USA: reformas derrubam formação de professores

Carol Burris informa que há uma grave crise nos Estados Unidos que está afetando o recrutamento de jovens para a profissão de professor e reúne uma série de evidências. Entre elas as apontadas por Eric Westervelt:

“Em vários estados tem havido quedas alarmantes no número de matriculados em programas de formação de professores. Os números são sombrios entre alguns dos maiores formadores de novos professores no pais: na Califórnia, a inscrição é até 53 por cento menor nos últimos cinco anos. E cai agudamente em Nova York e no Texas também. Na Carolina do Norte, a matrícula teve uma queda de quase 20 por cento em três anos.”

California, Nova York e Texas estão entre os Estados americanos que fazem uso pesado das reformas empresariais na educação. A própria Lei de Responsabilidade Educacional americana nasceu no Texas quando Bush era governador do Estado.

As evidências de Burris ainda revelam que no distrito escolar de Rio Rancho no Novo México, em Albuquerque, no início do ano letivo ainda se precisava desesperadamente de professores. Os alunos de 33 salas de aulas foram atendidos por substitutos. Segundo a Superintendente local, Sue Cleveland, é uma tendência que fica pior a cada ano:

“Ela disse que poucos estudantes universitários estão optando pelo campo do ensino e os professores estão se aposentando mais cedo, agravando o problema. Cleveland disse ao conselho que nos primeiros dias do ano letivo de 2010-11, havia sete cargos de ensino vagos. O número tem aumentado todos os anos.”

No Arizona, faltam 1.000 postos de trabalho. Em Nevada a situação não é melhor. Mesmo que todos os estudantes dos cursos de preparação de professores fossem para as salas de aula, ainda não seria suficiente. Só no distrito de Clarke faltam 2.600 professores.

Em Oklahoma, a escassez atingiu proporções de emergência e apelou-se para trazer professores de Puerto Rico e da Espanha como professores bilíngues. O estado é um dos que menos pagam. Em dois anos o número de solicitações para “certificação emergencial” de professores saltou de 97 para 499. Na California a crise também é grande.

Para alguns, esta crise se deve a uma combinação de fatores entre baixa matricula nos cursos de formação e problemas relacionados com a recessão.

No entanto, há mais. Um dos efeitos perniciosos das reformas empresariais da educação baseadas na culpabilização dos professores e dos métodos empresariais  de pressão sobre esta categoria, é o abandono e/ou desestímulo para entrar na carreira de professor.

O que se vê na experiência americana é que o pagamento de bônus que na visão dos reformadores deveria chamar jovens talentosos para a profissão ao receberem diferenciadamente de acordo com seu desempenho, não se concretizou.

Eric Westervelt afirma que:

“Há, é claro, os programas alternativos de certificação de professores em todos os EUA, incluindo a Teach for America. Mas a TFA, também tem tido grandes quedas nas matrículas nos últimos dois anos.”

A TFA é uma ONG que forma professores em seis semanas sustentada com dinheiro que inclui financiamento privado oriundo de Fundações da Família Walton e de Bill Gates. Foi uma forma improvisada de aumentar os quadros de professores para atender a demanda por mais professores e com salários mais baixos. No entanto:

“O grupo [TFA], que tem procurado transformar a educação em estreito alinhamento com o movimento das escolas charters, alertou as escolas que o tamanho de seu corpo docente poderia cair em até um quarto e fechou dois dos seus oito centros de formação nacional de verão, situados em Nova York e Los Angeles.”

Com as políticas dos reformadores, os professores são acusados de não ensinar seus alunos a despeito das condições externas e internas de funcionamento das escolas, sendo submetidos a toda sorte de recriminações públicas na mídia e a métodos de controle que cada vez mais engessam seu trabalho e o desqualificam.

Nosso post recente sobre a situação do Estado de Pernambuco é um exemplo. Alí recuperou-se um degradante “diário de classe” agora em formato eletrônico. Nos Estados Unidos os professores convivem com tais situações há mais tempo. Se as metas não são atingidas, professores são demitidos, escolas fechadas ou terceirizadas para a iniciativa privada. Os impactos vão se estabelecendo: diminui o interesse nacional pelo ingresso na profissão de professor, pais retiram seus filhos dos exames nacionais de larga escala, gestores advertem para os graves efeitos colaterais das medidas.

