“Pluralismo oportunista” de mão única

Um jornal da minha cidade, Campinas (SP), comenta em seu editorial o curso sobre o Golpe de 2016 que o IFCH da UNICAMP irá oferecer. Impedido de questionar o próprio curso, pois revelaria obscurantismo e desconhecimento da autonomia universitária, o jornal escolhe outro flanco para questionar: indaga se haverá pluralidade na disciplina para analisar também a corrupção dos anos do PT e advoga que o curso poderia ser dado desde que fosse plural.

Não vejo nenhum problema em atender a demanda do jornal. A dialética é sempre bem-vinda. Mas vamos combinar que isso não vai valer somente para esta disciplina, mas que será usado sempre. Isso significa, para dar um exemplo, que quando se falar em capitalismo, também falaremos – para preservar a pluralidade – de socialismo; que quando ensinarmos os clássicos do liberalismo, ensinaremos também os clássicos do socialismo, etc. sem que isso seja considerado “incitação à violência de classe”. Até porque o entendimento do liberalismo facilita o entendimento do socialismo e vice-versa.

Há outra possibilidade no caso em questão: os professores que pensam como o jornal, por exemplo, podem se organizar para propor uma disciplina só sobre a corrupção do PT, paralelamente ao curso do Golpe. Não se tratando de curso obrigatório no currículo dos estudantes, estes podem escolher livremente qual das disciplinas realizar, ou até mesmo, fazer as duas. Esta é a graça da liberdade de cátedra e da autonomia universitária.

O fato é que a argumentação do jornal esconde o radicalismo da nova direita que se desenvolve no Brasil. As instituições advogam cotidianamente, por inércia, a favor do sistema social vigente e de suas regras. Professores de economia ensinam nas Universidades que a reforma da previdência é necessária para o país não quebrar, sem apresentar argumentos opostos à tese. Outros advogam que a Base Nacional Comum Curricular, que padroniza a educação de norte a sul do país autoritariamente, é uma medida adequada para colocar a educação no rumo certo. Os argumentos contraditórios não são apresentados. Juristas ensinam nos cursos de direito que não houve golpe em 2016. Mas tudo isso não causa nenhum espanto. Ninguém vai verificar se o contraditório esteve presente. Mas um pequeno espaço que se abre para o contraditório, é visto como ameaça e cerceado imediatamente. Sempre que se fala a favor das teses de direita, isso é tido como “normal”. O oposto é denunciado.

Esta é a falácia do movimento Escola Sem Partido que prega o não pluralismo na escola, através da “retirada” da política para que suas teses (igualmente políticas) reinem por inércia sem contestação. A direita teme o contraditório. O jornal deveria gastar mais tempo em ensinar à direita a necessidade de que ela seja plural.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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