Parem a política de bônus

Postado originalmente na Uol em 25/07/2011

O importante desta crise provocada pelo estudo da RAND que implodiu a política de bônus em Nova York é que ela revela vários aspectos da agenda dos reformadores empresariais.

Primeiro, mostra o oportunismo de um grupo de porta-vozes do movimento. Bastou Nova York ter problemas e estes porta-vozes imediatamente alardearam pela mídia que “não era bem assim”. Segundo eles, em Nova York não deu certo ainda, mas vai dar. Tudo o que precisa é fazer mais pesquisas. Além do que, há – segundo eles – estudos que mostram que o bônus funciona na Índia, no Chile e no Reino Unido. Como sempre, não são apresentados os tais estudos para que o público possa consultá-los. Quem os fez, onde os publicou, com que metodologia? O ônus da prova é posto nas costas do leitor.

Segundo, mostra como o movimento dos reformadores se organiza em articulação com a mídia. A Folha de São Paulo de hoje (25-7-2011) tem um editorial sobre bônus. Editoriais são de responsabilidade do jornal. Note-se a importância atribuída à sustentação da ideia de que dar bônus vai funcionar. São esperadas mais manifestações de “amor”. E os argumentos são os mesmos: são necessárias mais pesquisas e há estudos que contradizem nova York – de novo, Índia, Chile e Reino Unido. Nenhum destes países é top no PISA e os que são top não usam bônus. Mas não tem importância quando se trata de defender as ideias dos reformadores. Note que no Estado de São Paulo onde se usa bônus os resultados do SARESP despencaram em 2010. Mas nada disso conta.

Isso é importante porque revela que a divulgação destas ideias não passa, de fato, pela pesquisa. É uma crença e crenças não são racionais. É, de fato, uma ideologia importada da área dos negócios. Daí a reação tão forte dos reformadores: se funciona nos outros negócios, não é possível que não funcione nos negócios da educação.  Não é sem razão que sejam os “especialistas em educação” oriundos da área dos negócios ou a ela ligados, os que estejam defendendo estas ideias que ecoam na mídia.

Está em disputa a agenda educacional brasileira. Os empresários, como o fizeram nos Estados Unidos na década de 90, vão disputar este espaço. Nada contra a disputa, é claro.

Como tenho dito em outras postagens, há mais um “ato falho” compreensível neste momento de desespero para os reformadores: ao admitirem que são necessárias mais pesquisas, eles admitem que fizeram experimentos com redes inteiras usando ideias pouco conhecidas. Só em São Paulo usaram tais ideias com 5.000 escolas e mais de 200 mil professores e gastaram só no ano passado 340 milhões de reais. Isso é antiético e de baixa probidade administrativa. Se não conhecem, não deveriam experimentar com redes inteiras. Onde está a probidade administrativa deste pessoal que gasta dinheiro público com ideias que pouco pesquisaram?

Só há uma saída: suspenda-se a utilização de bônus nas redes até que as pesquisas esclareçam tais práticas – é o que pede a coerência dos argumentos.

Sobre Luiz Carlos de Freitas

Professor da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - (SP) Brasil.
Esse post foi publicado em Meritocracia, Postagens antigas da UOL, Responsabilização/accountability e marcado . Guardar link permanente.

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