Postado originalmente na Uol em 10/08/2011
Costumo brincar com meus alunos de pedagogia que não é necessário nenhuma grande descoberta científica ou grande estudo teórico para se formular política pública. Basta ouvir os professores. Eles, melhor do que ninguém, sabem onde estão os problemas.
Se ouvíssemos os professores, ao invés de darmos ouvidos a economistas com suas políticas de envergonhar a escola e seus profissionais com tabuletas do IDEB, bônus e outras invencionices, estaríamos aplicando melhor nosso tempo e dinheiro.
A fala simplificada e superficial destes “novos teóricos” se desfaz ante o relato daqueles que fazem o dia-a-dia da escola como o professor Mauro Sala.
IDESP, o fenômeno da multi-seriação na escola seriada e a condição do trabalho educativo
Mauro Sala
Professor de Sociologia na Rede Estadual de São Paulo
Este pequeno texto nasceu da nossa vivência prática como professor da rede estadual pública de São Paulo, lecionando Sociologia no Ensino Médio. Ele partiu de uma “percepção” compartilhada por muitos colegas de que o que ensinamos aos alunos – ou a muitos deles – não é entendido. Sempre discutíamos sobre a inadequação de tal ou qual conteúdo, tal ou qual abordagem para certo número de alunos, embora estes frequentassem a mesma sala e estivessem na mesma série escolar. Intuíamos que havia um enorme descompasso nos níveis de aprendizado e de conhecimento em uma mesma sala de aula, o que tornava a aula proveitosa para alguns, mas raramente para todos.
Em uma reunião pedagógica em que tomamos conhecimento dos resultados do IDESP-2010[1] da nossa escola, aquela “percepção” dotou-se de um pouco mais de concretude.
O IDESP, grosso modo, compõe-se de duas variáveis: o desempenho em uma avaliação padronizada (o SARESP) e o fluxo escolar, onde o ideal seria sintetizado pela fórmula de um bom nível de aprendizado em um tempo considerado adequado. O IDESP avalia o 5° e o 9° ano do Ensino Fundamental e o 3° ano do Ensino Médio.
Além do mau resultado geral [2] e do resultado preocupante de nossa escola (que estava abaixo da média estadual), outro dado nos chamou a atenção: a distribuição dos alunos por “nível de desempenho”.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEE/SP) agrupa os alunos em quatro níveis de desempenho: “abaixo do básico”, “básico”, “adequado” e “avançado”, “definidos a partir das expectativas de aprendizagem da Proposta Pedagógica do Estado de São Paulo”. O “abaixo do básico” é considerado “insuficiente” pela SSE/SP, o “básico” e o “adequado” são considerados “suficientes”.
No caso da nossa escola mais de 35% dos alunos que cursaram o 9° ano do ensino fundamental em 2010 estavam “abaixo do básico” em língua portuguesa, e mais de 40% deles estavam “abaixo do básico” em matemática, sendo que para o 3° ano do Ensino Médio esses valores subiam para 42,2% e 57,7% respectivamente.
É interessante notar que para a SEE/SP o “básico” ainda não é “adequado” embora ela considere “suficiente”. Para a SEE/SP o “básico” não representa mais que um “desenvolvimento parcial dos conteúdos, competências e habilidades requeridos para a série escolar em que se encontram”. Ou seja, os alunos que se encontram no nível “básico” apresentam defasagens em relação ao que é esperado. Assim, quando somamos o percentual de alunos nos níveis “abaixo do básico” e “básico”, atingimos a proporção de mais de 90% dos alunos nessa condição em língua portuguesa e matemática no 9° ano do Ensino Fundamental e percentuais de 76% e 97% para o 3° ano do Ensino Médio, respectivamente para as duas disciplinas. Assim, a grande maioria dos alunos avaliados se concentra nos níveis “abaixo do básico” e “básico”, ou seja, mantêm níveis inadequados de aprendizagem.
Além do mau resultado, os dados disponíveis evidenciam pelo menos mais dois problemas: 1) que grande parte dos alunos não tem o nível de proficiência adequado para as séries que estão cursando, em que pese o ainda alto número de reprovações; e 2) que com o passar da escolarização os alunos tem resultados cada vez piores, aumentando a distância do que se consideraria ideal.
Pensamos que esses dois problemas, quando adequadamente relacionados, vêm a nos colocar uma questão que precisa ser foco de investigação, a saber: qual a relação entre a inadequação dos níveis de proficiência nas séries avaliadas com a diminuição, no passar da escolarização, dos níveis de aprendizagem, forjando no final do processo os resultados insatisfatórios aprese
Nossa hipótese é que se está recriando no interior da escola seriada o fenômeno da multi-seriação, evidentemente com todos os inconvenientes dessa inadequação.
Entendemos como escola multi-seriada a situação em que se reúnem estudantes de várias séries na mesma sala de aula com apenas uma professora que os acompanha em todas as disciplinas. Sabemos os problemas dessa situação, que normalmente se define pela falta: falta de professores, falta de alunos, falta de escolas.
Embora a escola multi-seriada seja uma realidade muitas vezes em si problemática, o foco de nossa preocupação não se dirige diretamente a ela. Aqui estamos preocupados com os problemas causados pela recriação da multi-seriação no interior de uma escola que em sua estrutura e funcionamento é seriada.
(Continua na próxima postagem.)