MT: adeus ao educador? – final

Continuação do post anterior.

As ações que estão em curso nos estados, municípios e agora no governo federal, com o apoio da mídia, procuram criar no Brasil o “caldo” necessário para que as leis de mercado assumam o controle da gestão e do processo pedagógico das escolas. O conservadorismo virá junto. O neoliberalismo é uma junção política de forças conservadores e liberais.

A mídia e o Todos pela Educação, coadjuvantes deste processo, procuram apoiar jogando a formação de educadores no limbo da preparação rápida e pragmática para a “sala de aula”. Um neotecnicismo emerge com força neste processo e abre caminho para enfoques como os da Ensina Brasil, visto no post anterior.

Trata-se de difundir a ideia de que a formação teórica dos educadores atrapalha e que um pragmatismo nos cursos de formação de educadores é o caminho para se resolver o problema da qualidade da educação. No entanto, o objetivo deste enfoque é mais ambicioso: trata-se de desprofissionalizar o educador/professor, na contramão do que já havíamos aprendido nos anos 80, ou seja, que “o professor se forma no educador” e o “especialista se forma no professor”.

Estudo da ONG Todos pela Educação é apresentado na mídia (17-5-16) para justificar a redução da teoria na formação dos educadores.

“Os professores da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental que lecionam na rede pública têm melhor formação teórica do que seus pares das escolas privadas. Isso vale para duas métricas: percentual de docentes com ensino superior completo e com currículo adequado ao que a lei determina.

Formação universitária apropriada para lecionar no Brasil, porém, não é garantia de qualidade. O excesso de teoria nos cursos de pedagogia e licenciatura e a distância com a realidade escolar podem prejudicar o ensino.”

Se o pragmatismo de uma formação aligeirada, como a que dizem vigorar em maior proporção nas escolas privadas, fosse melhor para a educação, tais escolas privadas deveriam ser melhores que as públicas. Mas sabemos que as escolas privadas, quando são melhores, devem isso ao maior nível sócio-econômico de seus “clientes” e não, em geral, a uma atuação diferenciada de seus professores.

Segundo Fernando Abrucio, da FGV, em estudo para o movimento Todos pela Educação:

“Quem fez pedagogia no país estudou sobre educação, mas não é um profissional preparado para enfrentar a sala de aula. O mesmo vale para as licenciaturas”, diz Alejandra Velasco, superintendente da entidade.”

Esta afirmação é de quem não entende nada de formação de educadores e do exercício da profissão, pois sabemos que um professor recém formado necessita de 3 a 4 anos para desenvolver um “estilo profissional” próprio. Para tal existem processos de acompanhamento destes profissionais, como a residência pedagógica, que cumprem este papel. Não é assim com os médicos? Portanto, não existe esta estória de que a pedagogia ou a licenciatura coloquem no mercado um “profissional preparado para enfrentar a sala de aula”. Isso se adquire com boa formação teórica, com a prática (durante o curso e no início de carreira) e com formação continuada, entre outros fatores.

Concluir que a formação teórica atrapalha, sem examinar as demais variáveis que afetam uma boa educação nas escolas, é “junk science”. Mais do que isso, não defender a formação teórica de qualidade (inclusive culturalmente ampla), ficando apenas no jargão da formação centrada em técnicas profissionais, é mais do que “junk science”, é atraso cultural. Infelizmente, há indícios de que a base nacional da formação de professores em curso na SEB do MEC, vai por este mesmo caminho.

Colocada de forma isolada, a crítica à boa formação teórica dos educadores somente se presta a um discurso que prepara a tese da desprofissionalização. E as ONGs que estão se preparando para gerir as escolas nos processos de privatização por terceirização de gestão (como em Goiás e em Mato Grosso) vão precisar de “professores” que tenham como foco garantir metas numéricas e seguir manuais (impressos ou on line). Para isso, as ONGs não precisarão de formação teórica, mas de profissionais obedientes e que ganhem pouco.

É isso que está em jogo: desprofissionalizar, aligeirar a formação para aumentar a oferta de profissionais e derrubar salários, formando “profissionais” obedientes que não tenham formação adequada para questionar os processos de ensino e que preferencialmente não pensem sobre seu trabalho.

Para entender porque a Folha de São Paulo publicou esta matéria no dia 17-5-17, leia o Editorial da Folha de ontem, 18-5-16. Diz:

“Além disso, o elo consagrado entre qualificação docente e qualidade de ensino pressupõe que a capacitação ofertada nas faculdades de pedagogia seja eficaz. Ou seja, que efetivamente preparem os bacharéis e licenciados para serem bons professores em sala de aula.

Não é essa a realidade, lamentavelmente. Como ressaltou no relatório artigo de Fernando Abrucio, da FGV, elas dão muito mais ênfase a teorias educacionais do que à didática propriamente dita —vale dizer, às competências e ferramentas úteis na realidade da classe.”

A imprensa e a ONG Todos pela Educação abrem caminho para as ideias que destruirão a formação de educadores e justificarão toda sorte de reducionismos da formação do educador às técnicas didáticas de sala de aula, ou a “agentes de transformação” ocasionais. O Mato Grosso, com certeza, esta sendo pioneiro na implementação deste reducionismo. Pelo que já fez este Estado pela educação do Brasil e por ele mesmo, não merecia ser o pioneiro na destruição da formação do educador e da escola pública.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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