Supremacia Charter: não desta vez – II

Continuando o post anterior, este é mais um estudo que mostra como continua não havendo justificativa para se usar a receita das escolas charters para se elaborar política pública como pretendem os estados de Goiás e Pará. Na verdade, a implantação destas charters é apenas uma forma de promover a abertura de mercado educacional e demonstrar fé na iniciativa privada.

O dinheiro que deveria ser aplicado na melhoria da escola pública, vai sendo desviado para o bolso das operadoras charters. Isso sim, prejudica a qualidade da escola pública e vai tornando-a pior, asfixiada, alimentando o ciclo vicioso da aplicação de receitas salvadoras como as escolas charters. Retirar dinheiro da escola pública para financiar operadoras charters não vai melhorar a escola pública, ao contrário, vai piorá-la. Ao mesmo tempo, como os dados mostram, as charters não vão melhorar a qualidade da educação, pois as diferenças obtidas em relação às escolas públicas regulares são pífias. Quem ganha com isso? A iniciativa privada que embolsa recursos públicos e empobrece as escolas públicas, diminui sua qualidade e com isso justifica mais mercado educacional.

Mais um estudo divulgado pelo Center for Research on Education Outcomes (CREDO) em 2015 e que analisa a qualidade das escolas charters americanas em 41 regiões de 22 estados americanos mostra isso.

O estudo procura verificar se as escolas charters urbanas têm algum diferencial de qualidade face às localizadas em regiões não urbanas e compará-las com o desempenho das escolas públicas regulares americanas. O CREDO, organismo que desenvolve o estudo, não é contra as charters e está baseado na Universidade de Stanford.

Os resultados foram divulgados e resumidos da seguinte forma pelos autores:

“1. Nossos resultados mostram que as escolas charters urbanas no conjunto fornecem níveis significativamente mais elevados de crescimento anual em matemática e leitura, comparativamente aos seus pares TPS [escolas públicas regulares]. Especificamente, os alunos matriculados em escolas charter urbanas apresentam 0,055 desvios padrões maior de crescimento (SD) em matemática e 0,039 maior de crescimento na leitura por ano, do que os seus pares correlacionados nas TPS [escolas públicas regulares]. Estes resultados se traduzem em que os estudantes de charter urbanas tiveram o equivalente a cerca de 40 dias de aprendizagem adicional por ano em matemática e 28 dias adicionais de aprendizagem por ano em leitura.”

Note a diferença nos desempenhos: 0,055 e 0,039 desvios padrão. Isso é muito pouco resultado para muito barulho, como aponta a revisão do estudo feito pelo NEPC:

“Mas, independentemente de preocupações sobre a metodologia, Maul salienta, “os tamanhos do efeito real reportado são muito pequenos, explicando bem menos de um décimo de um por cento da variância nos resultados dos testes.” (grifos meus LCF). O tamanho do efeito relatado, por exemplo, pode simplesmente refletir “exclusão de alguns alunos de baixo desempenho feita pelos pesquisadores em sua análise.”

Isso já havia sido apontado pelo mesmo revisor ao rever o estudo do CREDO também para Michigan em 2013 quando as charters tiveram uma diferença de 0,06 desvios padrão sobre as escolas públicas regulares.

O estudo de 2015 do CREDO continua dizendo que:

“2. Quando os ganhos de aprendizagem para os alunos das charter urbanas são apresentados por regiões urbanas individualmente, as regiões com maiores ganhos de aprendizagem em escolas charter superam na proporção de dois para um aquelas de menor aprendizagem. Em matemática, 26 regiões urbanas registram ganhos de aprendizagem para os alunos da escola charter que ultrapassam os seus homólogos TPS. Escolas charters em 11 áreas urbanas têm ganhos de matemática menores, e quatro regiões têm ganhos de aprendizagem equivalentes em matemática. Na leitura, os alunos da escola charter em 23 das 41 regiões demonstram ganhos de aprendizagem maiores do que os seus pares TPS, enquanto que 10 regiões têm ganhos menores. As escolas charters em oito regiões têm ganhos de aprendizagem dos estudantes semelhantes em leitura em comparação com seus pares TPS.”

Ou seja: em matemática – 26 regiões têm aqueles pequenos ganhos mencionados anteriormente em 1 e, somadas as outras duas situações nas demais regiões (quem têm rendimento igual às TPS ou abaixo delas) temos 15 regiões que não melhoraram ou até pioraram. Em leitura, são 23 contra 18 regiões. O resultado continua fraco para justificar política pública.

As demais análises incluídas no relatório, acabam sendo prejudicadas pelos limites anteriormente indicados pelo estudo.

Mas há mais. Há a questão metodológica, que é muito mais relevante do que as quantidades apresentadas, porque diz respeito à própria montagem das comparações. Sobre isso o revisor aponta que:

“A avaliação de Maul, no entanto, explica as “razões significativas da cautela.”

Na sua análise, o CREDO usou novamente a sua própria e incomum técnica de pesquisa que tenta simular um experimento controlado: construir “gêmeos virtuais” para cada aluno charter. Os “gêmeos” foram obtidos pela média do desempenho de até sete outros estudantes, escolhida para coincidir (to match) com os alunos charter baseando-se em dados demográficos, pobreza e status de educação especial, série, e pontuação de um ano antes no teste padronizado.

Maul aponta que a técnica não está adequadamente documentada. Ele acrescenta: “Permanece pouco claro e é intrigante que os pesquisadores usem essa abordagem em vez da abordagem mais aceita da correspondência de pontuações [propensity score matching] “. A técnica CREDO, ele adverte, pode não controlar adequadamente as diferenças entre as famílias que escolhem e aquelas que não escolhem uma escola charter.

O estudo do CREDO também fracassa ao justificar escolhas tais como a estimativa de crescimento e o uso de “dias de aprendizagem” como uma métrica.”

Baixe a revisão feita por Andrew Maul, do NEPC, aqui. Baixe o estudo original do CREDO: Urban Charter School Study Report on 41 regions – 2015, aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Escolas Charters, Links para pesquisas, Privatização, Responsabilização/accountability e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Supremacia Charter: não desta vez – II

  1. vale tudo gil? disse:

    Interessante o título. Parece aqueles filmes do Matt Damon… No aguardo da continuação O Ultimato Charter..

  2. Marlon disse:

    Ótima sequência de artigos! Sou professor da educação básica na Bahia, fui seu aluno e desde que descobri este blog acompanho suas publicações.. Seus textos são referencia para discussões em HTPC.
    Muito obrigado professor!

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