Os liberais estão brincando com fogo…

A movimentação da base de Bolsonaro no dia 26 passado assustou a direita liberal que é representada pelo DEM (Democratas) de Maia, ACM Neto e Alcolumbre. Maia tem hoje fortes conexões com o chamado centrão, portanto, não está representando apenas o DEM no pacto. Ele irá, agora que os termos estão “palavrados”, reunir-se com os lideres destes partidos para chegar ao acordo “por escrito” que deverá ser firmado até dia 10 de junho.

Hoje, os liberais se reuniram com Bolsonaro (um conservador autoritário) para acertar a pauta econômica (as chamadas reformas econômicas, entre elas Previdência, Tributária, Desburocratização, etc.). O grave é que isso ocorre após as manifestações do dia 26, convocadas por Bolsonaro, reforçando a ideia de que atacando as instituições, elas cedem a seus desejos.

A direita liberal revela com este ato que está em crise e amarelou, correndo para a negociação. Com isso, contrai uma dívida com o povo brasileiro, pois tais reformas vão colocar os que mais precisam em situação mais desesperadora – dando ou não certo. Se der certo, é o paraíso para o andar de cima, da elites, e um desastre para o andar de baixo. Se não der certo, é um desastre para os dois andares. A partir de agora, o governo Bolsonaro tem formalizada uma aliança com os liberais (inclusive o STF) no que diz respeito à pauta econômica. A pauta de costumes, não foi objeto de discussão. Todos são, agora, co-responsáveis pelo desastre.

Dado o comportamento errático do presidente, é preciso esperar para ver quanto dura este arranjo, mas penso que como o acordo foi firmado sob os olhos dos militares (estava lá o General Heleno), ele tende a durar – até porque a pauta econômica dos liberais é a mesma dos neoliberais no governo.

Liberais, neoliberais e conservadores se juntam porque o sistema está em crise e em uma encruzilhada: ou arrocham os trabalhadores, ou derrubam as taxas de acumulação de riqueza das elites. Desde 1970 o sistema histórico capitalista está operando no modo “dane-se”, numa tentativa de recuperar tais taxas a qualquer preço.

Estas forças políticas estão selando, hoje, um acordo que deverá ser lembrado no futuro, quando a conta chegar para os trabalhadores. E se a economia internacional patinar no próximo ano, como alguns economistas estão alertando, então teremos algo mais grave.

Mas o mais importante é registrar que foi após uma manifestação convocada com ares de autoritarismo para encurralar as instituições que os liberais sentaram à mesa para formular um pacto. Isso significa que, no futuro, ante quaisquer divergências, Bolsonaro acionará suas bases contra tais instituições para produzir novos pactos (contra as instituições).

Na negociação de hoje, os liberais negociaram a própria democracia liberal. Estamos brincando com fogo.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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2 respostas para Os liberais estão brincando com fogo…

  1. Pablo disse:

    Olá parabéns pelo artigo. Eu gostaria de mais referências bibliográficas para entender melhor as causas e o desenvolvimento da seguinte afirmação feita no texto: “Desde 1970 o sistema histórico capitalista está operando no modo “dane-se”, numa tentativa de recuperar tais taxas a qualquer preço”. Obrigado.

    • Wallerstein, I.; Collins, R.; Mann, M.; Derluguian, G. and Calhoun, C. (2013) Does Capitalism have a future? New York: Oxford University Press.
      Streeck, W. (2016) How will capitalism end? Essays on a failing system. New York: Verso.
      Steger, M. B. and Roy, R. K. (2010) Neoliberalism: a very short introduction. New York; Oxford University Press.
      Wallerstein, I. (2002) Após o liberalismo: em busca da reconstrução do mundo. Petrópolis: Vozes.
      Wallerstein, I. (1998) Utopística: las opciones históricas del siglo XXI. México: Siglo XXI ed.
      Freitas, L.C. (2005) Uma pós-modernidade de libertação: reconstruindo as esperanças. Campinas (SP): Autores Associados.
      Wallerstein, I. (2001) Capitalismo histórico & civilização capitalista. Rio de Janeiro: Contraponto.
      Veja também Nancy McLean na página de bibliografia.

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