BNCC: como os objetivos serão rastreados

A Base Nacional Comum Curricular na política educacional do MEC tem a finalidade de promover tanto o controle da aprendizagem dos estudantes, como dos professores e da própria escola. Neste processo, o que é relevante para esta política é a geração dos chamados objetivos de aprendizagem (os chamados “direitos de aprendizagem”).

É pensando nesta finalidade, que a BNCC já nasce com seus objetivos escritos de uma determinada forma, bem como são “catalogados”. O esquema abaixo, retirado da versão III da BNCC, dá um exemplo de como os objetivos são planejados para fazer tal rastreamento de desempenho de professores, alunos e escolas.

BNCCcodigo

Este é o DNA de cada objetivo. Com esta codificação não há um só objetivo da BNCC que não possa ser avaliado e rastreado em escala nacional por avaliações censitárias como a Prova Brasil. Isso inclui habilidades socioemocionais.

Primeiro os objetivos serão convertidos em “descritores”, depois serão elaborados itens de teste de variados graus de dificuldade (pela teoria da resposta ao item) que serão pré-testados (calibração de itens). Os que passarem nos testes de campo, vão para um Banco de itens – aos milhares. Na época de avaliação, são escolhidos itens segundo certos critérios que formarão uma “prova”. Com o código acima (o DNA do objetivo) e o número do ítem usado, bem como os dados de aplicação nas escolas, todo este processo de produção mantém a identificação entre as respostas dos alunos aos itens de teste usados nas provas em uma determinada escola e os próprios objetivos da BNCC.

Para que as provas tenham validaProducaoTestesde comparativa, um certo número de itens de provas anteriores é utilizado nas provas dos anos seguintes, colocando o desempenho dos alunos que fizerem as provas em uma mesma escala (equalização).

Aplicadas e processadas, são emitidos relatórios e feitas análises.

É possível desagregar os dados de desempenho tanto por alunos, professores ou escolas, já que a avaliação que é feita é censitária, ou seja, atinge a todos. Valendo-se de tecnologia da teoria da resposta ao item (itens-âncora), são criadas as interpretações pedagógicas dos resultados da avaliação.

O efeito deste procedimento é a produção de um estreitamento curricular sobre a sala de aula, com os professores estudando exames anteriores para tentar identificar algum padrão ou procurando limitar os processos de aprendizagem a objetivos de aprendizagem estreitos e que podem ser treinados em simulados. Os professores, quando não a própria escola, passam a treinar as crianças para os testes. Neste blog, na página da Bibliografia, você encontrará estudos que mostram a instalação destes efeitos destrutivos da boa educação.

Atualmente já estão em uso no Brasil sistemas que permitem que o professor componha seus próprios simulados com sua turma, a partir de sistemas on line que fornecem os elementos acima para que o professor componha sua prova e faça simulação personalizada com suas turmas. Imagine como isso não vai desenvolver-se após a BNCC e como isso tomará a atenção e o tempo dos professores.

Em estágios mais avançados, estes processos de avaliação são “embarcados” em sistemas auto-instrutivos on line, usando tecnologia interativa, e o processo de avaliação passa a monitorar o ritmo e desenvolvimento do aluno, indicando materiais instrucionais (videos, filmes, materiais, etc. on line) que o aluno pode usar para “corrigir” sua “dificuldade de desempenho”.

Este desenvolvimento permite que os detentores destes “sistemas personalizados de aprendizagem” transformem as escolas públicas em uma atividade comercial baseada em “franquias” (tipo McDonalds) através de processos de terceirização de gestão (cadeias de escolas charters, p. ex.) e outros.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Estreitamento Curricular, Mendonça no Ministério, Meritocracia, Prova Brasil, Responsabilização/accountability e marcado , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para BNCC: como os objetivos serão rastreados

  1. João Silva disse:

    Prezado Prof. Dr. Freitas. Onde consigo o acesso à documentação oficial do BNCC? No site do MEC só encontrei documentação parcial, e nada específico sobre esse “dna”. Desde já agradeço. Att.

  2. Cecilia Goulart disse:

    Estamos cada vez mais sitiados… Esse “bolo” vem crescendo há muito tempo… agora com força total, bem fermentado! Obrigada, Luiz Carlos, por sua análise sempre cuidadosa, criteriosa, cirúrgica.

  3. Regina Carvalho disse:

    Nossa tristeza professor!!!! Quando lí esta matéria fiquei pensando no trabalho que se desenvolve na rede de ensino da qual eu faço parte. Mesmo sem a consolidação da versão final da Base, já realizamos este trabalho com foco no desempenho dos nossos alunos. Literalmente treinando os alunos para os testes. Me envergonho disto!! E não sei o que fazer, pois, temos que seguir as orientações prescritas.

  4. Arnaldo Lopes Siqueira disse:

    E pensar que caímos, educadores progressistas, no conto do vigário dos direitos de aprendizagem. O jargão e a discussão começou com o Haddad ainda no MEC, que foi dando corda para os grupos empresariais que foram se instalando lá.
    Aqui na Prefeitura de São Paulo, perdemos tempo, em discussões tolas, justificando a diferença entre direito de aprendizagem expectativa de aprendizagem. E entramos na onda na defesa de “um conjunto de saberes aos quais toda criança teria o direito de aprender, independente de onde nascesse”.
    Mas acho que não percebemos que, por trás da defesa de igualdade de resultados, o que estava a se criar era exatamente o que o prof Freitas vinha alertando e agora aí está.
    Nada contra um referencial, mas BNCC está longe disso.
    Assumo meu equívoco nessa questão.

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