensino cooperativo, organizado em forma de equipes e redes, de alunos e de professores.”

Esta vertente das políticas dos reformadores empresariais nunca aparece descolada da questão da disciplina e sem estar  associada a um certo moralismo. Recentemente, comentei este aspecto. Nos Estados Unidos a situação é mais clara com a instalação de um movimento chamado “no excuses” – “sem desculpas” ou ainda “tolerância zero”. Nas palavras de Diane Ravitch:

“… a origem do “No Excuses” pode ser atribuída a um livro do mesmo nome por Samuel Casey Carter, escrito em 2000, acerca de “21 escolas de alto desempenho e alta pobreza” e divulgado pela Heritage Foundation de extrema-direita. A ideia por trás do livro é que nós não precisamos gastar mais dinheiro para consertar as escolas, temos apenas que nos certificar de que as escolas sejam exigentes em sua disciplina e sem nenhum absurdo pedagógico.”

Associada a esta concepção está a teoria da disciplina chamada “broken Windows”. Foi introduzida pelos cientistas sociais James Q. Wilson and George L. Kelling, em um artigo chamado “Broken Windows” que apareceu em março de 1982 no The Atlantic Monthly. Eles faziam um paralelo com um edifício que, se ficasse com algumas poucas janelas quebradas, terminaria por estimular a que mais janelas fossem quebradas.

Isso aplicado à educação, gera uma mensagem bem clara para os estudantes e pais: tolerância zero com a indisciplina e com afazeres de casa. Leia-se: mais autoritarismo na escola e mais segregação. Além disso, o conservadorismo destas ideias tem enorme repercussão para a sala de aula, contribuindo para colocar a criança e os pais de joelhos perante a escola e o professor. Não há ensino “cooperativo” que controle tais consequências.

Quando esta questão das habilidades socioemocionais apareceu, foi impulsionada por uma ação da própria SAE que realizou um seminário incluindo fornecedoras de testes destas habilidades. Uma delas realiza no Rio tradução e prepara versão brasileira destes testes. A ideia de se utilizar testes de avaliação na educação infantil foi criticada também pela ANPED já naquela época. O manifesto pode ser lido aqui. É verdade que o documento da SAE não recomenda o uso dos testes socioemocionais formalmente, mas será o caminho natural.

Não estamos discordando de que a escola possa e até deva se envolver com habilidades socioemocionais. Mas novamente, o conjunto das medidas, a forma como ela aparece dentro de um contexto de cobrança das redes, das escolas e das famílias facilitará o desenvolvimento de processos de controle baseados em avaliações de larga escala, uso de testes e pressões sobre os professores, pais  e as crianças. A ambição da proposta é grande: além de querer “consertar as escolas” ela pretende também “consertar as crianças” mais pobres. Constituir-se-á em instrumento de aumento da discriminação e segregação.

Isso conduzirá as escolas a implementar um conservadorismo moral sobre professores e alunos, bem ao sabor dos tempos que estamos vivendo (redução de maioridade penal, liberação de compra de armas, terceirização de atividades fins etc.). E não vai se combater isso escrevendo nos documentos que não queremos que seja assim, porque todas estas ações estarão associadas a financiamento, a acesso a recursos, e é esta relação que instalará nas escolas os processos destinados a não perdê-lo, não importa por quais meios. A lei de Campbell agirá:

“Quanto mais qualquer indicador social quantitativo é utilizado para a tomada de decisões sociais, mais sujeito estará às pressões de corrupção e mais apto estará a distorcer e corromper os processos sociais que se pretende monitorar. . . quando os resultados dos testes se tornam o objetivo do processo de ensino, ambos perdem o seu valor como indicadores de status educacional e distorcem o processo educacional de maneira indesejável. “

(Continua no próximo post.)

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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