Filosofia prejudica matemática? Estudo inglês diz que não

Recentemente a Folha de São Paulo repercutiu um estudo não publicado do IPEA, um órgão governamental, concluindo que a introdução obrigatória de Filosofia e Sociologia no ensino médio derruba as notas de matemática. Como dissemos, é preciso esperar a publicação da pesquisa do IPEA e ver se foi feita uma avaliação independente dos métodos e conclusões da pesquisa.

Mas circula pelas redes um estudo divulgado pelo Jornal Gazeta do Povo em 2016 que aponta, para crianças menores ainda, um resultado oposto ao do estudo brasileiro não publicado. A pesquisa foi feita na Inglaterra e pode ser acessada aqui. O estudo mostra impacto positivo da introdução da Filosofia e inclusive para os estudantes mais desfavorecidos. Sugere, também, sua incorporação regular no currículo.

Por que esta pesquisa inglesa pode ser levada em conta e a brasileira ainda não?

Primeiro, porque já está disponível para exame. Segundo, financiada por uma ONG, a Education Endowment Foundation, teve-se o cuidado de encomendar avaliação independente da pesquisa por uma equipe competente.

Como foi feita esta avaliação independente está descrito em seu relatório. Diz:

“O projeto foi avaliado de forma independente por uma equipe da Durham University, liderada pelo professor Stephen Gorard. Stephen Gorard é professor de Educação e Bem-Estar e membro do Wolfson Research Institute da Durham University. Ele é especialista em métodos do Instituto de Ciências da Educação do governo dos EUA, membro do painel de concessão de subsídios do ESRC e acadêmico da Academia de Ciências Sociais.

Seu trabalho diz respeito à avaliação robusta da educação como um processo vitalício, focado em questões de eqüidade e eficácia. Ele regularmente aconselha governos e outros formuladores de políticas, incluindo conselhos orais e escritos ao Comitê de Educação da Câmara dos Comuns todos os anos desde 2003. Ele também é um metodologista amplamente lido e citado, envolvido em atividades de capacitação internacional e regional, e usado regularmente como consultor na elaboração de avaliações por governos centrais e locais, ONGs e instituições de caridade. Atualmente, é avaliador da Direção Geral de Educação e Cultura da Comissão Européia, do Departamento de Trabalho e Pensões, da Agência de Padrões Alimentares, do Serviço de Informações sobre Aprendizagem e Habilidades e da Fundação de Dotação Educacional. Ele é autor de quase 1.000 livros e artigos.”

Não há portanto uma produção intra-corporis sem revisão de pares externos competentes. Quando um artigo é publicado em uma revista conceituada ele automaticamente é revisado, para ser aceito para publicação, por outros dois colegas independentes que o aprovam ou não. Mas quando é feito por ONGs ou instituições governamentais, nem sempre passa por revisão de pares. Ter avaliação independente é o primeiro sinal de que o trabalho foi sério.

Temos alertado neste blog para a necessidade de que se constituam nas universidades grupos de pesquisadores dedicados a revisar a produção das ONGs e institutos governamentais, pois tendem a fazer estudos sem avaliação independente. E como têm acesso direto à imprensa, divulgam resultados nem sempre consistentes.

Do que tratou o estudo inglês? Pode-se ler no relatório:

“Filosofia para Crianças (P4C) é uma abordagem de ensino em que os alunos participam de diálogos em grupo focados em questões filosóficas. Os diálogos são motivados por um estímulo (por exemplo, uma história ou um vídeo) e são baseados em um conceito como “verdade”, “justiça” ou “intimidação”. O objetivo do P4C é ajudar as crianças a se tornarem mais dispostas e capazes de fazer perguntas, construir argumentos e participar de discussões fundamentadas.

O principal objetivo desta avaliação foi avaliar se um ano de instrução com P4C para os alunos nos anos 4 e 5 levaria a um maior rendimento acadêmico em termos de matemática, leitura e escrita. O projeto também avaliou se a instrução com P4C teve um impacto nos resultados do Teste de Habilidades Cognitivas.

