Reaprender, com a direita, a luta de classes?

No Fórum Econômico Mundial discute-se o “futuro do trabalho” e se chega à conclusão de que:

“Nada será como antes no mundo das carreiras. Até 2020, 35% das habilidades mais procuradas hoje na maioria das ocupações vão mudar completamente por conta de avanços tecnológicos e fatores socioeconômicos, segundo o relatório “O Futuro do Trabalho”, do Fórum Econômico Mundial.

Entre as capacidades profissionais que serão mais buscadas nos próximos anos estão a inteligência emocional, o pensamento crítico, a empatia e a criatividade, é claro.”

Mais ainda:

“A economia criativa – entendida como mix de cultura, artes, economia e tecnologia ou, ainda, como o conjunto de atividades capazes de gerar mais valor agregado a um produto ou serviço – está em expansão rápida.”

Leia mais aqui.

Poderíamos chegar facilmente à conclusão de que a MP 746 do ensino médio está na contramão desta tendência moderna. Mas, isso é apenas parte da questão. Esta necessidade de mais “pessoal criativo e crítico” só aparentemente está em contradição com o que o governo Temer está fazendo com o ensino médio, ao declarar optativas disciplinas como artes, filosofia, sociologia entre outras disciplinas.

A razão é que para esta lógica da “economia criativa” é prudente que apenas uma parte da força de trabalho seja criativa e crítica. Tais habilidades devem ser distribuídas moderadamente e sob o mais estrito controle ideológico. Os demais, devem ser mesmo bons e obedientes “seguidores” – possuidores, no máximo, de “habilidades socioemocionais” adequadas, entre elas, a capacidade de submeter-se. Além disso, a criatividade, em especial, estará disponível a “preços módicos” nas grandes cadeias produtivas internacionais que monopolizam a produção de conhecimento, tal como indica o Fórum Econômico Mundial.

É isso que a MP impõe: formar uma pequena elite criativa (de fato mais adaptativa do que criativa) e uma grande massa emburrecida com capacidade suficiente apenas para seguir ordens e “fazer” bem feito aquilo que outros criarem. Uma atualização do “exército de reserva” do qual o capital faz uso para reduzir salário médio, exército que agora está imerso no desemprego estrutural, mas que tem que estar sempre a postos quando é chamado – devidamente certificado pelo ENEM (no âmbito nacional) e pelo PISA (no âmbito internacional).

É assim que Mangabeira Unger também via a sua “pátria educadora” e propunha retirar os “melhores” do fluxo normal do ensino médio colocando-os nas Escolas Federais Anísio Teixeira de ensino médio. O mesmo é feito agora com as trilhas de progressão diferenciadas da MP: cria-se uma espécie de “fast track”, uma linha rápida de evolução para uma pequena elite criativa e crítica (sob controle ideológico da escola sem partido) que cresce livre da companhia indesejável da massa “atrasada”.

É o método direto de alinhamento da escola às necessidades do mundo do trabalho aprofundando a dualidade do sistema educacional e alimentando a divisão do trabalho, acobertando tudo isso no discurso de “atender às necessidades e interesses dos próprios jovens que acham a escola aborrecida”.

Condenar a maioria dos jovens a trilhas escolares que sejam um local de vivência permanente do trabalho produtivo (tendo no nosso caso como trilha alternativa a irrelevância de profissões menos valorizadas ou monótonas) e ainda mais com especialização prévia, como diria Krupskaya, teórica russa, é “tirar o nervo vital da escola”.

Todos estes acontecimentos recentes devem nos lembrar que durante os últimos anos, parte da esquerda aderiu à tese do fim da luta de classes. Ironicamente, a esquerda agora está tendo que reaprender rapidamente com a direita como se faz luta de classes. E é luta de gente grande. Alimentando ilusões, a esquerda se desarmou com noções equivocadas da “teoria das brechas” dita gramsciana, que para alguns não era senão uma forma elegante de fugir da noção de luta de classes, para um “lugar social confortável”. Deixou de cuidar da articulação com os movimentos sociais.

Pois bem, ei-la de novo à nossa frente. Posta agora pela direita radical.

Juntamente com termos descartado antecipadamente a luta de classes, caímos também no “conto” bem contado pela direita do fim da divisão entre “direita e esquerda”. Alguns chegaram até mesmo a propor o “fim da história”. Nada disso existiria mais. Sem contar a versão “cristã” de que os avanços se propagariam pelas micro-lutas cotidianas de cada um, ou ainda pelas “descontinuidades discursivas”. Daí a surpresa de muitos com a recente “polarização” sob comando da direita.

Tudo isso nos desarmou. Talvez o grande ensinamento da era Lula seja que o ganha-ganha que ele exercitou no âmbito sindical, não é transferível para o âmbito da sociedade onde o bem-estar de uma classe que ganha milhões de dólares (por hora) como rentista, se beneficia da exploração de quem vive de salário e de alguns “benefícios” que, segundo os primeiros, estão agora “quebrando” os países. Eis o fundamento da luta de classes que não pode ser “cancelado” por um ato de vontade dos governantes ou líderes políticos. Quando postergado, cobra juros e correção monetária.

Nos últimos anos, a direita está fazendo aquilo que se dizia que não funcionava mais: está mobilizando suas bases mais jovens para promover uma feroz luta de classes e firmar seu controle político e ideológico sobre os variados aparatos de controle social (do governo até as escolas). A privatização é uma das armas de seu arsenal: ao mesmo tempo que abre mercado para os processos de financeirização que penetram em todas as áreas da economia, constitui um poderoso instrumento de controle político e ideológico da gestão e do processo pedagógico.

Fundações e institutos privados dedicam-se a financiar a ida de jovens para as mecas liberais onde são preparados e formados para defender as ideias do livre-mercado. A esquerda está surpresa. Antigamente, ela foi acusada de mandar seus jovens estudar em Cuba ou na Rússia. Hoje a direita forma seus líderes políticos em países de tradição de livre mercado e os devolve para a luta política e ideológica, para incrementar a luta de classes.

Talvez a direita esteja presciente de que se aproxima um período de resolução de conflitos por métodos de alto poder destrutivo em escala mundial e que, para tal, necessita ampliar a qualquer custo seu controle econômico, militar, político e ideológico na maior parte do mundo, a partir de uma geopolítica de guerra. Desde a década de 1970, a hegemonia cambaleante dos Estados Unidos agoniza produzindo efeitos ao redor do mundo. A financeirização atingiu seu mais alto e possivelmente derradeiro grau, com os episódios de 2008 – a quebradeira geral. Mais financeirização, mais degradação. O sistema capitalista emite grau elevado de alerta. Os defensores da “destruição criativa” estão a postos.

Uma vez ouvi de um líder de esquerda, que devíamos aprender com a direita a fazer eleições. Penso que talvez possa dizer, então, que, agora, devemos reaprender com a mesma direita a fazer luta de classes. E antes que algum promotor queira me processar por apologia à violência, em tempos de golpe e insegurança jurídica, nunca está demais dizer que deixei em aberto as formas pelas quais se deve dar esta luta de classes.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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Uma resposta para Reaprender, com a direita, a luta de classes?

  1. Alex de Oliveira Fernandes disse:

    sensacional!

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