Há vários fatores que conduziram a esta situação. As opiniões, no entanto, colocam grande responsabilidade por esta situação nas reformas empresariais da educação. Carol Burris, da Rede em Defesa da Escola Pública, afirma em seu relatório que:

“No início deste ano, a NPR também informou sobre a escassez nacional de professores. A identificação da causa feita por Eric Westervelt vai além da suspeita habitual – a economia. Observando a queda dramática no número de matrículas em programas de formação de professores (uma queda de 74% em menos de 10 anos na Califórnia), ele astutamente atribuiu o problema, pelo menos em parte, à forma como as reformas empresariais têm impactado a profissão.

Westervelt, relata que a Base Comum (Common Core) e suas batalhas; os testes de alto impacto, a erosão da estabilidade, bem como a avaliação dos professores por pontuação de testes, têm contribuído para a crise.

Isto não é nenhuma surpresa para aqueles que estão na profissão. David Gamberg é o superintendente dos distritos Greenport e Southold no extremo leste de Long Island. Ele está muito preocupado com o fato de que o ambiente político hostil em relação aos professores está contribuindo para a escassez de profissionais que estamos vendo hoje. “Eu suspeito que uma série de questões conspiram para agravar o problema. Certamente, o ataque nacional em curso contra os professores e sindicatos está perto ou no topo da lista dos fatores que afasta as pessoas “.

O que Gamberg suspeita está de acordo com a evidência. Há histórias frequentes sobre professores de escolas públicas que estão deixando a profissão ou aposentando-se antecipadamente por causa das barreiras ao trabalho em um ambiente de “teste e punição”. Uma pesquisa da NEA de novembro reporta que cerca de 50% de todos os professores estão considerando sair da profissão devido a testes padronizados. Igualmente preocupante é a frequência com que os educadores estão desestimulando os jovens a ingressar na profissão.”

E conclui:

“Se queremos mudar essa tendência, precisamos agir agora não só para parar os ataques contra os professores e a estabilidade no trabalho, mas também parar com os sistemas de avaliação destinados a demitir professores baseados em métricas que ninguém entende. E não podemos esquecer a questão de remuneração e condições de trabalho.

É tempo de que os responsáveis políticos voltem atrás e tracem uma rota diferente. Não faz sentido agarrar-se a reformas falidas. Quando as aulas começam, estudantes de todo o país pagam um preço elevado.”

No Brasil constrói-se no INEP o sistema de credenciamento de professores, disfarçado de Prova Nacional de Concurso. Ao mesmo tempo, ampliam-se as perspectivas de se fazer cada vez mais uso das ideias dos reformadores empresariais na educação. Poderemos ter também a liberação no futuro da formação de professores para ONGs, seguindo o caminho da TFA que mencionamos acima, com a justificativa de que para exercer a profissão precisará fazer a prova de credenciamento. Se passa, então está apto, não importando onde foi formado. Tudo isso já foi aplicado, não melhorou a educação e gerou mais problemas colaterais do que solução.

As consequências negativas das políticas de pressão sobre professores a partir de estratégias formuladas pelos reformadores empresariais estão cada vez mais claras. É hora de pensarmos se este é o caminho que de fato queremos para a educação brasileira.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
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4 respostas para USA: reformas derrubam formação de professores

  1. sonia sigrist disse:

    está acontecendo exatamente isso no Brasil. A UFMG- Ouro Preto, está com o curso de formação de professores em várias áreas, ociosa.

  2. redelivre disse:

    Prof. Luiz Carlos: Poderíamos intuir, então, que criando essa situação de desinteresse pela profissão docente, os reformadores empresariais estão atingindo um de seus objetivos estratégicos, qual sejam, o de inviabilizar a docência no regime de estabilidade (tenure), ficando o campo livre para a precarização definitiva desse segmento profissional?

    • Diria que a tendência é “desregulamentar” a profissão e com isso atingir por tabela os sindicatos e seu potencial para organizar seus trabalhadores e reagir às teses dos reformadores. A desregulamentação e acompanhada de “certificação” via exames. Este me parece o eixo central. Há também o interesse em criar agências de formação rápida de professores que possam abastecer a privatização através de terceirização de gestão, contratados via CLT e não com estabilidade.

  3. Pingback: USA: APRENDAMOS COM O ERRO DOS OUTROS | Grupo de Estudos e Pesquisa em Avaliação e Organização do Trabalho Pedagógico

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