A avaliação decorreu de janeiro a dezembro de 2013. Os professores foram formados na abordagem P4C pela Sociedade para o Avanço da Investigação e Reflexão Filosófica na Educação (SAPERE). Em média, os alunos recebiam um período de P4C por semana, embora isso variasse entre as escolas. Um total de 48 escolas em uma ampla gama de geografias inglesas participaram. Embora essas escolas fossem, em muitos aspectos, diversas, como um todo, elas tinham níveis acima da média de alunos desfavorecidos.

O projeto foi entregue pela SAPERE, financiado pela Education Endowment Foundation, e avaliado de forma independente por uma equipe da Durham University.”

Quais foram os resultados apontados pelo estudo?

“• A avaliação encontrou evidências de que a abordagem P4C teve um impacto positivo no progresso do Key Stage 2 (KS2) dos alunos em leitura e matemática. Isso é significativo, pois o P4C não estava focado explicitamente na melhoria dos resultados do KS2, mas conseguiu elevar a matemática e a obtenção de leitura em relação aos “níveis usuais”.
• Também é importante notar que os ganhos no KS2 foram maiores em todas as disciplinas para os alunos elegíveis para refeições escolares gratuitas (FSM) [menos favorecidos].
• Os resultados do Teste de Habilidades Cognitivas (CAT) mostraram resultados mistos. Os alunos que iniciaram o programa no Ano 5 mostraram um impacto positivo, mas aqueles que começaram no Ano 4 não mostraram evidência de benefício. Em conjunto, os resultados sugeriram que o P4C resultou em uma pequena melhora nos escores do CAT; no entanto, isso deve ser tratado com cautela. Os alunos elegíveis para FSM não pareceram beneficiar em comparação com um grupo de comparação de alunos elegíveis para FSM que receberam aulas normais em vez de P4C.
• Todo o ganho nas pontuações CAT provém da sub-escala verbal. Houve muito pouca diferença entre os grupos de tratamento e controle em termos de elementos quantitativos, não verbais e espaciais do CAT.
• A duração do programa – que expôs alunos ao P4C por pouco menos de um ano – pode não ter sido suficiente para que o impacto total do P4C fosse sentido. Pesquisas anteriores no Reino Unido, nas quais foram encontrados maiores tamanhos de efeito, foram examinadas em um período de 16 meses (ver Topping e Trickey, 2007).
• Não houve evidência de melhoria no Key Stage 2 para a escrita. Isso não foi uma surpresa, já que o programa não envolveu habilidades de escrita. Vale a pena notar que os resultados de escrita dos alunos do P4C melhoraram pelo menos tanto quanto os dos alunos que receberam aulas normais.
• Os professores relataram que o sucesso geral da intervenção dependia da incorporação regular do P4C no horário ou havia o risco de que o programa fosse afetado por atividades que pareçam abranger mais diretamente o currículo nacional.
• O feedback de professores e alunos também sugeriu a crença de que o P4C teve um impacto benéfico em resultados mais amplos, como a confiança dos alunos para falar, a paciência ao ouvir os outros e a auto-estima. Alguns professores também perceberam que o P4C teve um impacto positivo no engajamento geral em sala de aula e pode ter resultado em alguns alunos fazendo mais perguntas em todas as aulas.
• Estes e outros resultados mais amplos são o foco de uma avaliação separada pela Universidade de Durham (veja http://www.nuffieldfoundation.org/non-cognitive-impacts-philosophy-children ).”

Aguardemos pelo estudo do IPEA para ver sua consistência. Mas já temos aqui um contraponto importante que nos alerta para que não devemos assumir, até análise independente, os resultados divulgados pela Folha de São Paulo.

Acesse o relatório do estudo inglês aqui.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Filosofia prejudica matemática? Estudo inglês diz que não

  1. Romeu Augusto de A. Bezerra disse:

    Pelo esclarecimento de um dos autores já dá para perceber o percurso metodológico da “pesquisa”. Esta pode ser acessada no link: https://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/consideracoes-sobre-a-inclusao-das-disciplinas-filosofia-e-sociologia-no-desempenho-dos-alunos/

    • O autor reclama que não está sendo contestado academicamente e sim politicamente, no entanto, ele mesmo provocou isso ao divulgar resultados que não estão disponíveis para análise de sua metodologia e conclusões. Na própria resposta o autor não coloca um link para o seu trabalho. Abraço. Luiz

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