O ponto sob exame neste post é a parte chamada “Mudar o paradigma curricular e pedagógico do ensino básico”. Sempre pensando que este blog está voltado para as questões relativas à avaliação educacional.
O trabalho pedagógico da escola, para Mandabeira, deve:
“A primazia deve caber sempre (Grifos meus LCF) às capacitações analíticas: interpretação e composição de texto e raciocínio lógico.”
Em seguida, propõe três desdobramentos:
“… a prioridade dada no currículo a aprofundamento seletivo; a atenção a capacitações analíticas; e o enfrentamento das inibições pré-cognitivas (comumente chamadas de socioemocionais) ao domínio das capacitações analíticas. São as capacitações de comportamento, sobretudo as de disciplina e de cooperação.”
Em primeiro lugar, com esta formatação, o documento impulsiona o estreitamento curricular em torno a disciplinas do tipo língua portuguesa, matemática e ciências. Temos aqui, consequências nefastas para a formação de nossa juventude.
Falo do que a literatura já registra sob a rubrica de “estreitamento curricular”. Ao tornar a natureza de algumas disciplinas de forma prioritária e consequentemente como objeto de avaliação externa, a escola passa a orientar-se pelos ganhos nestas disciplinas e, portanto, prioriza a atuação dos professores destas disciplinas. Em uma das rede de ensino no Estado de São Paulo, chega-se ao extremo de usar o tempo das outras disciplinas para dar continuidade ao estudo de língua portuguesa e matemática, sonegando ao estudante formação nestas disciplinas. A fraude continua quando as notsa das outras disciplinas sonegadas são dadas a partir do envolvimento do aluno em língua portuguesa e matemática.
Mas não é um fenômeno local. O leitor interessado pode consultar neste blog a tag “estreitamento curricular” e também encontrará material na página Bibliografia.
Mas certamente é isso mesmo que o documento quer. Conheço muitos reformadores empresariais que defendem tal primazia, com o mesmo jargão da “libertação dos estudantes” mais pobres pelo caminho do domínio da leitura. Para estes, se for bem em língua portuguesa e matemática, ele irá bem nas outras também.
Todos sabemos que no mundo empresarial, o que define hoje a permanência no mercado é a inovação. Empresas que não inovam, sairão do mercado. Inovação supõe habilidades ligadas à inventividade, à criatividade que não são desenvolvidas nas crianças a partir de capacitações analíticas. E muito menos colocando em cena uma ação junto a habilidades socioemocionais voltadas para a disciplina. A inventividade supõe o oposto, a capacidade de quebrar a disciplina, de quebrar o senso comum. Supõe alguma capacidade de “navegar contra a corrente” e não adaptar-se ao existente. Aqui, curiosamente, o experimentalismo de Mangabeira acaba para dar lugar ao disciplinamento.
Ao focar nas capacidades analíticas que associam-se aos exames em língua portuguesa, matemática e ciências, disciplinas outras como “artes” e “desenvolvimento corporal” são retiradas do cenário de atenção. E são exatamente tais disciplinas que servem de contraponto, no atual formato de nossa escola – tão criticada por Mangabeira – e podem apoiar o desenvolvimento da inventividade logo na educação infantil e na fundamental.
Mais: o estreitamento curricular em capacidades analíticas, conduz a uma pressão claramente visível, em países que seguiram este caminho, sobre a educação infantil levando esta a uma antecipação da escolarização. Ora, é exatamente na educação infantil que a criança está em condições de ser ainda exercitada na direção da inventividade, para a criação. A antecipação da escolarização que pode ser vista nos Estados Unidos, de onde Mangabeira tira tais ideias, matou a função formativa da educação infantil a tal ponto que o material didático destinado a jogos e a brincadeiras nas escolas está desaparecendo.
Mas vejamos os desdobramentos feitos pelo documento.
O primeiro desdobramento é chamado de “aprofundamento seletivo”. Depois de criticar o “enciclopedismo raso” do nosso sistema educacional, o documento propõe o que podemos chamar de uma diversidade desestruturante e experimentalista que pode ser resumido na seguinte frase:
“Em sistema de ensino como o que nos propomos a construir, que organize a diversidade e que privilegie as capacitações, de análise e de comportamento, não pode haver conteúdos consagrados. O que vale é a profundidade. O aprofundamento seletivo é o terreno para o domínio das capacitações analíticas. O foco temático do aprofundamento pode e deve ser mutável ou itinerante: a capacitação se fortalece à medida que variam seus campos de aplicação. Os projetos tomam o lugar do enciclopedismo canônico, mesmo quando o enciclopedismo bate em retirada rumo a conhecimentos tidos como indispensáveis.”
Ou seja, estamos de volta à escola nova. Certamente daí vem a inspiração para chamar as escolas de referência a serem criadas na proposta de Escolas Anísio Teixeira. O novo pragmatismo americano, aqui, presta sua homenagem ao velho pragmatismo americano dos anos 20, cujo líder pragmatista máximo à época era John Dewey e cujo correlato nos tempos atuais é Richard Rorty.
Mas o que não encaixa é exatamente este experimentalismo anti-conteudista com a ênfase nos testes de avaliação. Ou melhor, encaixa sim: uma diluição de conteúdos associada à ênfase em testes, produz segregação de estudantes em base ao desempenho escolar, permitindo a “escolha dos eleitos”. E isso explica o significado do ponto que se seguirá no documento e que trataremos no próximo post, ou seja, a igualdade de oportunidades liberal.
(Continua no próximo post.)